sábado, 18 de fevereiro de 2012

Da solidão à sensação de "dualidão"

Acredito que essa sensação da transformação da solidão em "dualidão", descrita por Nietzsche para significar seu contato com os conhecimentos adquiridos por Spinoza e a observância de semelhança em seus percursos e nas repercussões de suas posições. São esses encontrões intemporais com proximidade entre idéias e posturas de pensadores distanciados até por séculos, que fortalecem, a meu ver, os elos de pertencermos a uma mesma humanidade.

Em nova mesa redonda, por mim organizada,já estão acomodados alguns convidados trazendo em seus currículos suas idéias inovadoras. Vídeos com suas palestras podem ser encontrados disponíveis no YouTube, a quem se interessar em melhor compreender o processo energético do ser humano.

Uma apresentação concisa de seus componentes, por já tê-los citado anteriormente:
*A neuroanatomista Dra.Jill Bolte Taylor, que conseguiu se recuperar de um difícil quadro de AVC (acidente vascular cerebral) e como cientista além de relatar em livro, o passo a passo de suas experiências, se dispôs a realizar palestras para divulgar suas descobertas comprovadas científicamente;

*O professor de física Laércio B. Fonseca, que em sua aula sobre Física Quântica e Espiritualidade nos confronta com suas idéias pioneiras e nos permite acompanhar seus argumentos dentro de uma logicidade que nos remete obrigatoriamente a adentrar um labirinto de reflexões. Confesso que a maioria de suas constatações acompanho, mas algumas estão muito além de minha compreensão no momento... mas estou aberta a elas. No penúltimo vídeo da série que contém essa aula, expõe propostas inovadoras sobre "partículas e ondas fazerem parte do mesmo campo a que chamamos de consciência", que valem a pena ser consideradas com atenção especial;

*Representantes da Gestalt-Terapia, como Fritz Perls e Barry Stevens com sua busca de novas maneiras de enfrentar a vida e entrar em contato com a força e originalidade de sua criação. Muito me atrai os recursos terapêuticos usados em seu desafio de focalizar a tomada de consciência. Muitos utilizei, com bons resultados, tanto em atendimentos individuais quanto grupais;

*Jung com suas descobertas sobre energia psíquica e representantes da bioenergética e da psicologia transpessoal persistem em seus postos;

*Entre os filósofos também persiste Nietzsche e convido Spinoza;

*Conclamo a presença de Krishnamurti cujas idéias, nessa mesa, terão espaço para serem realmente escutadas e assimiladas em comunhão por todos os demais, já capacitados para esvaziar suas mentes dos condicionamentos, conhecimentos passados acumulados e da influência profunda de toda forma de poder: preconceitos, tradições, religiões fragmentárias, autoridades psicológicas que aprisionam o ser e o impedem de atingir sua liberdade interior.

Sobre Krishnamurti me estendo um pouco mais, por ser a primeira vez que o cito como participante ativo, difundindo o conteúdo de suas idéias através de inúmeras palestras e livros - de grande valia para minhas pesquisas atuais.

Jiddu Krishnamurti (1895-1986) realça que o maior inimigo do homem se concentra no tempo psicológico e que urge a necessidade de sua eliminação, para que a verdadeira liberdade interna seja alcançada, e seja barrada a fragmentação destrutiva das sociedades, formadas por homens perdidos em sua desumanidade.

Krishnamurti tem total consciência de sua diferenciação da maioria, onde muitos enquadram suas idéias inovadoras na categoria da loucura. No entanto, confirma seu fortalecimento na verdade alcançada e, em sua firme postura autocentrada, continua na defesa do homem. Sua proposta é que, para que mudanças reais e imediatas ocorram, o homem precisa se abrir para a escuta atenta de sua intuição - percepção imediata - onde não se observa a participação da mente e da memória condicionadora, que o aprisiona e o molda a padrões externos já estabelecidos. Coloca como decorrentes da mesma movimentação energética a percepção imediata, a visão intuitiva, o amor e a compaixão: daí advém, segundo ele, a energia saudável e a força necessária para a construção da humanidade no lugar das sociedades, ditas civilizadas, que formamos no mundo atual.

Em suas conferências e palestras (vídeos no YouTube) destaca a importância dessa visão intuitiva para a humanidade, que se deteriora ante tantas guerras e justificativas, que são mais distorções racionais para a exposição de todas sua violência e desagregação como ser humano. Sua investigação recai sobre a causa do homem enganar a si mesmo e permitir que sua própria mente o aprisione na corrente de ilusões que ela criou ao redor dele. Mesmo não se sentindo bem, desamparado e perdido nesse quadro social, prefere ficar no mesmo lugar, fato incompreensível, se analisado sob os holofotes da lógica da razão. Aponta, ainda, para o perigo da ilusão do "buscar a transformação", que considera mais uma fuga do que um atuar visando um mudança de postura interna. Coloca que a armadilha, aí contida, é pelo fato das expectativas dos homens se basearem em conhecimentos atrelados ao "tempo psicológico" de pensamentos, referenciados pela imaginação do passado ou de um futuro. Sem a referência prática a possíveis alterações do agir no "presente", único tempo real, paralisam o homem e o impedem de alcançar o estado de espírito interior e a verdade de sua existência e essência.

