domingo, 23 de agosto de 2009
Eis como um blog pode ser...
Uma agradável surpresa me esperava ao digitar :
http://comentandocomentado.blogspot.com.br
Faz tempo queria encontrar um site com tal qualidade.
Espero que também gostem.
Sobre o blog, dentro da perspectiva da equipe que o criou:
" O Comentando é um blog de variedades...Aqui a democracia e a liberdade imperam...Nosso blog é um lugar onde você é a pessoa mais importante...Por isso, tomamos muito cuidado com o que postamos..."
O "cartão de visita" aí está. Agora é ir conhecer o blog. Depois me escrevam sobre o que acharam. Podemos ou não buscar transformar a realidade que aí está, e fazer de um blog um instrumento voltado para esse objetivo?
Aurora Gite
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Mais uma crise ou a única?
Crises econômicas?
Crises sócio-políticas-históricas?
Crises de lideranças?
Crises que agora se espalham para áreas pré-políticas, como a criação dos filhos e a educação, e que nos permitem uma visão de seu afunilamento e o surgimento de novas indagações, muito mais profundas.
Vou me permitir agregar a essas associações, novamente, as idéias de Hannah Arendt, companheira constante das últimas semanas, dedicadas à leitura , e estudo mesmo, de seus livros. A força mental advinda das perspectivas de Arendt sempre me permitem visões mais abrangentes e esperançosas.
Segundo ela, uma "crise de autoridade" acompanhou o desenvolvimento do mundo moderno desde o começo do século - uma crise constante, crescente, cada vez mais profunda, e que se alastra com enorme velocidade, sendo oculta pelas demais que se posicionaram em primeiro plano.
Suas reflexões sobre a "autoridade" em si ("Entre o Passado e o Futuro") se voltam para duas questões fundamentais: " O que foi a autoridade, historicamente?" e " Quais suas fontes de força e significação?" Acredito que esse seja o caminho para melhor compreensão da violência atual , e possível enfrentamento desse mal social, visto a violência preencher a mesma função que a autoridade, qual seja : "fazer com que as pessoas obedeçam", conforme coloca Arendt.
Mas por que as pessoas necessitam desse tipo de relação?
O que lhes falta internamente, que não buscam a serenidade mas aquisições ambiciosas, materiais ou não ?
Por que não conseguem, por si mesmas, o preenchimento de seus vazios interiores?
Onde está sua autoridade consigo mesmo?
Como está sua forma de gerenciamento interno?
Por que se permitem a, conscientemente, viverem uma vida de má qualidade?
Por que desativam seu livre arbítrio e seu senso crítico? Por que não se permitem ser o senhor de suas vidas?
Como autoridade envolve colocação de limites, por que tanta dificuldade em enfrentarem o lado positivo do impulso agressivo. Ele é o que mobiliza o agir e a delimitação de fronteiras entre o "mim" e o "outro"? Por que não se propõem a direcionar melhor seu potencial agressivo, em vez de o negarem?
Nesse sentido, como pano de fundo das crises, acrescento a "crise de identidade como ser humano", visível na falta de sentido para a própria vida humana.
Achei muito interessante a abordagem de Arendt sobre esse tema. Lembrou-me muito da forma de abordagem socrática. Realça a dificuldade em definir autoridade ou conceitos abstratos pela falta de distinção entre muitos deles e enfatiza o que isso representa em termos de uma análise retrospectiva da História. "Distinções tendem a ser negligenciadas quando falamos demasiado indiscriminadamente da crise de nossa época": "a autoridade e seu problema afim, a liberdade, que desde o século XIX têm sido tratadas no âmbito de Política por escritores sejam conservadores, sejam liberais."
