sábado, 25 de abril de 2009

Líderes, ora líderes! Para que?

Tenho me recordado atualmente de uma época que muito me marcou.

Ainda sob o impacto do redirecionamento de minha vida, consegui passar num concurso público. Fiquei sabendo dele por uma colega, num curso de especialização, tive um dia para me inscrever e menos de um mês para me preparar. Não fazia parte de meus planos naquele momento. Como faria com o meu consultório? E meus pacientes?

Só que não deu outra. Passei em dois institutos na área hospitalar. No primeiro após ter sido selecionada na prova escrita e na dinâmica, quando na entrevista souberam que meus pais tinham sido cardíacos, tive o privilégio de ser cumprimentada pela diretora do setor, que me colocou ser esse um fator impeditivo para ser aceita naquele instituto voltado à cardiologia. Eu já conhecia seu trabalho e sua postura de verdadeira líder, a quem teria o maior prazer de me subordinar. Carreguei comigo seu incentivo, manifestação expressa diante de várias pessoas, e seu desejo de boa sorte na profissão.

No segundo instituto, passei pelas três etapas e, pouco tempo depois, vestia meu jaleco branco com um enorme orgulho. Tal foi meu comprometimento, que gostava de brincar que era "como se fosse" um novo casamento. Já no primeiro dia, porém, entrei em contato com a realidade das lideranças "representantes de um poder instituído".

Fui orientada para estar nas dependências da "Divisão" de minha categoria, onde saberia então a Clínica para a qual seria designada a prestar os serviços profissionais, a partir daquela data. Minha pontualidade é "britânica". Sempre me orgulhei disso. Portanto, lá estava eu às nove horas em ponto. Na Secretaria me disseram para esperar no saguão. E lá fiquei eu, consultando o relógio: dez horas...onze horas...meio-dia... uma hora...duas horas...e nada. Nenhum aviso sobre a demora, nenhum respeito ou consideração por minha pessoa, por parte dessa "diretoria" .

Descobri como é fácil muitos diretores, chefias, assessores e privilegiados, nesse tipo de gestão verticalizada, se esconderem impunemente. A confecção da fantasia dos cargos ou funções lhes cabia "como uma luva". Suas proteção e barreira de isolamento eram propiciadas pelos assessores diretos, que se tornavam, convenientemente, seus porta-vozes, na maioria das vezes imbuídos de maior autoritarismo. Podiam transitar sob o spray da invisibilidade, portanto embatíveis ante críticas e pontuações de falhas no desempenho de suas funções. Pude logo notar a insensibilidade ao outro, bem como o poder opressor outorgado por um mero crachá.

Não é que a mentalidade de funcionária pública se instalava! O que tinha eu, pensava então, com o desperdício de tempo e da utilização inadequada dos serviços que poderia estar prestando? Por que deveria me incomodar, se minha hora já estava sendo coberta por um salário? Produzindo ou não estaria sendo paga. Receberia, estando lá ou não, se soubesse bem encobrir o fato, ou fizesse uma barganha para que minha falta de assinatura na lista de presença ficasse imperceptível no dia. Com a mudança para cartões eletrônicos houve a substituição para os horários flexíveis e as famosas "horas em haver" para grupos de pessoas selecionadas.

Foi quando tive a primeira aprendizagem de contenção da sensação desagradável do funcionário público, que sabe que tanto tem a contribuir e se sente frustrado ante a necessidade de resignação, e busca dominar sua impotência ante a marcante discriminação de favores e privilégios. Dentro de mim acenava a descrença em toda a estrutura administrativa, que se fortaleceu ao ouvir a voz da "diretora" soando, e entender o conteúdo de suas palavras : " Bem, vamos ver para onde vamos escalar a "menina"(?).

Pude perceber outra voz, dentro de mim, que tentava gritar: " Ei! E o meu compromisso, meu entusiasmo, minha vontade e iniciativa, como ficam?". "Ei! O preconceito é seu. A dificuldade de lidar com a meia idade é sua. Tenho só pouco mais de quarenta anos!". Com maior força, agarrava eu minha autovalorização profissional e minha auto-estima pessoal, tentando protegê-las desse tipo de liderança.

Aprendi a segunda lição: a credibilidade da liderança é que determina a disposição das pessoas se envolverem com tesão no que fazem, sendo leais a seu líder.