Krishnamurti se empenhou, durante sua vida, a divulgar suas idéias sobre a necessidade do homem adotar uma nova forma de agir para mudar o quadro de destruição que o cerca. Em seu processo investigativo é constante seu questionamento sobre o porquê do homem, que se intitula racional, agir de forma tão irracional - reconhecendo sua irracionalidade - e persistir no ambiente deteriorado, que sua própria mente insana criou.

Seus livros reúnem as conferências e palestras por ele proferidas. São transcritos em forma de indagações e busca de respostas normalmente em diálogos. "Uma Nova Maneira de Agir" data de 1964, mas traz os problemas e questões atuais, de forma que causa surpresa observar a mesma moldura destrutiva ser mantida e a dificuldade do homem "escutar"a si e à natureza do universo cósmico, e utilizar sua "visão intuitiva"- percepção que o conduz ao esvaziamento da mente da energia pensamento, e à aproximação solitária do vazio silencioso de um espaço interior, pleno de outro tipo de energia, verdadeira força interna a conduzi-lo a ser livre e a um estado de espírito sereno.

Os que contém seus diálogos com o físico quântico David Bohm, abordando o sistema energético intrínseco ao ser humano e o movimento da energia pensamento, são muito instigantes - ainda mais se considerarmos as décadas em que ocorreram.

Agora é vocês conferirem!
E para quem for da área de saúde mental,considero importante o estabelecimento de conexões com as qualidades dos vínculos estabelecidos com seus pacientes, em qualquer modalidade de terapia, e a escolha dos recursos terapêuticos a serem empregados.

Ops! E não esqueçam de revalidarem teorias reducionistas, que ainda buscam enquadrar o paciente visando resgatar um passado e chegar a uma qualidade de vida padronizada pela sociedade vigente.

O foco é propiciar ao homem social, hoje em dia cada vez mais indiferente e perdido em si mesmo, que se aprisionou e se violentou, liberar "com urgência" seu lado humano sensível e racional, íntegro e harmônico, livre e sereno.

Epa! Esqueçam o "com urgência", hábito ou ação já automatizada, ou robotizada se preferirem um termo mais atual. Seu uso inadvertido serviu para exemplificar como nos condicionamos a agir sem pensar, nos deixando levar, sem refletir, dentro da imposição do enquadramento do "relógio do tempo psicológico", que "nós mesmos inventamos para nos enjaular"!

Aurora Gite

P.S. : Já visitaram www.ameporto.org ?
Não é para se espantarem, mas o site é da Associação Médica do Porto (Portugal) e artigos científicos de ponta registrando últimos experimentos com o uso de neuroimagens funcionais.

Destaco ainda os vídeos do Prof. Dr. Decio Iantoli Jr disponíveis no YouTube. acesso pelo Google. Ou assistam a um deles, que indico com prazer, em: www.youtu.be/aRHzsq6KgMc

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Nova perspectiva: novo prisma sobre a humanidade

Duas inquietações me mobilizaram a mudar de perspectiva, ampliando assim o prisma de minha observação do mundo e das relações humanas... e das formas de psicoterapias o que é pauta de futuro blog a elas mais direcionado.

A primeira inquietação envolve a enorme abertura dada pelos representantes oficiais da Psicanálise à entrada de vários profissionais, muitos dos quais com vasto campo teórico e mínimo campo prático no que diz respeito a sua própria formação pessoal como psicanalista, colocando em perigo a complexa relação analista-analisando com seu intrincado mundo transferencial representando um viés interpretativo, um caminho sem volta na realidade concreta do paciente em análise. No contato com defensores da Psicanálise me advinha a mesma sensação: como estavam tão acima, seu foco recaia na fortaleza teórica freudiana, e não demonstravam preocupação com qualquer infiltração que pudesse abalar suas bases, nem com o fato de que os indivíduos estavam mais e mais infelizes, e que as sociedades mais estavam totalitárias e opressoras. Nesse sentido, o quadro vivencial do ser humano pouco mudou. E isso é fato!

A segunda foi despertada pela inovação terapêutica advinda da Filosofia Clínica. Entendo filosofia como amor à sabedoria, amor à verdade. Para mim o próprio viver psíquico deveria inspirar e expirar o ar renovador e unificador desse amor. A humanidade em si ser fortalecida em sua integração pela convivência que o amor implica através do cuidar prazeroso que leva a um convívio agradável e sereno. No que residiria, então, uma clínica filosófica? Como haver uma investigação filosófica, ligando a existência humana à sua essência, sem esbarrar intrusivamente na clínica psicológica, entrando em choque frontal com a base ética dos limites humanos, não só formais mas virtuosos, a serem respeitados. Como imaginar o uso da Filosofia abalando o pilar transparente da Justiça como bem maior em suas regras de convivência adequada? Como vislumbrar a não observância, por parte dos que se dizem filósofos, dos direitos legais sociais a serem preservados, ou refutados, com base nas leis criadas pelos homens visando esse alcance?

