domingo, 17 de maio de 2009

A matemática de um casal

Esse título intrigou você?
Vamos destrinchar um pouco mais esse tema?
Aposto que você vai se surpreender mais ainda.

O próprio termo casal nos remete a um par, ao número "2".
E eu vou mostrar a você que um casal equivale ao número "1" e , se tentar transformar essa relação humana em "2", é o início do fim de uma convivência harmônica.

Duas pessoas se conhecem, descobrem um certo magnetismo no outro (que chamar de simpatia, tudo bem) , que vem da troca de olhares. No olhar está escondido um grande mistério, tente falar com a pessoa sem olhar diretamente, e observe o que ocorre dentro de você. Epa! Prometo, não misturar a física quântica nesse momento, mas que já podemos fazer várias conjecturas sob o prisma dos novos conceitos podemos. Os primeiros passos para essa leitura residem no poder da energia obtida através da visão, pensamento e imaginação.

Por que aquela pessoa, e não aquela outra, que está bem ao lado dela, te atraiu?
Por que a disposição interna de conhecê-la melhor?
Por que o tesão de prolongar ao máximo o contato, de fazer com que as palavras se arrastem e o relógio se atrase?
Por que vontade de que esse imã de ligação não perca sua força de atração?

Descoberta de afinidades, algumas reais, outras criadas, e sabemos que é aqui que reside o perigo. O encantamento pode ser tanto, e a carência pessoal maior ainda, que desligamos nossa capacidade de captar e coletar os dados diretamente da realidade externa e interna. O mundo da imaginação, quando unido à idealização pela fantasia sobre o outro e sobre nós, nos arrebata de tal forma, que nos embalamos no ledo engano da ilusão... e nos perdemos, abrimos mão de nós como indivíduos únicos. Porém nos esquecemos que mais cedo, ou mais tarde, a realidade vai se impor a nós. A vida não nos perdoa esse afastamento. O resgate de nossa individualidade, e a retomada da administração de nossa vida, vai ser sempre difícil e sofrido, e inadiável muitas vezes.

E a matemática?
Já ouviram falar no processo de individuação?
Então sabem que não me refiro a individualização, não é?
Como podem existir dois números "1" tão idênticos, mas tão distantes um do outro e tão díspares em suas equivalências, ou seja, no peso de seus valores.

No primeiro nos tornamos indivíduos, abertos ao outro, ao mundo de relação, sabemos nos cuidar, reconhecemos nossas necessidades, distinguimos o que pertence ao nosso mundo interno e separamos o que é do outro, conseguimos melhor administrar nosso patrimônio interior. Podemos nos bancar, ou seja, verificar se temos cacife - psíquico, moral, e mesmo financeiro, por que não? - para preservar o número "1" dentro da relação de parceria, e se temos condições de avaliar até onde podemos seguir na relação sem nos violentarmos. Uma violentação implica numa invasão agressiva ao nosso íntimo e a quebra do inteiro, do "1" que somos, e é a nossa relação conosco mesmo que fica "zerada".

No segundo nos tornamos individualistas, fechados ao outro, no mundo de relação prevalecem os próprios valores e os interesses individuais, ou seja, existe o "2", o "eu e você", mas não existe a relação casal. Como o individualista não sabe se cuidar, não se assume como sendo responsável por si mesmo, não consegue ir a luta e buscar conquistar aquilo de que sente falta - aliás nem sabe o que deseja realmente, nem do que precisa para ser feliz - espera que, quem com ele se relacionar, assuma a responsabilidade "sobrehumana" de bancá-lo em suas carências, de magicamente saber o que quer e precisa, e entre no papel de salvador acertando no aplacamento das angústias por suas frustrações. Sendo o eterno insatisfeito, representa o negativo do "1" , ou seja, o "-1". Só por aí a relação a "2" está zerada.

Há algum tempo gostava de dizer que o número representativo de um casal era o "11". Hoje, com mais vivência e com o manto de sabedoria que a vida vai nos protegendo, com humildade mudei essa convicção.

Considerando uma relação formada por dois números "1", queria que refletisse comigo, pois coloco que a relação humana, que surge de dois "1" equivale também a "1".