Instituições, entes abstratos, ficam atrás desses líderes, já que eles falam por elas. Tentei pesquisar depois o que mantinha as pessoas nesse complexo hospitalar, tido como modelo nas áreas assistenciais, de ensino e pesquisa. O salário era baixo e o desgaste burocrático enorme. Na época, constatei a presença de dois elos mantenedores. Num extremo, a ajuda ao "próximo necessitado", porém ao burlar regras burocráticas insanas, também era obtido um tipo de "status" e de poder. Os eternos "eu sou" e "eu posso", demarcadores de um falso espaço no mundo interno e de um lugar ilusório no social. No outro extremo, estava a conquista da fama ante pesquisas individuais efetuadas, valendo aqui a mera inclusão do nome em grupos de pesquisadores, ou o reconhecimento obtido pela inserção do nome da instituição nos currículos. Deixo o juízo avaliativo para vocês.

Com o tempo percebi o séquito de empregados irresponsáveis, indiferentes e até mal-intencionados. Passei a observar suas posturas e escutar seus queixumes: "Se der para fazer tudo bem,não vou me matar. É desmarcar pacientes!"; " Pacientes foram marcados no mesmo horário da reunião da Divisão? Que esperem, pois do setor vem uma sanção ante o não comparecimento à reunião!"; "Meio-dia? Vou aproveitar, sair para almoçar e depois passar no Banco. Retorno por volto de quatro horas. Digam aos pacientes que podem dar uma volta e tomar um lanche"; " Vou pesquisar para mim, para minha pós, para assuntos de meu interesse particular, e depois me mando daqui."

Cada vez mais sentia algo dentro de mim dando cambalhota e cobrando a adoção de uma postura diferente. Aí veio minha terceira lição: "Aprender a exercer a própria liderança" e a minha era uma liderança ética. Eu a segui durante minha vida. Paguei preços altos. Tive até que conviver com rupturas de relacionamentos importantes. Senti o que é "estar morta em vida", pela fácil substituição em algumas relações amigáveis e mesmo familiares. Mas sempre me mantive de cabeça erguida. Não seria agora, que iria vestir as máscaras "do cinismo, da frivolidade, das manipulações perversas, dos consentimentos e silêncios cúmplices". Queria lutar pela minha dignidade. E assim o fiz.

Cada vez que me vinha um desanimo, por me ver sem ação frente a um sistema atroz, que não se interessava pela preservação da integridade do ser humano, notava que aumentava o volume de minha voz interna, que já berrava: "Líderes, ora líderes! Para que?". E, com mais força ainda, eu abraçava o líder que ía se fortalecendo dentro de mim.

Produzi grande material envolvendo lideranças éticas. Foram entregues protocolados. Recebi cumprimentos verbais de alguns diretores que acusaram o recebimento do material, e me avisaram que estavam colocando "algumas vírgulas"(?) e... é só o que sei. Líderes, ora líderes! Para que?

Reconheci, e reconheço ainda, o peso inovador, a base ética de meus projetos e minha autoridade e compromisso moral , comigo mesmo e com os demais, para implantá-los a contento. Para alguns era uma visionária. Não seria portadora de um caráter inovador? Outros, embora reconhecendo o valor prático dos projetos, em seu ceticismo com o sistema, me acusavam de esquecer das dificuldades de um "terceiro mundo". E o agregar, e a sintonia de forças de equipes e seu papel na sincronia do sistema organizacional? Outros ainda me apontavam como representante de "Dom Quixote" com seus sonhos utópicos. E o caráter entusiástico de um empreendedor? Para mim eu era uma lutadora, tentando semear ética num campo ainda árido.

Hoje, não mais na instituição, conservo ainda no peito muita esperança. Com grande capacidade de análise e visão de futuro, estava claro para mim que a busca de políticas de transparências no processo logístico e nos resultados , característica de nossa sociedade informatizada, trazia consigo grandes mudanças éticas a médio e longo prazo. Sendo assim, as frágeis e aparentes transformações institucionais não se manteriam e os resultados desmoronariam , como os castelos quixotescos. Evidencias atuais só confirmam isso. O que me dá novo alento é que dessas constatações reais surgem as necessárias mudanças e os verdadeiros líderes que conseguirão implantá-las de forma não só eficiente, mas eficaz.

Ah! Aprendi mais uma lição dentro da organização: "Um indivíduo na tarefa de dirigir um grupo de pessoas é um dirigente, mas nem todo dirigente é um líder, a quem pessoas sentem prazer em seguir e, com a lealdade de um time, ajudam a tocar seus projetos avante, visando a melhoria da equipe e da instituição". Líderes, ora líderes ! Para que?

Aurora Gite
(postado às 22:20 horas)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Acolhendo, dentro de mim, um impacto.

Tento sobreviver ao forte aperto no coração ante o impacto do término da leitura do livro "O menino do pijama listrado: uma fábula" de John Boyne - São Paulo, Companhia das Letras,2007.
Por esse livro o autor ganhou alguns prêmios. Chegou a ser transformado em filme em 2008.