De acordo com sua perspectiva, nos aproxima da visão platônica de obediência voluntária advinda da meritocracia. O reconhecimento e aceitação da autoridade do outro por seu mérito e conquistas é o que possibilita estabelecer esse elo de relação pacifica, sem inveja ou submissão humilhante. Em suas reflexões sobre autoridade, realça alguns ítens:
- A autoridade é uma relação onde um é que manda e o outro obedece, mas a liberdade de cada um é preservada. Sempre exige obediência, daí ser confundida com alguma forma de poder ou violência. Contudo, ela exclui a utilização de meios externos de coerção. Onde a força (e não é só física) é usada, a autoridade em si mesmo fracassou. Portanto, ela se contrapõe à coerção pela força.
- A autoridade é incompatível com a persuasão. Persuasão pressupõe igualdade, e opera mediante um processo de argumentação. E onde se utilizam argumentos, a autoridade é colocada em suspenso. Portanto, ela se contrapõe à persuasão através de argumentos, onde se busca impor algo ao outro.
- A autoridade pressupõe uma ordem hierárquica. O direito e a legitimidade dessa hierarquia é reconhecida por ambas as partes, pois é o que lhes permite seu lugar estável predeterminado. Esse ponto, para Arendt, é de importância histórica para a compreensão do quadro de insegurança e desamparo humano no mundo atual.
" A perda de autoridade é meramente a fase final decisiva de um processo, que durante séculos, solapou a religião e a tradição. Dentre elas, a autoridade se mostrou o elemento mais estável."
- a perda da tradição no mundo moderno ( o que é inegável) não acarreta uma perda do passado. Tradição e passado não são a mesma coisa.
- sem uma tradição ancorada, toda a dimensão do passado foi também posta em perigo: a ameaça do esquecimento, a perda de conteúdos humanos, a falta do que recordar e memorizar, e com isso a privação de uma dimensão da existência humana.
- algo análogo ocorre com a perda de religião.
- a perda de religião não implica necessariamente em uma crise de fé, pois, religião e fé, crença e fé, não são de modo algum a mesma coisa.
- somente a crença possui uma inerente afinidade com a dúvida, e é constantemente exposta a ela.
- a fé , atitude interna, também é ameaçada, mas se mantém.
- os dogmas e suas diversas operacionalizações pelas "religiões institucionais" são questionados, e abalam crenças. Portanto não se pode negar que as ameaças advém de crise na religião institucional, e não na atitude religiosa ou na religião em si mesma.
Fazendo um parêntese nessas associações e articulações, fiquei espantada de assistir ontem a uma entrevista na qual a "religião" foi apontada, por um formador de opinião e de seguidores na sua fé, como o "grande mal" de nossa civilização. Uma briga de poder entre duas emissoras televisivas, e respectivos desdobramentos políticos e religiosos, procurando se embasar em argumentos tão falaciosos. Passam a constituir-se em boa fonte para observarmos como o passado pode ser reescrito, mediante interesses específicos de grandes grupos, que muitas vezes não envolvem o bem-estar coletivo.
Retorno a Arendt: " A atual crise mundial trouxe a perda da permanência e segurança no mundo - que, políticamente, é idêntica à perda de autoridade. Necessariamente, não deveria acarretar a perda da capacidade humana de construir, presevar e cuidar de um mundo, que nos pode sobreviver, e permanecer um lugar adequado à vida, para os que vêm após."
Encerro por aqui com essa assertiva que me soa positiva para o "resgate do humano" que nos é inato, porém com a desagradável sensação ante as indagações:
"Que autoridade podem ter essas autoridades assim instituídas?"
"Por que os Winston Smith ( Orwell, "1984") ainda se permitem serem moldados?"
"Por que ante tanto desenvolvimento tecnológico, se contrapõe tamanho retrocesso humano?"
Encerro expressando, o que acredito seja, um dos grandes perigos da humanidade, através do artigo: "Corpos de robôs, mentes humanas: O futuro das próteses" , de Jaime Prata - de Madri, Espanha . Site:notícias.uol.com.br/midiaglobal/elpaís/2009/08/16/ult581u3428.jhtm
Aurora Gite
(postado dia 17/08/09, às l6:20h)
sábado, 15 de agosto de 2009
E lá vem Hannah Arendt mais uma vez!