De repente mudei de posição e, com essa atitude, me deparei com outro ponto de vista. O foco no social e nas sociedades, recaiu direto sobre o humano e a humanidade, que estiveram por anos encobertos.

Aí foi esticar a mão e retirar da prateleira os livros, não; as idéias de Jiddu Krishnamurti (1895 - 1986), também não; muito menos as palavras e os pensamentos, ou conhecimentos e condicionamentos, tão questionados por ele por estarem atrelados ao que considerava o maior inimigo do humano, ou seja, o tempo psicológico. Seu foco estava na "ação humana". Sua investigação recaia sobre a dificuldade do ser humano "irracional em suas atitudes", recusar se reconhecer dentro de sua irracionalidade, sempre se escondendo sob o manto do racional para não precisar agir em seu existir no agora.

Eis o que buscava nessa palestra proferida por Krishnamurti em 1980 (Ojaí, Califórnia). Mudem a moldura de 1980 para 2012 e verifiquem como ainda lhe cabe:

"Gostaria de fazer uma pergunta que poderá nos conduzir a algo: o que é preciso para o homem transformar-se profunda, fundamental e radicalmente? Ele tem passado por crise após crise, tem sofrido inúmeros choques, tem atravessado todos os tipos de infortúnios, de guerras, de sofrimentos pessoais, e assim por diante. Tem tido um pouco de afeição, um pouco de alegria, mas tudo isso não parece mudá-lo. O que fará com que um ser humano abandone o caminho que está seguindo, e siga em direção completamente diferente? Esse é um dos nossos maiores problemas, você não acha? Por quê? Se estivermos preocupados, como deveríamos estar com a humanidade, com todas as coisas que estão acontecendo, qual será a ação correta para levar o homem a mudar de direção? Essa pergunta é válida? Tem algum significado? (...) o que está segurando as pessoas... o que está mantendo as pessoas no seu rumo atual...parecem mudar, mas o centro egotista permanece o mesmo...o que dificulta a manutenção de afastamento de atitudes irracionais, padrões destrutivos e autocentrados...o que leva a mente a enganar a si própria? (...) Os analistas tentaram, as pessoas religiosas tentaram, todo mundo tentou tornar os seres humanos inteligentes - mas eles não tiveram sucesso (...) há muitas explicações bastante racionais, e no final caímos de volta nisso (...) Você poderá me apresentar mil explicações, e todas provavelmente um pouco irracionais, mas eu direi: você o fez (rompeu o padrão) ?"

Recolho agora material das obras de Krishnamurti com seu foco no "agir no agora da humanidade" e cruzo com o que me fornece André Martins, filósofo e psicanalista em seus livros "Pulsão de Morte?" (novas idéias e propostas teóricas inovadoras para uma clínica psicanalítica, que visa à potência do agir do analisando) e "O mais potente dos afetos: Spinoza&Nietzsche" (o "conhecimento" como o mais potente dos afetos, ou seja, aquilo que me afeta, me causa afeição, vínculo afetivo).

E me aventuro agora a ler "O Livro Negro da Psicanálise: viver e pensar melhor sem Freud", em suas 644 páginas, org. por Catherine Meyer. Na contracapa podemos ler: "Há uma vida depois de Freud: podemos, em terapia, trabalhar um inconsciente não freudiano (...) Este livro é, antes de tudo, um ato de confiança na liberdade de cada um. Cabe ao leitor saber resistir aos argumentos de autoridade daqueles que "sabem", daqueles que decidem ex abrupto. Cabe a ele comparar os diferentes pontos de vista."

Como começar em meio a tudo isso?
É simples! Comece por acompanhar, dentro de você, a movimentação de sua energia interna ante a mudança dos termos "sociedade" por "humanidade". Só observe e constate o que ocorre quando o "homem social" cede espaço para o "ser humano".

Aurora Gite


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Uma Saudosa Homenagem

Casa Arrumada

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros
saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.

Carlos Drumond de Andrade
(1902 - 1987)

Sem palavras novamente... só saudades!
Aurora Gite

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

" O que fazer?"

O que fazer?


Para associar mundo moderno com viver bem
Não basta tentar,
Temos que ir muito além.
Há três tipos de pessoas
Que vale a pena conhecer:
O modernista, o campista
E o que sabe bem viver.

O primeiro adora tecnologia.
Para ele, computador
É coisa de magia.
Mas não deixa a cidade grande.
Para ele, viver bem
É nada mais, nada menos
Que fama, poder e dinheiro.

O segundo é o tipo fazendeiro.
Trabalhou a vida inteira
E ganhou muito dinheiro.
Com trinta anos se aposentou.
Uma fazenda comprou
E muito bem se casou.
Qualidade de vida para ele
É ser rico e bem casado,
Ter fazenda e muito gado.
E viver bem relaxado.

O terceiro é bicho estranho.
Mas vale a pena mostrar,
Pois tem muito valor
No que estamos a falar.
Este sabe misturar
Viver bem e na cidade morar
Tem casa na cidade
E outra linda no campo.
Gosta de gastar,
Mas não tem dinheiro no banco.
Trabalha no que acha legal,
Mas o que ganha é muito mau.
Casou-se com quem ama,
Passa o domingo na cama.
Gosta de trabalhar,
Mas odeia o chefe encontrar.
Não sabe se vive bem,
Mas de uma coisa está certo:
É muito nervoso,
Mas é feliz também.