Gosto quando um autor consegue me envolver em sua temática e me embala em sua linguagem fácil e fluente. Ao mergulhar na leitura, procuro acompanhar o processo mental criativo do autor nas vivências dos personagens e na rede das tramas, e toda movimentação que ocorre dentro de mim mesma. Até a capa me chama a atenção e essa foi muito feliz, pela graduação de cor e pela textura da capa, a inicial áspera em contraponto com sua extensão final tão macia.

Vou transcrever uma citação retirada do que chamam de "orelha" do livro, pois a sigo rigorosamente:

"É muito difícil descrever a história de O menino do pijama listrado. Normalmente, o texto de orelha traz alguma dica sobre o livro, alguma informação, mas nesse caso acreditamos que isso poderia prejudicar sua leitura, e talvez seja melhor realizá-la sem que você saiba nada sobre a trama".


Como tenho que soltar toda essa energia represada, por isso desconfortável, e já é noite para que saia a caminhar, vou colocar as últimas palavras do autor ao encerrar sua obra , como meio substituto encontrado para equilibrá-la mais prazerosamente:

" E assim termina a história de Bruno e sua família. Claro que tudo isso aconteceu há muito tempo e nada parecido poderia acontecer de novo. Não na nossa época." Eis a chamada do autor, para parearmos com os acontecimentos atuais. Só tem a ver, se associarmos situações parecidas em contextos semelhantes!

E para me aliviar mais ainda, deixo registrado este trecho:

"... mas por fim olhou para Maria e percebeu, pela primeira vez, que nunca a havia considerado inteiramente como pessoa, com uma vida e uma história próprias. Afinal, ela jamais fizera outra coisa ( até onde ele sabia) além de ser a criada da família. Ele nem sequer conseguia se lembrar se já a havia visto trajando outras roupas que não o uniforme de empregada. Mas ao pensar no assunto, como fazia agora, era obrigado a admitir que deveria haver mais na vida dela, além de servir a ele e à sua família. Ela devia ter pensamentos na cabeça, assim como ele. Devia haver coisas das quais ela sentia falta, amigos que gostaria de rever, assim como ele. E devia ter chorado toda noite até dormir, como teriam feito meninos bem menores e menos corajosos do que ele. Bruno notou que ela era até bonita, o que provocou nele uma sensação engraçada."

É assim que tento olhar os autores ao ler seus livros. Procuro vê-los como pessoas, com vida e história próprias, com pensamentos na cabeça e com roupagens sociais e vivências semelhantes as minhas. Sendo assim, só tenho a agradecer aos autores que me causam, através de sua manipulação das palavras, um tipo peculiar de impressão e, por isso, me provocam uma gama de sensações. Tal é o tesão e o êxtase, pela relação estabelecida, que mesmo que tenha terminado, suas idéias ainda permanecem, por um tempo, vivas dentro de mim.

Aurora Gite

domingo, 19 de abril de 2009

Tantos endereços e uma só dedicatória

Como psicóloga, uma recomendação (prescrição);
Como amiga, uma indicação (sugestão);
Como mulher, uma triste constatação (confirmação);
Como mãe, um legado de coração (orientação).

Livro a ser lido, e relido,
Mesmo quando eu aqui não mais estiver.
A ser lembrado que, quando terminei de ler,
Fui apanhada pela doce sensação de nem tudo ter sido perdido.

Uma voz gritava em meu peito
Que se expandia de orgulho e autorrespeito:
"Valeu a pena!
Valeu muito a pena!"

Quanto mais amei, mais abri mão...
Grande paradoxo da vida, então.
Para o encontro comigo mesmo se completar,
Quanta coisa a se abandonar!

Iniciados há 35 anos, busca e intento,
A alegria agora veio da constatação
Do resgate de mim mesmo ter sido efetuado a contento.
Expressou a satisfação da autorrealização.

Espero que possa enfrentar
a angústia pelo "vazio de ser só", grande dor psíquica,
bem como ultrapassar
a vivência de vulnerabilidade, expressão de fragilidade psíquica;

E que, com coragem e determinação,
Possa alcançar a plenitude e felicidade,
A sensação de coletividade,
Advindas da aceitação da interior solidão.

É a conquista do " se dispor para si" (construção do "Eu")
E do "se dispor para os outros" (construção do "Nós"), como bem coloca o autor.
E, que eu, onde estiver, possa saudá-la com um: "Bem-vinda" ao nosso grupo!

Ah, qual é o livro presenteado a tantos, que levou essa dedicatória?
"Quem me roubou de mim?", de autoria de Fábio de Melo.

Aurora Gite
Postado às 13:00 horas.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

E agora, José?

O que mais me acalenta, nessa nova era informatizada, é constatar que a rapidez e transparência nas comunicações nos impulsiona a uma postura mais voltada ao confronto com situações verdadeiras, a ações direcionadas a ética e ao combate a uma lentidão na aplicação da justiça. Fiscalizações e confirmações da legitimidade de informações ganharam diferente "status" decorrente do imediatismo das contestações e da ousadia da mídia em suas divulgações.