Arendt chama nossa atenção para o erro da "engenharia das relações humanas" e sua forma ineficiente de lidar com a "administração das questões humanas". Combate a maneira de "tratar o homem como um ser inteiramente natural, cujo processo de vida pode ser manipulado da mesma maneira que todos os outros processos (artificiais).
Aponta o perigo do mundo atômico em seu agir na natureza, onde "não são mais as ações humanas, mas o mútuo relacionamento que pode mudar e muda historicamente"; onde "o geral confere sentido e significação ao particular". Para ela, " processos invisíveis engolfaram todas as coisas tangíveis e todas as entidades individuais visíveis, degradando-as a funções de um processo global... levando ao desencanto do mundo ou alienação do homem". Nesse sentido, "o processo (abstrato) é que torna por si só significativo o que carregue, adquirindo um monopólio de universalidade e significação".
Nessa moderna maneira de pensar, "nada é significativo em si e por si mesmo, nem mesmo a história e a natureza tomadas cada uma como um todo". E eis o homem atual entregue a um agonizante desamparo e profundo desespero.
Ao mesmo tempo, nos confronta com a oposição entre a prática e a teoria; entre a vida sensível e perecível, envolta pelo "erro e ilusão dos olhos corpóreos", e a verdade permanente, imutável e supra-sensível, cuja compreensão é guiada pelos "olhos do espírito, ouvidos do coração e luz interior da razão". Esses opostos "somente tem sentido e significação em sua oposição" e não por si sós.
A articulação de idéias de Arendt, em sua análise histórica e perspectiva filosófica e política, me fascina e me enche de esperança em um futuro melhor para a humanidade.
Assim segue a autora, em suas reflexões: "É como se Platão estivesse dizendo a Homero que não é a vida das almas incorpóreas, mas sim a vida dos corpos que tem lugar em um mundo inferior; comparada com o céu e o sol, a terra é como o Hades; imagens e sombras são os objetos dos sentidos corpóreos, não o ambiente das almas incorpóreas. O verdadeiro e real é não o mundo em que nos movimentamos e vivemos e do qual temos que partir na morte, mas as idéias vistas e apreendidas pelos olhos da mente. É como se o mundo interior do Hades houvesse ascendido à superfície da terra."
Continua traçando um "paralelo entre as imagens da caverna de Platão, em sua parábola, e o Hades de Homero - os sombrios, irreais e insensíveis movimentos das almas no Hades - que correspondem à ignorância e inconsciência dos corpos na caverna".
Recorda o Mito da Caverna de Platão, onde a cada reviravolta do homem ocorre a perda de sentido e orientação, onde " os olhos ajustados são ofuscados pela luz que ilumina as idéias, necessitando reajustar-se; e os olhos ajustados (posteriormente) à luz do sol, devem reajustar-se à obscuridade da caverna".
Relembra esse mito onde em uma primeira reviravolta os habitantes da caverna, presos por grilhões que os obrigavam a ver somente a tela à sua frente, com as sombras e imagens projetadas, quando deles se libertam e se voltam para o fundo da caverna se deparam com um fogo artificial que ilumina as coisas dentro da caverna tais como realmente são. A segunda está atrelada à saída de caverna para o céu límpido, onde as idéias aparecem como as verdadeiras e eternas essências das coisas na caverna, iluminadas pelo sol, a idéia das idéias, que possibilita ao homem ver e às idéias brilhar. A terceira decorre da necessidade de volver à caverna, de deixar o reino das essências eternas e novamente se mover no reinos das coisas perecíveis e homens mortais.
Assim para Hannah Arendt, os homens socializados decidiram jamais deixar a "caverna" dos assuntos humanos quotidianos, se permitindo a atitude de "espanto face ao que é como é".