Se "relação casal" não for considerada como terceiro elemento inteiro da interação das pessoas, ela vai se tornar vítima de "momentos pessoais de cada um". A manutenção de um casal de inteiros vai depender da forma como cada um dos elementos anteriores vai administrar suas diferenças e da coragem com que vão bancar o "número infinito" de expectativas internas, que fazem parte de suas personalidades individuais, somadas às do mundo que os cerca, que também interferem nas qualidades das vivências cotidianas.

Acredito que a relação "1", surja do "entrelaçamento de partículas" individuais que permitam a cada um estar em vários lugares ao mesmo tempo, sem perder a força atrativa, ou o brilho pessoal. Ela traz como características o companheirismo e a cumplicidade, valores individuais que se entrelaçam, em prol da construção do "nós", sob a radiação luminosa da auto-estima e autovalorização - forças necessárias na manutenção do equilíbrio energético, elo de ligação desse "casal", e também em alguns momentos, ante possíveis desgastes advindos das convivências diárias, fontes reabastecedoras e reativadoras da sintonia entre o casal.


Aurora Gite

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A um arquiteto das palavras e construtor de perfis

A um "arquiteto das palavras" e "construtor dos perfis de seus novos personagens"

Se assistiu ao documentário "O Universo" ( History Channel ) - descobri que tem disponível no Youtube - e conseguiu, ao fazê-lo, administrar sua angústia como ser humano, preservar seu autoreferencial, assimilar toda essa revolução antropológica e metafísica, provavelmente, deve ter tido a percepção da urgência na mudança interna de paradigmas obsoletos no que diz respeito a visão de homem e de Universo, e na alteração e reestruturação de tantos conceitos que não expressam mais a verdadeira realidade.

Se você se permitiu chegar até aqui e está aberto a esses novos conhecimentos, visando ampliar sua consciência e se permitir entrar nesse novo mundo de universos paralelos, que está se descortinando científicamente, não pode deixar de dar mais um passo assistindo "Quem somos Nós?" ( disponível em DVD) .

"Partindo dos estudos da física quântica, mistura ficção e documentário para nos mostrar que a realidade, da forma como a percebemos, é ilusória, que nós é que a criamos e que, sim, nós podemos mudá-la. Depoimentos de físicos, filósofos e místicos afimam que a matéria não é sólida como pensamos: ela é etérea e mutável, e que nossos pensamentos podem alterá-la." E lá entramos nós numa nova leitura envolvente de nosso universo pessoal, tendo em nossas mãos o poder de processar tanta alquimia.

Imprevisibilidade? Probabilidades? Possibilidades? Intencionalidades? Princípio da incerteza? Relatividade? Comunicação âtômica? Aceleração de partículas e fenômeno de entrelaçamento via manipulação quântica ? Pensamentos com ações semelhantes aos fármacos tradicionais? Intenções mobilizando alterações moleculares? Importância da unicidade pessoal e de buscar se tornar "amante de sua alma" antes de qualquer outra relação amorosa?

Para acompanhar essa leitura vamos ter que mudar nossos óculos, pois a interpretação de seus significados só é conseguida sob uma compreensão perceptível totalmente fora dos padrões de uma maioria, acomodada em sua busca de adaptação ao conhecido captado por nossos cinco sentidos. Nesse sentido, também aqui temos que ter a coragem para nos desnudar de preconceitos e nos revestir de uma sensibilidade mais apurada advinda de outra dimensão extrafísica.

Se você chegou até aqui, gostaria de indicar um site que poderá ajudá-lo a se aproximar da "ciência gnósica" - gnosionline.org - Aborda a existência de uma Quarta Dimensão, existência comprovada após as revelações do microcosmo da mecânica quântica. Como nos colocou um verdadeiro gnóstico, Gurdjieff , em sua última frase, já em seu leito de morte: "Deixo vocês num beco sem saída".

Existe um livro, complexa leitura, mas muito interessante : "Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido (em busca do milagroso)" de P.D.Ouspensky, que nas suas buscas de um sentido para a vida, narra suas vivências com Gurdjieff , com seus ensinamentos sobre o "Quarto Caminho", seu foco na consciência (energia e estados vibratórios) , e na "alquimia ou química que leva em conta não só as propriedades físicas e químicas, mas também as propriedades psíquicas e cósmicas". E só agora "nossa vã consciência" está conseguindo abarcar um pouco do milagre da existência e do nosso papel ativo no direcionamento de nossa realidade. Mas o processo a partir daqui vai ser muito mais acelerado, as descobertas científicas não param...