Três perspectivas e novo alento... três artigos... três vivências diferenciadas... Assim mesmo é muito bom saber que não se está sozinho na luta em prol de uma sociedade com melhor qualidade de vida formada por "cidadãos éticos".

No Estadão, de 15/04/2009, em coluna de seu Espaço Aberto, meu peito encheu-se de orgulho ao ler as declarações do superintendente de um grande complexo hospitalar, do qual cheguei a fazer parte, pontuando seus avanços, "frutos de um importante processo de amadurecimento". Segundo o mesmo metas foram atingidas com excelência, quais sejam o atendimento à população menos favorecida, o ensino universitário e o desenvolvimento de pesquisas científicas. Realça a transformação no campo do conhecimento científico visto que tornaram-se "pesquisas aplicadas tanto no que se refere às inovações no tratamento de doenças, como no aperfeiçoamento de aparelhos e equipamentos". Enfatiza que, passados 65 anos de sua criação, sem descuidar dessas três frentes, acabou sendo desenvolvida nessa gestão outra "marcante característica: a de hospital pioneiro".
Comenta sobre as mudanças estruturais e de gerenciamento visando o acolhimento e respeito aos pacientes e intensificando o trabalho de humanização no atendimento.

Confesso que sempre questionei o emprego do termo "humanização", ainda confuso para muitos e para "muitos" profissionais. Idéias... palavras... mas na prática como bancá-las? Mudanças estruturais realmente ocorreram, mas na hora de operacionalizá-las a contento ...

Em 17.04.2009, a Folha de São Paulo, nos traz a notícia do afastamento "temporário" de um médico neurocirurgião responsável pelo plantão controlador de vagas, do mesmo complexo hospitalar, para que pudesse ser "melhor treinado para sua função". O mesmo havia enviado um ofício ao SAMU e ao Corpo de Bombeiros pedindo "para que pacientes com politraumatismo graves não fossem levados ao hospital por conta da superlotação". Ousou nas justificativas transparentes abordar a difícil situação operacional no tratamento emergencial (Pronto-Socorro) do referido hospital: " dezenas de macas no corredor, falta de vagas na UTI, mesas de cirurgias ocupadas por pacientes por falta de leitos nos quartos e fila de espera para cirurgia de emergência". Esse é o quadro que conheci e é ainda o espelho do que ainda ocorre no país na área da saúde, segundo constantes divulgações midiáticas.

Coincidência seu afastamento ter ocorrido após haver tomado as medidas acima? Melhor treino para que função?

O que ocorreu com esse profissional? Honestidade ética consigo mesmo, lealdade a seu juramento médico, cumplicidade com as metas sob as quais o hospital foi criado, pioneirismo com o compromisso da transparência tão apregoado, ingenuidade na luta por transformações concretas?

Tudo isso eu conheço. Trilhei esse caminho e não aceitei fazer parte dos séquitos dos "reis nus". Mudanças só ocorrem quando, com humildade e tolerância, nos permitimos observar os pontos fortes e também os falhos a nossa volta, para que possamos transformá-los. Só assim nos impedimos de vestir belas e luxuosas roupagens falaciosas propostas muitas vezes por nossas assessorias. No caos ético do mundo atual a primeira transformação tem que vir dos líderes e chefias, para que possam atrair seguidores fiéis e disponíveis a operacionalizar efetivamente as mudanças que propõem.

Agora retorno ao Estadão de 08.04.2009, e ao artigo intitulado "Por uma ética planetária" e com orgulho cito seu autor : Dr. Raul Marino Jr. - professor titular emérito de Neurocirurgia e professor livre-docente de Ética Médica e Bioética da Faculdade de Medicina da USP. Após tecer considerações sobre as ciências da Ética, Moral e Bioética e suas aplicações no campo da Antropologia e Sociologia, da Filosofia e da Psicologia, das Neurociências, das Ciências Políticas, da Teologia...cita as dificuldades de sua inserção prática nas grandes instituições. " Fugindo da burocracia intransponível dos órgãos governamentais, temos procurado universidades e faculdades privadas e outras instituições que disponham espaço para ... discussões de dilemas éticos e morais... parece que a ética e a moral são assuntos muito incômodos e mal vistos no Brasil. Quase todas as universidades as têm retirado de seu currículo, mesmo as de cursos superiores como Medicina, Direito, Engenharia e tantas outras, considerando-as apenas como curiosidades filosóficas ou filantrópicas".

Termino esse blog com as palavras finais de seu artigo: "...ou seremos éticos e morais neste milênio que se inicia, ou não seremos nada! " . E agora, José?