Eis porque defendo o espaço para que os "unicórnios" se aproximem e possam se agrupar. Eis porque entrego a vocês como presente uma ampulheta (vide blogs anteriores), outra forma simbólica de representar a caverna, sua saída e posterior entrada buscando propiciar que possam se libertar da condição de escravos e, por livre arbítrio, possam vir a constituir - ao abandonar a sua alienação dentro de um mundo fictício, frágil e superficial por ser tão artificial - uma "sociedade realmente humanizada".
Aurora Gite
( postado às 14.00, sábado, 15 de agosto de 2009)
Eta, lado criança danado! Vale para 13 de setembro, ok?
Válido para 13 de setembro próximo:
"Rememorando os comentários sobre a música e as trocas nas tertúlias fisioterápicas, usando os termos empregados por você há 1 ano, só posso lhe enviar os parabéns pela data de hoje, e pensar em abraços efusivos, como aqueles trocados entre amigos."
Aurora Gite
( postado em 13 de agosto, como vale para 13 de setembro próximo)
P.S. : Minha secretária eletrônica gravou, em sábados, o dedilhar, no piano, de uma escala musical. No início fui tomada de espanto, depois tal feito reviveu dentro de mim o "ping-pong" de idéias da época, trocado por "dois adolescentes que ousaram brincar". Sendo assim, rebato com a força e a grandiosidade de Haydn em sua Sinfonia nº 99, em Mi Bemol Maior.
Quantas sensações me afloraram mediante seus acordes! Minha alma cavalgou, através deles, livre e leve, seguindo a trilha que leva ao virtuoso vale dos unicórnios, na busca de dignidade similar. E me permiti esquecer que o caminho do unicórnio é solitário, e que esse "trilhar só" faz parte do destino da maioria, pois sua linguagem é compreensível a poucos, bem como seus propósitos de vida. Mas se faz presente no mundo uma minoria, presente da vida, não é?
domingo, 9 de agosto de 2009
Remontagem do quebracabeça de uma vida
Novamente me utilizo de dois autores, que aprendi a admirar. Suas idéias se entrelaçam com as minhas, muitas vezes. Nós seres humanos, a nível de vivências e aprendizagem, também podemos nos agrupar em categorias, cujas semelhanças propiciam o encontro de uma linguagem e compreensão comuns. Transmissões orais por outros (tradição) são importantes, mas registros escritos pelos próprios autores, são de uma riqueza infinita. Eu me recordo que, quando li "Zaratustra" de Friedrich Nietzsche e "A Condição Humana" de Hannah Arendt, me senti tão perto deles numa empatia grande por seus sofrimentos ante incompreensões, e lutas, como seres humanos pensantes - livres e independentes - em busca de uma sociedade menos alienada. Agora estou no final de "O Anticristo" de Nietzsche e de "Entre o Passado e o Futuro" de Arendt e sinto, outra vez, minhas idéias e visão de mundo se ampliarem ante as novas perspectivas que apontaram. Tudo escrito há tanto tempo, desconsiderado nas devidas épocas, e envolvendo situações e sensações tão cotidianas, persistentes ainda nos dias de hoje.
Análises históricas perdidas no tempo, mas envolvendo a intrincada rede de interações humanas com suas unicidades e intencionalidades direcionando ações individuais e reações sociais. Ações grupais sob uma perspectiva globalizada e unificada; sem visões parciais e rígidas de "ou são anjos ou são demônios"; sem julgamentos preconceituosos e inflexíveis do tipo "culpado ou inocente"; sem projeções e transferências de aspectos internos inaceitáveis a outros e a situações, pela fragilidade na contenção das próprias angústias e primitividade no uso das próprias funções mentais. E quantos autores, donos da história de sua vida, não carregaram o fardo de estigmas implacáveis, que talvez a amplitude de visão, nova interpretação e compreensão, ante os conhecimentos advindos com o novo milênio, possam aliviar. Como apagar a dor da solidão e da indiferença, da exclusão e da injustiça? A lembrança perdura, suportada pelo reconhecer-se "sobre-humano" ou "super-homem", e ter amor-próprio e admiração pelo "diferente" que se é, em relação aos humanos comuns que nos cercam.