Agora, cabe a ti escolher
Qual dos três você quer ser.
Para quem não sabe o que fazer,
Saiba que minha opinião já fiz:
O que mais quero é ser feliz.

Luis Felipe Cyrillo Danezi
em seus 12 anos de idade
publicado na Revista de sua escola


Vale como lembrete para que os adultos não se esqueçam de seus sonhos e de quem realmente foram e poderão ser.

A dica da vida não é que procuremos nos adaptar às circunstâncias ao nosso redor, administremos nossos medos - como o medo do amor e de ser feliz - ou gerenciemos nosso "eu" em prol do bem viver de acordo com a expectativa de sociedades com normas, valores e preconceitos instituídos antes mesmo de nela existirmos. Não são as circunstâncias responsáveis por quem somos. Nosso "ser no mundo", com qualidade de vida, está atrelado a outras forças internas.

A mensagem que a vida nos envia é para respeitarmos com lealdade a pessoa que, em essência, existe dentro de nós; é confiarmos em nossa liberdade e capacidade para transformarmos o que nos cerca; é termos coragem dentro da simplicidade de buscar que nossa existência se adapte a quem realmente somos; é sermos fiéis a nossos sonhos sem medo de ser feliz.

É podermos olhar para trás e sentirmos profundo orgulho por termos nos permitido lutar por nossos sonhos, buscando suas inserções na realidade, em vez de termos vivido dentro deles, como sonhadores com medo de viver, o que a vida nos encaminha.

E, se a vida nos encaminha, faz parte de um mistério, a ser enfrentado e desvendado.
Qual são os primeiros passos a serem dados?
  • Encontrar e acolher o menino que todos temos dentro de nós.
  • Sair da bolha sonhadora, que mina a esperança de realizações ocorrerem; que eterniza o tempo, mas paralisa nosso andar por ele. E que susto ao vê-lo ter passado tão rápido!
  • Colocar os pés no mundo real, buscando na dignidade pessoal alcançada, a força e o equilíbrio para caminhar.
  • Dar sentido e qualidade a nossa vida, para nos aproximarmos da grandeza do bem viver.
  • Resgatar e agora sim vivenciar os sonhos, não tão esquecidos assim dentro de todos nós.
A partir daí, mãos à obra!
Posicionar sua tela mental, pegar o pincel de sua imaginação e delinear o esboço do que quer para sua vida. A cena onde seu desenho vai ser formatado vai depender da paisagem de seu cotidiano, mas as cores, que darão força à imagem que vai surgir, vão depender de suas escolhas e de sua vontade para decidir sobre quais delas vai querer que façam parte de sua criação, de seu viver a partir de agora.

Aurora Gite

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ufa, até que enfim! Valeu o esforço!

Muitos dos que acompanham meu blog sabem de minha intenção ao criá-lo. Queria que servisse de voz a minhas pesquisas, que tiveram como ponto de partida vivências reais que não encontravam fácil conexão de escuta por parte de muitas pessoas, pela dificuldade de serem nomeadas.

Mesmo caminhando durantes anos nos meios científicos, encontrei grande dificuldade de espaço pelo desconhecimento da função do psicólogo e desconsideração de seu papel na área psíquica. Em blogs anteriores faço constar esse caminhar e a persistência na busca de profissionais afins com quem pudesse trocar idéias sobre minha hipóteses.

Como acredito que paciência e perseverança sejam características indispensáveis a um pesquisador, me voltei a pesquisas na literatura diversificada entre física quântica, psicanálise, psicologia transpessoal, partindo para os conhecimentos paranormais comprovados cientificamente. Como, no campo pragmático, tinha dados diretos, advindos de minha vivência pessoal, procurei lidar com fenômenos psíquicos, desnomeando-os, desmontando enquadramentos, crenças e preconceitos, que aprisionavam o real e que poderiam distorcer minhas percepções. Ah, busquei também escapar da tentação das articulações fáceis com sedutoras teorias, e fechadas em seu saber!

Conseguia uma informação e já me colocava disponível para a apreensão dos resultados de novas descobertas metafísicas. Sendo assim, meus votos e sonhos para 2012, não poderiam se afastar do desejo de que passassem a ser reconhecidas a nova natureza psíquica do ser humano e a real possibilidade do alcance de sua verdadeira espiritualidade, desvendada pela ciência do milênio.

Como tenho feito, até agora, deixo registrada as referências bibliográficas onde encontrei sintonia e sincronicidade com minha experiência. A cada degrau de compreensão das teorias, altero meus companheiros de jornada, do que chamo "mesa redonda de idéias". Embora estejam ausentes fisicamente, estão muito pertos pelos vínculos caracterizados pela acronia e pela atopia. Isso não os diferencia dos novos elos decorrentes do mundo virtual. Amigos próximos são criados facilmente, deletados e resgatados. mais rapidamente ainda. dentro do pouco envolvimento afetivo real das redes de solitárias relações virtuais. O que constatamos não é uma civilização marcada pelo imaginário, pelo simbólico, pela construção de um real fictício, tão distante da realidade presentificada e que clama, nesse momento histórico pelo menos, por seu espaço a cada minuto de vida?