Aurora Gite

quinta-feira, 16 de abril de 2009

"Quem me roubou de mim?"

"Quem me roubou de mim? : o sequestro da subjetividade e o desafio de ser pessoa."


Mal tinha eu acabado de ler "A Cabana" , curtindo ainda as idéias de seu autor (William P.Young) para o enfrentamento de nossos fantasmas e o diferente encontro humanizador com o autêntico ser espiritualizado dentro de nós -nada a ver com rotulações religiosas - quando me cai em mãos o livro de Fábio de Melo, título dessa postagem.

Um pequeno livro de uma grandiosidade imensa. Seu valor comercial ( R$ 19,90) não representa a riqueza que contém. Sua publicação foi em 2008 pela Editora Canção Nova, de São Paulo, que me era desconhecida até então. E, está em sua 50ª edição, acreditem!

Como terapeuta e ser humano que conseguiu sair dos "cativeiros dos que nos idealizam, dos que nos esmagam, dos que nos desconsideram, dos que pensam que nos amam, dos que nos viciam, dos que pensam por nós" e que, mesmo ante essas "formas estranhas e socializadas de escravidão e dependência" , com coragem e esforço conseguiu resgatar sua autenticidade e liberdade, não posso deixar de indicar aos que tentam trilhar esse caminho... ou aqueles que, por curiosidade, queiram se aproximar e resgatar sua subjetividade perdida.

Mais do que minhas considerações, trechos do autor - abertura de alguns capítulos - falam por si só sobre o mundo do autoconhecimento e das relações interpessoais:


" Há pessoas que nos roubam...
Há pessoas que nos devolvem. "


PEDIDO
"Eu não quero que você seja eu
Eu já tenho a mim.
O que quero é que você chegue
Com seu poder de chegar
E de me devolver pra mim.
Que você chegue com seu dom
De também me fazer chegar
Perto de mim...
Pra me fazer ver o que sou e que só você viu.
Pra eu ser capaz de amar também
O que só você amou.
Eu não quero que você seja igual a mim.
Eu já tenho a mim.
Não quero construir uma casa de espelhos
Que multiplique minha imagem por
todos os cantos.
Quero apenas que você me reflita
Melhor do que julgo ser."



" Não me leve de mim.
Leve-me até mim. "


ALGUÉM
"Alguém me levou de mim
Alguém que eu não sei dizer
Alguém me levou daqui.
Alguém, esse nome estranho,
Alguém que eu não vi chegar
Alguém que eu não vi partir
Alguém, que se alguém encontrar,
Recomende que me devolva a mim."
Com a minha torcida para que siga em sua " busca de uma forma de viver que seja favorável ao florescimento de sua subjetividade e ao fortalecimento de sua identidade".
Você deve a você mesmo esse resgate na vida, não importa quantos anos já tenha percorrido submisso e ausente de si mesmo. Aceite o "desafio de ser" e vá ao seu encontro!
Aurora Gite

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Será mesmo que vamos assassinar a "História"?

Quando inaugurei este blog, fiz questão de colocar inicialmente dois textos meus, que serviram como capítulos de livros, enfatizando a necessidade de alterações nas visões e dimensões de homem e de mundo, e a busca de instrumentos nas áreas da Psicologia e Física, Ética e Direito para um novo equilíbrio global, individual e coletivo.

Entendo que da pluralidade e conectividade de "micro-histórias", obtenhamos o desenho da dinamica existencial que configura a "macro-História".

As micro-histórias dependem da inserção das individualidades na complexidade dos relacionamentos humanos, seus jogos de convivência, suas lutas por espaço e poder, suas tomadas de decisão embasadas em intencionalidades e imprevisibilidades.

E é dessa intríncada rede de relações pessoais que se esboça a História da Humanidade. Suas sinalizações são importantes de serem levadas em consideração ao se observar a "vida em reverso".

Sendo assim procuro aspectos de minha história pessoal que pudessem se encaixar na sociedade que gostaria de ver construída nesse novo milênio.

Nesse sentido, não posso deixar de pontuar que, quase quinze anos, atendendo pacientes dentro da área clínica, a nível hospitalar, me trouxeram grande conhecimento e melhor adestramento no uso de ferramentas para lidar com o lado psicológico do ser humano, sem enquadrá-lo em molduras teóricas, mas procurando uma compreensão de sua dinâmica dentro do contexto histórico em que se envolvia. Porém, três anos antes de me aposentar, a meu pedido, atuei, sempre desempenhando minha função, dentro do campo organizacional, e esse período me possibilitou a aquisição de uma sabedoria ímpar .