No prefácio de "O Anticristo" Nietzsche assim se posiciona: " Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu "Zaratustra": como eu poderia misturar-me àqueles ( *se reporta aos detentores do poder e mau uso da ideologia do cristianismo e dízimos obtidos) aos quais se presta ouvidos atualmente? - Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.
Assim continua: "As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido - conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas - e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter-se tornado indiferente, nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação - nascida da força - para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo - acumular sua força, seu entusiasmo...Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo." Encerra com: " Muito bem! Apenas esses são os meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados; que importância tem o resto? - O resto é somente a humanidade - É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma, em desprezo..."
Logo nos capítulos iniciais esclarece as idéias contidas nessas últimas afirmações. " ... A idiossincrasia moral-religiosa (é) muito menos inocente, quando se percebe a tendência à destruição da vida." (* Para quem não se recorda o termo "idiossincrasia" quer dizer " maneira própria de ver, sentir, reagir, de cada indivíduo, segundo o dic. Aurélio).
Ante as frases de Nietzsche que transcrevo a seguir, gostaria que, ao lê-las, seguissem internamente as sensações que transmitem, pois aposto que será de alívio e liberdade, leveza pela soltura do fardo de idéias moralmente impostas como verdades. "A compaixão ... instinto depressor e contagioso, opõe-se a todos os instintos que se empenham na preservação e aperfeiçoamento da vida... sua ação depressora e periculosidade contrariam inteiramente a lei de evolução, que é a lei de seleção natural... A humanidade ousou denominar a compaixão uma virtude (- em todo sistema de moral superior ela aparece como uma fraqueza -) ; indo mais adiante, chamaram-na "a" virtude, a origem e o fundamento de todas as outras virtudes." Não está mais perto de uma negação da vida, conforme Nietzsche alerta?
Analisem dentro de vocês se Verdade e Justiça tem a ver com "Compaixão"; se Liberdade e Responsabilidade, Amor-próprio e grandeza de alma, têm a ver com dó, piedade e culpa pelo não compadecimento, ou estão atreladas a uma confiança no livre-arbítrio do outro em tomar decisões mais sábias para si. Será que esses questionamentos não levarão a uma expressão mais autêntica de nosso ser, e a uma colocação de limites (leia-se agressividade) de forma menos impulsiva e culposa?
Cruzo então esses dados, com os que me chegam sob a perspectiva histórica de Arendt. O tema central de seu livro "A Condição Humana" foca o que estamos fazendo com nossas vidas e a compreensão da natureza da sociedade atual. A edição de 2007 equivale à 6ª edição. O original data de 1975. Quanto tempo perdido culminando no caos político e na alienação do homem atual, envolvido em tanta crise decorrente da falta de ética, perversidade e leniência. Será que não podemos unir os sentimentos de Arendt com os de Nietzsche, expressos nos parágrafos iniciais do prefácio de seu "O Anticristo"?
Ao abordar a Era Moderna, ela a situa entre os séculos 17 e 20, e se reporta a alienação atual do Mundo Moderno, uma era nova e desconhecida, decorrente do advento da automação. Na relação do homem com máquinas pensantes, a palavra humana perdeu poder, segundo ela. Podemos também constatar a grande distância entre a intenção e o discurso. E o discurso, com sua faculdade de persuasão e convencimento, com sua retórica, é que faz do homem um ser político, que atua no social, como agente transformador da história. Assim segue :" O que os homens fazem, pensam, ou experimentam só têm sentido (significado) na medida em que pode ser discutido."