O caminho do autoconhecimento, da autorealização íntima, e da constante busca de um desenvolvimento interno harmonioso e pacífico, não nos permite retorno, pois a interrupção desse encontro com nossa essência ( quer chamar de alma, tudo bem) provoca a pandemia do distúrbio mental denominado de crises de pânico ou "síndrome do pânico".

Nossa alma reclama também e pede nossa atenção. Não sabia e quer saber como isso acontece? Provocando essa gama de alterações funcionais em nosso organismo, que podem chegar a alterações orgânicas mesmo. Veja por si mesmo como ao se aproximar desse seu Ser, buscar escutá-lo em suas necessidades, atendê-lo e expandir seu verdadeiro potencial, esse tipo de quadro mental vai se modificar.

Abraço
Aurora Gite

terça-feira, 5 de maio de 2009

Indicação de um blog

Há mais de ano tenho procurado ler os "posts" de Gustavo Chacra . Atualmente na função de correspondente do jornal Estado de São Paulo em Nova York, ele utiliza seu blog para tratar somente de assuntos referentes ao Oriente Médio.

Além de ter ficado atraída por sua articulação de idéias,me encanta acompanhar sua perspectiva temática. Gosto de ver como, ainda jovem, procura se bancar em suas colocações e estabelecer limites a seus leitores. É isso que nos traz os parâmetros referenciais, necessários para relações pessoais e profissionais amadurecidas. No caso, nos direciona como leitor a acompanhar o pensamento do autor. Espelha a postura do escritor responsável tanto na defesa de sua liberdade de expressão, quanto no cuidado grato com seu leitor.

Desde o final do ano passado, aparece como texto contínuo no final de suas postagens: "Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes,ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores. Não é permitido postar vídeos. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima."

Outro ponto que me chama a atenção, e me faz ter muita esperança no futuro da humanidade, é o foco construtivo e apaziguador com que consegue abordar guerras e violências contra o ser humano. Ele nos traz o " fio da meada histórico" responsável pela criação dos povos do Oriente Médio, retrata como as comunidades foram surgindo em seu contexto social, político e econômico, e as insere nos moldes necessários as suas sobrevivências passadas e presentes, pontuando os atributos emergenciais para suas convivências atuais.

Agora é se dispor a ler seus blogs e acatar suas sugestões de pesquisa histórica. Sob o prisma histórico nada é por acaso, ou está tão solto assim. É a trama do mundo de relações que sempre direciona a ação humana.

http://blog.estadao.com.br/blog/chacra

Aurora Gite

sexta-feira, 1 de maio de 2009

"Escrever" um blog sem usar as mãos?

Na parte de Ciência & Tecnologia da Revista Isto é, edição 2060, de 30 de abril de 2009, um artigo de Luciana Sgarbi, me chamou a atenção.

O artigo traz descobertas e inovações da Engenharia Biomédica, envolvendo "capacetes que pensam". Essas notícias, científicamente comprovadas, ao mesmo tempo que me extasiam, me amedrontam quando vislumbro as repercussões de seu mau uso. Sendo assim surge dentro de mim uma pergunta inquietante: " Já estará o ser humano apto para saber - e "querer" - disciplinar e administrar suas forças interiores, seu cabedal interno de energias em movimento que ainda tanto o desequilibram?"

A autora aborda o aparecimento, no mercado, de aparelhos que usam impulsos do cérebro para comandar videogames e interagir no mundo virtual. "Imagine escrever um blog sem usar as mãos; jogar um videogame dispensando o joy stick; fazer movimentos com o rosto para interagir em um mundo virtual".

Passa a descrever o processo envolvido: "Como nosso cérebro envolve cerca de 100 bilhões de células que emitem impulsos elétricos, ele é o comando ideal para o funcionamento do novo capacete. A interface cérebro-computador lê os impulsos elétricos e os traduz em ordens que podem ser aceitas por um videogame. Um capacete interpreta a interação dos neurônios no cérebro e envia os dados, por meio de conexão sem fio, para um computador". Tudo com o uso apenas da força dos pensamentos e do poder de concentração.

Realça a Engenharia Biomédica que "apresenta o BCI, o Epoc e o Neurosky, evoluções fantásticas de entretenimento no mundo digital". Destaca a empresa australiana Emotiv, e suas aplicações em jogos, em que "um capacete de eletrodos ligados à cabeça torna possível pensar e enviar o pensamento ao computador".