A colocação de um grande complexo hospitalar no "divã", a observação e análise da rede de interações estabelecidas, os jogos pelo poder, o mau uso da autoridade conferida pelo cargo ocupado, o contato com o lado perverso do ser humano ao reagir a ameaças de possíveis alterações em seu "status quo", a constatação da enorme fragilidade das lideranças, escravas da burocracia e do fortalecimento pessoal ilusório, falseado por constantes manipulações desumanas e preconceituosas, desnudaram para mim : uma categoria que se esconde atrás da aparência assistencialista, a razão da deficiência na qualidade do ensino dos profissionais da área, e das egoísticas atuações em pesquisas, voltadas mais a interesses pessoais, do que ao bem empresarial e o coletivo.

O fechamento de equipes, enclausuradas em si mesmas, debaixo do "em time que está ganhando não se mexe" ,"mudanças desde que...", " é preciso fazer a cabeça de fulano" . Esse tipo de coordenação impede a flexibilidade necessária para trocas e constantes inovações criativas. Um agregar forças, diretriz de uma política em recursos humanos baseada na inclusão e administração das diferenças, depende de posturas abertas, saudáveis , que não se amedrontem ante qualquer desenvolvimento concorrencial, pois confiam em seu potencial.

A patologia organizacional a nível de suas lideranças diretas e indiretas ( assessores) estava visível. Chefias apresentando projetos como seus, erguendo crachás e dizendo:"Faça porque estou mandando!", desenvolvendo políticas de privilégios ( liberação para congressos) e submissões humilhantes? Coordenações de ensino que guardam sigilo do "sumiço" de matriz de apostilas necessárias as aulas, que desviam para outros docentes material ( datashow) requisitado dentro do prazo, obrigando reestruturações imediatas do plano de aula? Falta de ética ante quebra de sigilo de provas e de banco de dados informatizados? Quem não convive ainda com algo semelhante? Tudo agora é questão de tempo . Esses tipos de profissionais não conseguem sobreviver dentro dos novos modelos participativos de gestão.

Um ponto forte que me chamava a atenção residia no orgulho de muitos colaboradores ( e aqui me incluo) ao percorrer os corredores daquela Faculdade, observando a galeria de quadros de profissionais que construíram sua história, ganhando por isso destaque. Isto constrastava com o desejo de outros, ainda na ativa, de apagar registros bibliotecários e destruir dados significativos, banco de memórias de uma época, esquecendo que uma história institucional se conserva viva, enquanto estiver na lembrança dos que a cultivem e transmitam oralmente de geração a geração.

Não entendia bem, na época, os projetos voltados a esses objetivos. Por que e para que serviam? Buscando maior compreensão, tinha por resposta que tudo fazia parte da evolução tecnológica que envolvia a agilidade da informação e a simplificação da burocracia. Porém na prática tais medidas ainda deixavam muito a desejar, e as perdas históricas eram muito significativas.

Um assassinato imediato de vivências históricas reais, buscando enterrar protagonistas, conservados vivos pela dignidade dos valores defendidos?

Um suicídio, a longo prazo, visto que a história vivenciada por anônimos poderia ensombrecer ainda mais o vazio e espelhar a falta de comprometimento organizacional e social de muitos profissionais atuantes?

As experiências devem sempre reforçar o quadro autoreferencial de quem se propõe a ser o construtor de sua própria história de vida. Lembro que mesmo dentro de um ambiente totalmente hostil, preconceituoso e de falsa política inclusiva, consegui sobreviver.

O primeiro contato com uma assessora marcou todo o meu percurso pela área : " Não sei como lidar com você me analisando o tempo todo." A partir daí, toda aliança ou parceria que procurei estabelecer, era interrompida por ela. Gradativamente me foi tirado espaço físico e material de trabalho, minha produção decorria do material que levava de casa. Tive que conviver com constantes distorções de informações, inclusive no que se referia a horários de reuniões com diretores, que ficaram no aguardo de minha presença . Tive que sentir a frieza do ostracismo e a mudança na qualidade de relações decorrentes de maledicências e receio de "enfrentar hierarquias" com o comum "Percebo o que ocorre, mas preciso do emprego, não posso me envolver, nem estar perto ou cumprimentá-la". Não foi fácil permanecer centrada, mesmo para mim que auxilio aos outros nesse sentido.

Consegui manter a cabeça erguida e estar bem comigo mesmo. Produzi a cada mês novo projeto, reforçando meu capital intelectual. Engavetados ou redistribuídos, muitos deturpados e abandonados, ninguém me usurparia esses conhecimentos. O tesão da criação e o processo logístico para a implantação residem "no" e permanecem "com o" autor. Tive o cuidado de reforçar esse lado e quem desenvolvesse meus projetos teria conhecimentos que o tornaria apto ao mérito e a minha admiração como parceira distante.