Bem, nesse final de ano, o cardápio de idéias para minha ceia reflexiva, consistiu na articulação das energias do ser humano em sua vias químico/físico e quântico/psíquico. Muito me ajudaram as informações transmitidas pelo físico Laércio Fonseca, cujas aulas sobre Espiritualidade e Ciência encontram-se disponíveis em vídeos no Youtube, de fácil acesso pelo Google. Através de seu ensinamento, em forma de "b-a-bá" sobre o mundo quântico, pude nomear minha experiência e registrar a constatação da percepção dos estados alterados de consciência decorrentes de saltos quânticos, inclusive da sensação de imã -força propulsora- e da fase de não consciência entre eles: tempo e espaço somem; a linguagem conceitual é substituída por outra forma de comunicação mental, um pensar intuitivo, sem o crivo de palavras, mas de sensações também intuídas,via telepatia. Confesso que ainda me falta muito para assimilar os conhecimentos a que chegou Fonseca, mas o raciocínio lógico observado em seus argumentos é inegável nesse novo mundo de possibilidades, de incertezas, de probabilidades alocais e atemporais que se entrecruzam no presente.

Vou me permitir parar de descrever minha experiência pessoal. Em blogs anteriores vão encontrar a angústia de minha empreitada buscando relatar passo a passo essas vivências. Neles faço constar a lista de meus "convidados" em anos anteriores, de acordo com os patamares de minhas pesquisas. Graças a todo esse trabalho tenho encontrado meios para reconhecer o fenômeno psíquico que ocorreu, e recursos para expressá-lo em palavras.

Sendo assim, é fácil prever a relação de meus convidados, selecionados entre os que fizeram parte de minha jornada atual, fortalecendo minhas pesquisas recentes: Jung com suas personalidades 1 e 2 (assim nomeadas por ele); Lacan com seu pequeno outro e "grande Outro", seu "Supereu ético" em contraponto com o conhecido e cruel superego proibitivo freudiano; Freud, o inconsciente e o mundo quântico, pois considero que ele foi o primeiro a observar as interações subatômicas no interior do ser humano e nunca se afastou da esperança de que a psicologia ganhasse o "status" de científica e se voltasse à base orgânica do mundo psíquico.

Atualmente, me ponho a pensar no mundo psíquico, nas idéias (partículas) carregadas de afeto, irradiando "quanta" ou pacotes de energia eletromagnética, que mantém seus elos associativos.
Pela irradiação e qualidade da expansão da consciência (campo eletromagnético) , através da fala e do pensar, vão sendo alteradas a energia do afeto (perdas ou ganhos quânticos). Imagino o "insight", aquisição compreensiva, um saber advindo de um salto quântico da consciência, em sua função de onda eletromagnética.

Segundo Fonseca: "No espaço entre níveis quânticos, o elétron não existe. Some aqui e reaparece instantâneamente ali; no intervalo não tem realidade". Minhas reflexões me voltaram para buscar dados para justificar minha hipótese: uma consciência quântica... um intervalo atemporal... correspondendo ao que Freud denominou de "inconsciente".

Surpresa, lendo o livro - ganhei como presente de Natal - "Como Ler Lacan" (Slavoj Zizek, Zahar, 2010) , me deparo nas p.97 e p.98 com:

"A física de hoje está presa numa estranha dualidade: a teoria da relatividade dá a melhor explicação do modo como a natureza funciona no nível macroscópico (cósmico), e a física quântica dá a melhor explicação do modo como ela funciona no nível microscópico (subatômico). O problema é que as duas teorias são simplesmente incompatíveis, de modo que o objetivo central da física de hoje é formular uma teoria "unificada" de tudo que possa conciliar as duas.

Não ficaríamos surpresos, portanto, se encontrássemos um eco dessa dualidade na teoria de Freud: por um lado a hermenêutica do inconsciente, interpretações de sonhos, atos falhos ou outros "erros" desse tipo, sintomas...no nível conceitual freudiano: o Inconsciente e o Isso (sítio das energias inconscientes).

Como conciliar...? Um dos muitos neologismos no Lacan tardio é a noção de sinthoma...Em contraste com os sintomas (mensagens codificadas do inconsciente), os sinthomas são uma espécie de átomo de gozo, a síntese mínima de linguagem e gozo, unidades de signos permeadas com gozo (como um tique que repetimos compulsivamente). Não seriam os sinthomas quanta de gozo, seus menores pacotes? Não seriam eles, como tais, um equivalente freudiano das super-cordas, destinadas a conciliar as duas faces da física moderna, a teoria da relatividade e a mecânica quântica?

Embora Lacan seja muitas vezes criticado por negligenciar o vínculo entre a psicanálise e as ciências naturais em que Freud sempre insistiu, esse vínculo está vivo e atuante em sua obra."