Na mesma linha o Neurosky também se sobressai, segundo a autora, com seu "capacete que permite ao jogador usar ondas cerebrais para acender a espada do personagem Darth Vader. Ele identifica sinais elétricos cerebrais captados por um eletrodo e os transmite para um sensor sem fio acoplado ao brinquedo. Quando o usuário se concentra, o produto responde a comandos para os quais o brinquedo foi programado. Já a falta de concentração faz com que a espada se apague".

Saindo do campo dos jogos, ela destaca como ferramenta de comunicação da internet, o BCI-2000 feito para o microblog Twitter. Acreditem, se quiserem , ou confirmem buscando novas informações: "Um capacete transforma impulsos cerebrais em letras para postagens".

Sou muito curiosa para saber como as "coisas" surgem, talvez você também seja. Então vamos lá! Essa descoberta se deve, ainda segundo este artigo, ao engenheiro biomédico Adam Wilson, da Universidade de Wisconsin. Ele conectou o capacete ao computador e instalou previamente um alfabeto na tela. Sem tocar no teclado e apenas olhando a tela do computador, fez "aparecer" uma série de mensagens. Verificou que para "escrever" basta que o usuário " se concentre em uma determinada letra, o capacete a identifica e ela brilha, dando um sinal de que a sua seleção foi aceita. Assim frases são formadas".

E eu continuo me questionando: Quantos conceitos da metapsicologia ou experimentos da parapsicologia já poderão ser comprovados cientificamente! Mas, chegarão a tempo a nova Física Quântica, o Ser Quântico e a Psicologia Quântica , provocando a necessária "visão revolucionária da natureza humana e da consciência"?

De minha parte, cada vez mais, busco a expressão do "ser quântico" que faz parte de minha natureza humana. Agora é com você programar o patamar interno que quer alcançar na sua vida.

Posso fazer a indicação de dois livros que podem auxiliá-lo nessa busca?

"O Ser Quântico : uma visão revolucionária da natureza humana e da consciência, baseada na nova física", de Danah Zohar; Rio de Janeiro: Editora BestSeller, 2008. O livro já está na 17ª edição.

É uma pena que essas obras nos cheguem com tanto atraso. O "copyright" da obra citada acima data de 1990. Foi publicado inicialmente na Grã-Bretanha.

Da mesma autora, indico também "QS: inteligência espiritual"; Rio de Janeiro: Record, 2000.

Neste livro são apresentadas as últimas descobertas científicas sobre a existência e a importância de "QS" na integração do intrapessoal e do interpessoal. A inteligência não nos isola, segundo Zohar, na esfera estreita da experiência do ego e nem mesmo na experiência da espécie humana. "O vácuo quântico - realidade transcendente final - a física pode descrever". A esse terceiro "Q" é atribuído a "responsabilidade pelo significado de nossa existência", pois está ligado "à necessidade humana de ter propósito e objetivo na vida" - questões fundamentais nesse início de milênio.

Em tempo: Danah Zohar é física e filósofa, casada com Ian Marshall, psiquiatra e terapeuta, também escritor, que, segundo ela, muito contribui em suas reflexões sobre a natureza do ser humano. Não posso deixar de sentir um pouco de inveja e curiosidade sobre o casal e suas discussões visando o homem e o Universo, e de seu compartilhar de uma cumplicidade ética, na luta por uma sociedade com melhor qualidade de vida, formada por seres humanos mais íntegros e autorrealizados.

Aí repito comigo: C'est la vie, Aurora Gite! C'est la vie! E, com orgulho, olho para frente. Tanto a fazer...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Remédio para o desemprego

Em três dias li o livro "A Filosofia como remédio para o desemprego" , de Jean-Louis Cianni; Rio de Janeiro: BestSeller, 2009.


Fácil de ler e de apreender seu conteúdo, a meu ver muito rico nessa época de crise financeira, de desempregos, de especulações às mais variadas, de construções midiáticas ilusórias, enfim de mudanças impactantes, perdas simbólicas e concretas, que pedem por elaborações internas e reestruturações na identidade pessoal.