Hoje, após anos, minha auto-estima valorizada só tem a agradecer. De tempos em tempos, em alguns momentos de fragilidade, resgato essa visão histórica e isso me ajuda a superá-los mais rapidamente. Acredito ter sido a qualidade dessas vivências, que me possibilitou acompanhar as considerações de Eric Hobsbawm em seu livro " Era dos Extremos" , e retirar delas as respostas que buscava naquela época.

Transcrevo trechos dos relatos desse historiador , algumas de suas análises sobre o século XX, repercussões atingindo o século XXI . Também endosso o apelo de muitos :" Não deixem que retirem da História seu eterno papel unificador"! Acreditando que possa estar sendo falseada por alguns, é se aproximar dos historiadores que buscam cercar seus relatos de evidências focando a transparência de fatos verdadeiros sob várias perspectivas.

Algumas citações do autor, acima mencionado valem muitas reflexões, pois sinalizam o grande perigo do século XXI:

" No fim deste século XX, pode-se ver como pode ser um mundo em que o passado - inclusive o passado no presente - perdeu seu papel... Não sabemos aonde tudo nos leva, ou mesmo aonde deve nos levar... Para onde vai a humanidade? "

"Olhando para trás, vemos a estrada que nos trouxe até aqui. Mas o que nos moldará o futuro?"... Ante a "regressão aos padrões do barbarismo, este século nos ensinou que os seres humanos podem aprender a viver nas condições mais brutalizadas e teoricamente intoleráveis."

" A memória histórica já não está tão viva". É a lacuna entre gerações e o abismo entre seus valores dificultando a vida de relação.

"A destruição do passado - ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas - é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso, os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio. Por esse mesmo motivo, porém, eles tem de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores".

Ao abordar a diferença qualitativa no mundo, o autor cita três transformações históricas, que contribuíram para a realidade atual :

1- Quando o século XX começou, a Europa deixava de ser o centro de poder, riqueza, intelecto e "civilização ocidental" e o mundo deixava de ser "eurocêntrico" - ocorrendo grandes mudanças na configuração econômica, intelectual e cultural da época.

2- A construção de uma "aldeia global" , e a aceleração das comunicações e transportes - mobilizando a grande "tensão entre o processo de globalização cada vez mais acelerado e a incapacidade conjunta das instituições públicas e do comportamento coletivo dos seres humanos de se acomodarem a ele".

3- Segundo ele, talvez o mais perturbador: " a desintegração de velhos padrões de relacionamento social humano e, com ela, a quebra dos elos entre gerações, quer dizer entre passado e presente".

O historiador destaca "o predomínio dos valores de um individualismo associal absoluto, a erosão das sociedades e religiões tradicionais, a destruição ou autodestruição das sociedades do socialismo real". Registra a formação da sociedade atual "por um conjunto de indivíduos egocentrados sem outra conexão entre si, em busca apenas da própria satisfação ( o lucro, o prazer, ou seja lá o que for) que estava sempre implícita na teoria capitalista".

O modo de produção capitalista e as relações dele decorrentes podem ter sido responsável por ter moldado esse tipo de indivíduo, porém o ser humano está muito além desses padrões de massa. É encontrar força e coragem para se bancar, se assumir no que tem de melhor, não assassinar também a sua história de vida.

Ela é que lhe serve de parâmetro, auto-referência para acertos e desejo de aprendizagem com erros; élan para novas tomadas de decisão que lhe propiciem efetivo bem-estar, e motivação para sair da cegueira das reais necessidades ante o ofuscar das satisfações criadas. Essas são tão tênues que, com o tempo, se desfazem ante o desmoronamento do cenário de atuação de personagens fictícios, que vivem atrás de máscaras, atuando em histórias criada por outros. Seres humanos reais ousam vivenciar com prazer e auto-admiração suas verdades históricas.

Assim retorno a pergunta de Eric Hobsbawm: "Mas o que moldará o futuro?" e endosso a sua resposta, a esperança de "um mundo melhor, mais justo e mais viável". Entendo mundo melhor como aquele com mais qualidade de vida, visando bem-estar individual e coletivo.

E por que não lutar pela construção de sociedades com essa história, em vez de procurar assassinar a "História"?

Aurora Gite

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Breve interrupção e prazer renovado

Breve interrupção e prazer renovado nesse recomeço.

Eis que retorno agradecendo alguns artigos e sites enviados. Sempre me comprometo com o material que me chega, seja de alunos, de profissionais afins ou da área clínica, de amigos. Os que me possibilitam trocas de experiências, respondo e crescemos juntos na relação.

Fiquei triste ao me deparar com o fechamento de um blog, que me interessou acompanhar, pelos grandes elogios à capacidade perceptiva e intelectual do bloguista. Percebi em dezembro o grande número de comentários, que lhe foram enviados. Gostaria que tivesse tido a coragem de manter o blog e confrontado preconceitos na esgrima das palavras e no escudo das idéias. Mas... cada um sabe das próprias limitações e, nós outros, temos é que conviver com nossos limites e frustrações.