Paro esse blog por aqui.
Agora é arregaçar as mangas e continuar cruzando dados.
O livro, acima referido, nos confronta com muitos deles.
Vale a pena sua leitura, para aqueles que se interessem pelo mundo psíquico do ser humano e estejam abertos a mudanças de perspectivas, que possibilitam, e acarretam, nova visão de homem e de mundo.

Mais uma indicação que computo de grande importância para melhor compreensão do momento atual, contendo novas perspectivas sobre os efeitos da Internet na mente humana:

Carr, Nicholas. A geração superficial: o que a Internet está fazendo com nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.

Aurora Gite

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Saudade do que poderia ter sido e não foi...

Ao constatarem quem é o autor dos poemas abaixo, não estranhem!
Eles bem representam a opção de um momento vivencial, uma circunstância de vida, uma história existencial, uma lembrança mantida viva, uma fonte de satisfação e orgulho por escolhas feitas.

Algumas vezes me pego refletindo sobre quantas pessoas tiveram na vida um encontrão, do qual resultou uma certeza de que valeria a pena ter investido nessa relação, e dela fugiram? Mesmo ante circunstâncias favoráveis ao redor, na época da ocorrência, se amedrontaram e não confiaram na própria capacidade de construir uma convivência serena, debaixo de uma cumplicidade fiel e leal?

Acredito que muitas conhecem a dor da saudade, do que poderia ter sido e não foi ...
E carregam dentro de si a tristeza da sensação de alguém , que poderia ter sido tão significativo em sua vida, estar tão longe, distante...
E convivem com o paradoxo da alegria de senti-lo tão presente dentro da ausência.

No entanto, poucas carregam no peito o enorme prazer de perceber, e constatar, semelhanças.
Sintonia e sincronia de valores e virtudes, que pouco sobressaem numa sociedade como a atual. O que faz valer a frase popular: "É como encontrar uma agulha num palheiro".

É difícil se enganar ante as evidências de pontos em comum, como o resgate da "dignidade humana"; a luta pelo "ser livre e feliz"; o fascínio pela "verdade e justiça", "amor e solidariedade"; o desejo de contribuir para o "bem estar social".

Esse é o espírito que envolveu a escolha desses poemas sobre o "Amor". Eles bem representam, a meu ver, o maior perigo num envolvimento amoroso:


"Amor é fogo que arde sem se ver"

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"


"Se pena por amar-vos se merece"

Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre está? Ou quem isento?
Que alma, que razão, que entendimento
Em ver-vos se não rende e obedece?

Que mor glória na vida se oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se não sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
Contínuo vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso.

Em mim, Senhora, podeis ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.


"Transforma-se o amador na cousa amada"

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.


O nome de seu autor é: Luís Vaz de Camões


Ah, a dor da saudade do que poderia ter sido e não foi!
Por vezes, o peito aperta e sangue parece brotar do coração ferido.
No entanto, não se pode deixar de reconhecer que, uma saudade assim, não deixa de colorir o aqui e agora de existências humanas voltadas ao encontro da própria integridade e dignidade interior.

Mas, querem saber, hoje em dia duvido, que alguém deixe de lado um amor, mesmo quando o encontrão impactante o pegar desprevenido!

Aurora Gite

sábado, 10 de dezembro de 2011

A maratona dos cientistas

Sempre imaginei os cientistas como aqueles desbravadores, muitos dos quais carregando nas costas o peso das novas descobertas, homens valorosos pela fé em seu acreditar e persistência em continuar investindo na busca da confirmação ou refutação de um saber intuido, hipotetizado por eles e, por vezes, ridicularizados pelos demais.

Fileira de formiguinhas, trazendo às costas o material de sobrevivência de sua espécie, obedecendo ao rítmo de cada uma das formigas, enfileiradas à sua frente, sem atropelos competitivos em seu caminhar persistente e sistemático.

Em meus devaneios, era o que ocorreria entre aqueles que se esgrimiam em seus argumentos defendendo ou criticando, na luta pela construção do mundo das idéias, que seriam aglomeradas em teorias científicas e que passariam a ser aplicadas racionalmente na prática em prol da humanidade. Assim, suas descobertas passariam a fazer parte desse "conjunto de conhecimentos sistematizados relativos a um determinado objeto de estudo" que vem receber o nome de ciência.

A ciência, no entanto, para espanto de muitos (inclusive meu), passou a ganhar "status" de algo concreto corporificado, personificado como entidade dotada de poder sobre o homem. Saiu do campo do abstrato, como tantos outros termos ideativos, e tornou-se - como a religião era antigamente - fonte de referência da verdade.

E se expandiu! A meta principal a ser atingida voltou-se para a obtenção e manutenção de poder. Não foi tão diferente do que ocorreu com a religião, agregada a instituições, onde os religiosos passaram a ter que se curvar ante um conjunto de regras a serem seguidas como estilos de vida, e dogmas a serem obedecidos sem questionar, se quiserem pertencer a categoria. Não mais prevalecia o valor das transformações interiores e da adoção de condutas éticas, mas o pagamento de dízimos e a absolvição por repetição de rezas decoradas. Hoje em dia, tem cientista para tudo. O homem passou a englobar, nesse termo, amplas áreas de conhecimentos vários. Um cientista passou a representar prestígio, fama para alguns, poder autárquico para outros.