O autor cita brevemente idéias de alguns filósofos, que abordam perdas, mortes, luto, vazio, solidão e que partem de reflexões existenciais para o encontro com uma nova identidade. É muito interessante a forma com que ele se utiliza das reflexões dos filósofos e estabelece a ponte com o sofrimento que passou na condição de desempregado.

Descreve todos os passos que trilhou, como desempregado com 49 anos, e todos degraus que foi alcançando em sua ascensão pessoal. Observem como ele bolou um projeto terapêutico para si mesmo e como começou a dar resultados em sua vida. O remédio vale para qualquer um e não tem contra-indicação.

Para quem leu meus blogs anteriores questionem se será mera coincidência o que vão encontrar, e se indaguem se o caminho não é por aí mesmo. Para onde? É ler e descobrir. Depois me enviem um "feedback".

Aurora Gite
( postado às 20:40 horas )

sábado, 25 de abril de 2009

Líderes, ora líderes! Para que?

Tenho me recordado atualmente de uma época que muito me marcou.

Ainda sob o impacto do redirecionamento de minha vida, consegui passar num concurso público. Fiquei sabendo dele por uma colega, num curso de especialização, tive um dia para me inscrever e menos de um mês para me preparar. Não fazia parte de meus planos naquele momento. Como faria com o meu consultório? E meus pacientes?

Só que não deu outra. Passei em dois institutos na área hospitalar. No primeiro após ter sido selecionada na prova escrita e na dinâmica, quando na entrevista souberam que meus pais tinham sido cardíacos, tive o privilégio de ser cumprimentada pela diretora do setor, que me colocou ser esse um fator impeditivo para ser aceita naquele instituto voltado à cardiologia. Eu já conhecia seu trabalho e sua postura de verdadeira líder, a quem teria o maior prazer de me subordinar. Carreguei comigo seu incentivo, manifestação expressa diante de várias pessoas, e seu desejo de boa sorte na profissão.

No segundo instituto, passei pelas três etapas e, pouco tempo depois, vestia meu jaleco branco com um enorme orgulho. Tal foi meu comprometimento, que gostava de brincar que era "como se fosse" um novo casamento. Já no primeiro dia, porém, entrei em contato com a realidade das lideranças "representantes de um poder instituído".

Fui orientada para estar nas dependências da "Divisão" de minha categoria, onde saberia então a Clínica para a qual seria designada a prestar os serviços profissionais, a partir daquela data. Minha pontualidade é "britânica". Sempre me orgulhei disso. Portanto, lá estava eu às nove horas em ponto. Na Secretaria me disseram para esperar no saguão. E lá fiquei eu, consultando o relógio: dez horas...onze horas...meio-dia... uma hora...duas horas...e nada. Nenhum aviso sobre a demora, nenhum respeito ou consideração por minha pessoa, por parte dessa "diretoria" .

Descobri como é fácil muitos diretores, chefias, assessores e privilegiados, nesse tipo de gestão verticalizada, se esconderem impunemente. A confecção da fantasia dos cargos ou funções lhes cabia "como uma luva". Suas proteção e barreira de isolamento eram propiciadas pelos assessores diretos, que se tornavam, convenientemente, seus porta-vozes, na maioria das vezes imbuídos de maior autoritarismo. Podiam transitar sob o spray da invisibilidade, portanto embatíveis ante críticas e pontuações de falhas no desempenho de suas funções. Pude logo notar a insensibilidade ao outro, bem como o poder opressor outorgado por um mero crachá.

Não é que a mentalidade de funcionária pública se instalava! O que tinha eu, pensava então, com o desperdício de tempo e da utilização inadequada dos serviços que poderia estar prestando? Por que deveria me incomodar, se minha hora já estava sendo coberta por um salário? Produzindo ou não estaria sendo paga. Receberia, estando lá ou não, se soubesse bem encobrir o fato, ou fizesse uma barganha para que minha falta de assinatura na lista de presença ficasse imperceptível no dia. Com a mudança para cartões eletrônicos houve a substituição para os horários flexíveis e as famosas "horas em haver" para grupos de pessoas selecionadas.

Foi quando tive a primeira aprendizagem de contenção da sensação desagradável do funcionário público, que sabe que tanto tem a contribuir e se sente frustrado ante a necessidade de resignação, e busca dominar sua impotência ante a marcante discriminação de favores e privilégios. Dentro de mim acenava a descrença em toda a estrutura administrativa, que se fortaleceu ao ouvir a voz da "diretora" soando, e entender o conteúdo de suas palavras : " Bem, vamos ver para onde vamos escalar a "menina"(?).