Cada vez mais, buscando montar um painel, ante a enorme crise mundial, deixo-me embalar pela esperança de grandes mudanças individuais e sociais, em prol de melhores qualidades de vida e do bem-estar coletivo. É interessante observarmos as expressões artísticas e socio-políticas, as novas leituras que os diversos meios de comunicação já fazem em cima delas, o foco interpretativo e as análises agregando uma multiplicidade de perspectivas, bem como os juízos avaliativos e a formação de opinião que deles decorrem.

Adquiri em janeiro alguns livros, outros ganhei e me dei de presente em meu aniversário em fevereiro. Fiquei contente ao constatar que a visão de mundo e de homem do século 21, defendida por mim e por tantos outros, há alguns anos, cada vez mais se alastra.

Com a vitória de Barack Obama, quis conhecer um pouco mais sobre o "homem mais poderoso do mundo" e que teria tudo para alterar o cenário violento, monstruoso e perverso, que nos cerca. E eis-me a ler "A Audácia da Esperança"- reflexões sobre a reconquista do sonho americano - buscando acompanhar a estrutura mental de quem o pariu, seus sonhos e expectativas. O autor foi o próprio Obama. Ele o escreveu em 2006. Chegou até nós em 2007. Já clamava por um tipo diferente de política. Continuo confiando em seu potencial para enfrentar as consequencias de posturas irresponsáveis e de instituições -leia-se "grupos de pessoas"- desestruturadas, geradoras de todo o caos econômico e social.

Sempre leio concomitantemente de três a quatro livros. Sendo assim cito também " O Vendedor de Sonhos" (Augusto Cury) que me possibilitou o contato com mais um ser humano que defende e luta por ideais semelhantes aos meus, e que, no entanto, me propiciou contemplar o ponto crucial com grandes chances de acarretar a implosão do capitalismo num futuro próximo: a nova casta de escravos explorados, ou seja, a grande parte dos que exercem posição de liderança. Vale a pena nos permitirmos sermos apresentado a eles, ou vermos nossos reflexos espelhados neles.

Como nada é tão por acaso... agrego a esses "Entre o Passado e o Futuro", de Hannah Arendt. Através de suas reflexões a autora aborda a necessidade de uma revisão de conceitos que envolvem a ação política. Situa o campo da política dentro de um novo prisma funcional: o do diálogo com o outro, no espaço do mundo público, enfatizando a liberdade e a opinião. Sendo assim, enfatiza a maneira de pensar no plural e o ser capaz de pensar no lugar do(s) outro(s). Segundo ela, aí reside a habilidade política. Diferencia o campo da política do campo do pensamento, espaço para o diálogo consigo mesmo, local para o livre arbítrio na busca do acordo consigo mesmo e de respostas a perguntas metafísicas.

Somo a esses "O Mal-estar da pós-modernidade", de Zygmunt Bauman. O autor atribui como marca da pós-modernidade, afirmando ser uma necessidade que acompanha a velocidade das mudanças econômicas, tecnológicas, culturais e do cotidiano - a vontade de liberdade. Mera coincidencia?

Acredito que não, e sugiro que nos adaptemos a essa nova forma de raciocinar (baseada na interconectividade e interdisciplinaridade) cujo aprendizado veio via Internet , que busquemos cruzar todos esses dados que chegam de diferentes cabeças pensantes e de diversas localizações físicas, e que estejamos abertos aos novos conhecimentos que nos chegam para atualizarmos e deletarmos os que não funcionam mais para o século 21.

E agora?

Agora, depois de assistir ao filme "Curioso Caso de Benjamin Button" e focar, como bem coloca o artigo da Revista Veja, a vida em reverso, comecei a ler "Era dos Extremos- o breve século XX - 1914/1991", de Eric Hobsbawam, pois também, como o do autor, "meu tempo de vida coincide com a maior parte da época de que trata este livro ... era das ilusões perdidas". Será?

Que bom se fosse, pois poderíamos afastar a fantasia ilusória paralizante e aproximar a capacidade real de sonhar, entrando na "era de concretizar novos projetos de vida e de alcançar novas conquistas".

Para aqueles já cansados pela idade ou pelas dificuldades da vida, vale a pena resgatar a importancia da frase : "É preciso roubar um pouco da felicidade contida nos sonhos" para ganhar novo dinamismo, e, em vez de morrer a cada minuto, sobreviver, rejuvenescendo um pouco a cada instante de vida bem vivida, lembrando que "ninguém escapa ao tempo, mas o tempo escapa a todos".

Aurora Gite
Postado às 21.30 horas.