Um parêntese, ou um lembrete de atenção, se faz mister. Tal foi o poder que o homem lhe atribuiu que tornou-se corriqueira a justificativa "Faço em nome da ciência!". A permissão para seguir adiante nos experimentos surge, não sei bem com que aval, mas sei que muitos experimentos se tornam até contrários ao bem comum da humanidade. Ops, e sei que as pessoas sabem, sabem reconhecer de onde vem a autorização. É só acompanhar o fio da meada e descobrem seu ponto inicial, mas terão que conviver com a dor da impotência e o confronto com a frustração e a raiva por se aquietar e brecar um agir ético; e isso incomoda tanto, que é melhor não insistir em observar a verdade que jaz oculta.

Quando pensava em ciência me vinha a imagem de uma maratona de cientistas, profissionais importantes na corrida em prol de novos saberes, um passando ao outro a tocha da verdade, com galhardia e orgulho, buscando no final o acender da tora que iluminaria as decisões humanas em prol de uma sociedade mais harmônica e feliz. O vislumbre esperançoso era o de contribuir para a expansão de uma sociedade onde o ser humano ganhasse em dignidade e auto-estima, a convivência usufruisse de mais paz, pelo respeito e tolerância ante as diferenças, e a raça humana mais serenidade, pelo "cuidar por amor" que se expandiria como consequência inevitável desse tipo de interação.

Como machuca se cair na real, podendo transitar no meio científico, principalmente sendo profissional da área da saúde mental. Anos passados fazendo parte, inclusive, de equipes institucionais nas áreas de pesquisa, ensino e assistência... Ops, essa ordem não deveria estar invertida?

Também penso assim, mas não é a realidade, que se pode constatar, ou se desejaria ajuizar, ainda. O que se observa são muitos, mas muitos mesmo, profissionais "de passagem" por instituições de renome, que buscam acumular conhecimentos nesse trânsito institucional e burocrático, se destacando em "especialidades", para aplicarem esse saber em seus consultórios particulares e tornarem seus nomes públicos para garantir aumento em suas contas bancárias, por "reconhecimento devido", conforme o ponto de vista que defendem. Justificativas que reportam a uma reflexão sobre a qualidade de seu ensino superior e à qualificação de seu aprendizado envolvendo o "como se tornar um ser humano".

O resultado dessa diretriz de ensino é bem diferente das máquinas registradoras pensantes, que se acumulam por aí. Calculadoras ambulantes, que visam sempre o aumento de lucros materiais, não abarcando a prazerosa gratificação obtida através dos benefícios morais multiplicados pela irradiação ambiental das atitudes virtuosas. Sua visão imediatista não se assemelha ao olhar do empreendedor da nova era. O termo virtude não está cadastrado, em seu lugar vem a mensagem do "não tem registro" nos arquivos mentais. A janela que surge em sua mente, com seu piscar intermitente indica a necessidade da vivência racional no mundo capitalista, distorcido para um frio acúmulo de riquezas materiais e o colocar sob vigilância e controle o perceptivo mundo sentimental, como se pensamento e sentimento não estivessem atrelados simbióticamente, residindo a chave mestra em seu gerenciamento adequado.

O quadro acima dificulta a administração justa e ética das incompatibilidades entre os meios acadêmicos e os profissionais que se quer lançar no mercado. Grades curriculares engessam a curiosidade espontânea, mola propulsora a ser fortalecida em qualquer cientista.

Os alunos, e os verdadeiros mestres, são enjaulados dentro de grades ideológicas poderosas, que delineiam pouco espaço ao saber em si, direcionando suas metas e avaliações a interesses outros, que não o de sanar, ou beneficiar, a demanda do "paciente social".

Na época atual, atribui-se ao ensino a bóia salvadora do quadro social que hoje vivemos. A má remuneração e má formação dos profissionais docentes são citados como principal fator desse estado de anomia e violência. A realidade, no entanto, se incumbe de espelhar outro cenário, bem diferente do idealizado e divulgado, mas isso é para quem se dispõe a ver, a se confrontar com o que é refletido, com o fenômeno real.

O foco, para despoluir o social, recai então no saneamento da ignorância pela formação de profissionais qualificados. Uma reflexão mais apurada vai constatar o desvio da atenção do que se mantém por trás dos brilhos dos diplomas: o juramento sub-liminar de manter o "status quo" do poder institucional vigente e o aprisonamento do atuar ético dentro dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Uma análise mais acurada vai comprovar que ainda vigora, pela falta de fiscalização e impunidade, o QI (quem indicou) para a aceitação e aprovação dos mestres e dos alunos. O peso das "algemas da gratidão" se faz logo presente, pois a relação simbiótica entre os envolvidos com o "tráfico de influência" é fortalecida e vicia - é uma das maiores drogas da corrupção sociopática.