Pude perceber outra voz, dentro de mim, que tentava gritar: " Ei! E o meu compromisso, meu entusiasmo, minha vontade e iniciativa, como ficam?". "Ei! O preconceito é seu. A dificuldade de lidar com a meia idade é sua. Tenho só pouco mais de quarenta anos!". Com maior força, agarrava eu minha autovalorização profissional e minha auto-estima pessoal, tentando protegê-las desse tipo de liderança.

Aprendi a segunda lição: a credibilidade da liderança é que determina a disposição das pessoas se envolverem com tesão no que fazem, sendo leais a seu líder.

Instituições, entes abstratos, ficam atrás desses líderes, já que eles falam por elas. Tentei pesquisar depois o que mantinha as pessoas nesse complexo hospitalar, tido como modelo nas áreas assistenciais, de ensino e pesquisa. O salário era baixo e o desgaste burocrático enorme. Na época, constatei a presença de dois elos mantenedores. Num extremo, a ajuda ao "próximo necessitado", porém ao burlar regras burocráticas insanas, também era obtido um tipo de "status" e de poder. Os eternos "eu sou" e "eu posso", demarcadores de um falso espaço no mundo interno e de um lugar ilusório no social. No outro extremo, estava a conquista da fama ante pesquisas individuais efetuadas, valendo aqui a mera inclusão do nome em grupos de pesquisadores, ou o reconhecimento obtido pela inserção do nome da instituição nos currículos. Deixo o juízo avaliativo para vocês.

Com o tempo percebi o séquito de empregados irresponsáveis, indiferentes e até mal-intencionados. Passei a observar suas posturas e escutar seus queixumes: "Se der para fazer tudo bem,não vou me matar. É desmarcar pacientes!"; " Pacientes foram marcados no mesmo horário da reunião da Divisão? Que esperem, pois do setor vem uma sanção ante o não comparecimento à reunião!"; "Meio-dia? Vou aproveitar, sair para almoçar e depois passar no Banco. Retorno por volto de quatro horas. Digam aos pacientes que podem dar uma volta e tomar um lanche"; " Vou pesquisar para mim, para minha pós, para assuntos de meu interesse particular, e depois me mando daqui."

Cada vez mais sentia algo dentro de mim dando cambalhota e cobrando a adoção de uma postura diferente. Aí veio minha terceira lição: "Aprender a exercer a própria liderança" e a minha era uma liderança ética. Eu a segui durante minha vida. Paguei preços altos. Tive até que conviver com rupturas de relacionamentos importantes. Senti o que é "estar morta em vida", pela fácil substituição em algumas relações amigáveis e mesmo familiares. Mas sempre me mantive de cabeça erguida. Não seria agora, que iria vestir as máscaras "do cinismo, da frivolidade, das manipulações perversas, dos consentimentos e silêncios cúmplices". Queria lutar pela minha dignidade. E assim o fiz.

Cada vez que me vinha um desanimo, por me ver sem ação frente a um sistema atroz, que não se interessava pela preservação da integridade do ser humano, notava que aumentava o volume de minha voz interna, que já berrava: "Líderes, ora líderes! Para que?". E, com mais força ainda, eu abraçava o líder que ía se fortalecendo dentro de mim.

Produzi grande material envolvendo lideranças éticas. Foram entregues protocolados. Recebi cumprimentos verbais de alguns diretores que acusaram o recebimento do material, e me avisaram que estavam colocando "algumas vírgulas"(?) e... é só o que sei. Líderes, ora líderes! Para que?

Reconheci, e reconheço ainda, o peso inovador, a base ética de meus projetos e minha autoridade e compromisso moral , comigo mesmo e com os demais, para implantá-los a contento. Para alguns era uma visionária. Não seria portadora de um caráter inovador? Outros, embora reconhecendo o valor prático dos projetos, em seu ceticismo com o sistema, me acusavam de esquecer das dificuldades de um "terceiro mundo". E o agregar, e a sintonia de forças de equipes e seu papel na sincronia do sistema organizacional? Outros ainda me apontavam como representante de "Dom Quixote" com seus sonhos utópicos. E o caráter entusiástico de um empreendedor? Para mim eu era uma lutadora, tentando semear ética num campo ainda árido.

Hoje, não mais na instituição, conservo ainda no peito muita esperança. Com grande capacidade de análise e visão de futuro, estava claro para mim que a busca de políticas de transparências no processo logístico e nos resultados , característica de nossa sociedade informatizada, trazia consigo grandes mudanças éticas a médio e longo prazo. Sendo assim, as frágeis e aparentes transformações institucionais não se manteriam e os resultados desmoronariam , como os castelos quixotescos. Evidencias atuais só confirmam isso. O que me dá novo alento é que dessas constatações reais surgem as necessárias mudanças e os verdadeiros líderes que conseguirão implantá-las de forma não só eficiente, mas eficaz.

Ah! Aprendi mais uma lição dentro da organização: "Um indivíduo na tarefa de dirigir um grupo de pessoas é um dirigente, mas nem todo dirigente é um líder, a quem pessoas sentem prazer em seguir e, com a lealdade de um time, ajudam a tocar seus projetos avante, visando a melhoria da equipe e da instituição". Líderes, ora líderes ! Para que?

Aurora Gite
(postado às 22:20 horas)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Acolhendo, dentro de mim, um impacto.

Tento sobreviver ao forte aperto no coração ante o impacto do término da leitura do livro "O menino do pijama listrado: uma fábula" de John Boyne - São Paulo, Companhia das Letras,2007.
Por esse livro o autor ganhou alguns prêmios. Chegou a ser transformado em filme em 2008.

Gosto quando um autor consegue me envolver em sua temática e me embala em sua linguagem fácil e fluente. Ao mergulhar na leitura, procuro acompanhar o processo mental criativo do autor nas vivências dos personagens e na rede das tramas, e toda movimentação que ocorre dentro de mim mesma. Até a capa me chama a atenção e essa foi muito feliz, pela graduação de cor e pela textura da capa, a inicial áspera em contraponto com sua extensão final tão macia.

Vou transcrever uma citação retirada do que chamam de "orelha" do livro, pois a sigo rigorosamente:

"É muito difícil descrever a história de O menino do pijama listrado. Normalmente, o texto de orelha traz alguma dica sobre o livro, alguma informação, mas nesse caso acreditamos que isso poderia prejudicar sua leitura, e talvez seja melhor realizá-la sem que você saiba nada sobre a trama".


Como tenho que soltar toda essa energia represada, por isso desconfortável, e já é noite para que saia a caminhar, vou colocar as últimas palavras do autor ao encerrar sua obra , como meio substituto encontrado para equilibrá-la mais prazerosamente:

" E assim termina a história de Bruno e sua família. Claro que tudo isso aconteceu há muito tempo e nada parecido poderia acontecer de novo. Não na nossa época." Eis a chamada do autor, para parearmos com os acontecimentos atuais. Só tem a ver, se associarmos situações parecidas em contextos semelhantes!

E para me aliviar mais ainda, deixo registrado este trecho:

"... mas por fim olhou para Maria e percebeu, pela primeira vez, que nunca a havia considerado inteiramente como pessoa, com uma vida e uma história próprias. Afinal, ela jamais fizera outra coisa ( até onde ele sabia) além de ser a criada da família. Ele nem sequer conseguia se lembrar se já a havia visto trajando outras roupas que não o uniforme de empregada. Mas ao pensar no assunto, como fazia agora, era obrigado a admitir que deveria haver mais na vida dela, além de servir a ele e à sua família. Ela devia ter pensamentos na cabeça, assim como ele. Devia haver coisas das quais ela sentia falta, amigos que gostaria de rever, assim como ele. E devia ter chorado toda noite até dormir, como teriam feito meninos bem menores e menos corajosos do que ele. Bruno notou que ela era até bonita, o que provocou nele uma sensação engraçada."

É assim que tento olhar os autores ao ler seus livros. Procuro vê-los como pessoas, com vida e história próprias, com pensamentos na cabeça e com roupagens sociais e vivências semelhantes as minhas. Sendo assim, só tenho a agradecer aos autores que me causam, através de sua manipulação das palavras, um tipo peculiar de impressão e, por isso, me provocam uma gama de sensações. Tal é o tesão e o êxtase, pela relação estabelecida, que mesmo que tenha terminado, suas idéias ainda permanecem, por um tempo, vivas dentro de mim.

Aurora Gite