Projetos de ensino e programas didáticos de maior eficácia ? Ótimo, precisamos de inovações, "desde que" sigam as normas já estabelecidas. Mudanças no mundo demandando novas estruturas, novas estratégias de ensino, nova didática? Serão consideradas, "desde que" não alterem as regras já solidificadas. Ensino que pense na formação do aluno de uma maneira global, não somente cognitiva, em qualquer nível de aprendizado, que busque despertar sua autocrítica e que leve ao despertar interior de uma ética humana e ao cuidar do bem público? Só no papel, aliás é preciso mesmo ter um registro visível do empenho por transparência, verdade, justiça, humanização... Quer termo mais pomposo que esse? Agora peça para descreverem em que consiste uma ação de humanizar! E não se assuste com a resposta que vai ouvir.

O som das palavras e os afetos, que emolduram seus significados, pairando no ar já está de bom tamanho para os "ilusionistas educacionais". Todo esse aparato já serve de palco para ótimas encenações, peças criadas com conteúdos temáticos, que o povo curte apreciar. As pessoas têm até curtido serem enganadas! A mentira corrupta, que enfraquece o peso dos valores éticos, passou a ter efeito semelhante ao ópio e se tornou um vício. A vontade de lutar por ideais mais humanizados cada vez mais enfraquece e cede lugar para a inércia de quem se aposenta da vida, se permitindo ficar no papel de mero expectador, excluído como "agente responsável atuante" no que vai acontecer.

Ao se abrirem as cortinas, o cenário bem construído, os atores bem posicionados, o texto midiático bem definido, os óculos 3D distribuídos ao público, e o mundo virtual da ilusão contamina toda a realidade das pessoas que estão no local e dependem das circunstâncias para viver. Após seu término, o entorpecimento do pensar, manipulação bem camuflada contaminando a platéia, perdura por bom tempo, mesmo à distância de sua causação imediata. Tudo bem planejado e arquitetado!

Sendo assim, nem é preciso esperar a calada da noite, para se colocar em pauta, novamente, MP antes rejeitadas, ou tomar outras medidas políticas impopulares, mas geradoras de aumento de renda aos cofres públicos e , aos de algumas pessoas físicas, em especial. E isso sem encontrar grandes resistências em serem aprovadas nesse momento de torpor.

Ah. a arte de iludir! E como existem "cientistas na arte de iludir"! O fenômeno fascina, a paralisia deprime, a resiliência constrange. Aumentos de impostos e de salários, inclusive na proporção de 200 a 300% poderão ser confrontados, e defendidos como gastos de primeira necessidade, por aqueles "escolhidos democraticamente" para gerir a "coisa pública". E a defesa dos interesses do povo?

Ora o povo (outro termo abstrato, a que cada um atribui a imagem que lhe aprouver), ora o povo... não há de querer ver seus representantes mal vestidos e andando sem ser em carros de primeira linha. O povo não precisa viver de ostentação. Quer um exemplo? É só observar sua identificação virtual com o mundo glamuroso das celebridades. O povo vive através das vidas delas, basta ver a forma como reage ao que ocorre com elas. É criar ídolos que o povo desvia sua atenção para eles, e sossega!

Ora o povo, até a época de novas eleições já esqueceu tudo! Os experimentos científicos dos cientistas da ilusão podem desativar a memória popular. Qual verdadeira lavagem cerebral, ministrando soníferos através de pequenas dosagens de sonhos imprecisos e incertos, de promessas de prazeres duvidosos ou de ameaças, fomentando o medo de represálias, se utilizam desses métodos ilusionistas, com grande potencial de alterar as percepções, semelhante aos fármacos. Aplicados, nas vésperas das eleições, alteram quaisquer circunstâncias desfavoráveis ao poder vigente.

A cegueira que impede a leitura sobre fatos reais, o pouco interesse com o bem estar do povo, o enfraquecimento intencional do poder da livre-expressão popular, a fragilização maipulada da vontade espontânea, o gerenciamento da raiva - que surge pela impotência ante injustiças - devem ser trabalhados e bem disfarçados por um ensino eficiente.

Uma didática eficaz, nesse sentido, visa reforçar esse foco e centralizar a atenção na iluminação psicodélica ofuscante do "palco das ilusões". Os sonhos têm que parecer que se tornaram reais, função da "teatralização midiática". O poder de identificação com o conteúdo da peça, tal como nas novelas, se incumbe de, virtualmente, ocasionar a vivência das circunstâncias, sentidas na imaginação como prazerosas e felizes, e o suportar as reações metabólicas reais, condizentes com esse estado psíquico. Na realidade, porém, essas vivências não se assentam no chão, pedregoso e esburacado, pelo qual os pés do povo transitam, e são lesionados, no mundo real.

O que mais leva esse aglomerado de pessoas, essa multidão; esse grupo de indivíduos que formam uma nação ou vivem numa mesma região; esse conjunto de pessoas da classe menos favorecida, essa plebe - escolha a definição do dicionário com que mais se identifique - o que leva o "povo" da sociedade contemporânea, a optar por estar assim vivendo o momento atual de sua existência ?

Para quem não conhece, indico a leitura do "Mito da Caverna", de Platão. Muitos se enfileiram para adentrar e ocupar seu lugar dentro dela. Deixam-se aprisionar sem resistir... O que os leva a isso?

Aurora Gite