Arendt diferencia a "condição humana" da "natureza humana". A primeira engloba "a soma das capacidades humanas em sua forma de "existência humana", produzida pelo próprio homem"; a segunda se reporta à sua "essência humana", levando a um pensamento metafísico. "A condição humana implica em sermos os mesmos sem sermos jamais iguais ao outro."
A complexidade de "ser" e de "existir" continua a ser retratada por ela. Destaques são dados "a singularidade da existência humana versus a pluralidade da espécie humana " e "a complementaridade entre a condição humana e a objetividade do mundo", pois é "pelo impacto da realidade do mundo sobre a existência humana que o homem se torna para si mesmo" .
Imaginem-se dentro da metáfora de Arendt, onde esse encontro "seria como um pular do homem sobre a própria sombra". Podem ter essa cumplicidade com vocês mesmos? Analisem também a repercussão dentro de vocês e a veracidade dessa afirmação: " Homens são seres condicionados (tudo torna-se condição de sua existência, independente do que façam), portanto, a existência humana seria impossível sem essa relação". E eis nossa história sendo montada por nós mesmos. "É o engajamento ativo nas coisas deste mundo que caracterizam os homens de ação, que se utiliza de sua liberdade e seu poder de decisão para delinear sua história de vida, sua condição humana".
É muito interessante, na abordagem sobre a convivência que estrutura a condição humana, seu ponto de vista sobre os problemas da irreversibilidade ( impossibilidade de se desfazer o que se fez, embora não se soubesse, nem se pudesse saber, o que se fazia), e da imprevisibilidade (caótica incerteza sobre o futuro). Arendt coloca como soluções para os mesmos o perdão (com sua capacidade de arrependimento, para desfazer atos do passado) , e a promessa ( contrato mútuo com um vínculo de obrigatoriedade, criando ilhas de segurança no oceano de incerteza do futuro) .
Continua que , no entanto, " Na solidão e no isolamento, o perdão e a promessa não chegam a ter realidade: são, no máximo, um papel que a pessoa encena para si mesma... O código moral inferido das faculdades de perdoar e de prometer, baseia-se em experiências nunca consigo mesmo e sempre na presença dos outros."
Mais uma perspectiva de Arendt para refletirmos: "O curso do pensamento, da recordação e da antecipação ( correspondem a um ) espaço intemporal, e a uma atividade do pensar ( fenômenos mentais onde forças colidem, uma vindo do passado e outra do futuro) - lacuna preenchida pela chamada tradição ( pois as imagens no âmbito do tempo histórico ou biográfico, ocorrem dentro de um movimento temporal e retilinear onde não existem lacunas no tempo). Resposta individual para a pergunta: "Qual é a sua condição humana atual?" Eis uma ajuda para você se situar no seu tempo e no seu espaço.
Encerro realçando a intuição de Franz Kafka, "de que é o futuro que remete a mente do homem de volta ao passado, até a mais remota antiguidade", citação de René Char incluída por Arendt em seu livro. Deixo com vocês a parábola de Kafka: " Ele tem dois adversários: o primeiro acossa-o por trás, da origem. O segundo bloqueia-lhe o caminho à frente. Ele luta com ambos. Na verdade, o primeiro ajuda-o na luta contra o segundo, pois que empurrá-lo para frente, e, do mesmo modo, o segundo o auxilia na luta contra o primeiro, uma vez que o empurra para trás. Mas isso é assim teoricamente. Pois não há ali apenas os dois adversários, mas também ele mesmo, que é quem sabe realmente de suas intenções?.. na escuridão do sonho, num momento imprevisto... "saltar fora da linha de combate e ser alçado, por conta de sua experiência de luta, à posição de juiz sobre os adversários que lutam entre si".
Agora é com vocês,
Aurora Gite
(postado às l4:59 com um Feliz Dia dos Pais para alguns leitores)
domingo, 19 de julho de 2009
Esclarecimento e agradecimento
*Não, no momento, não estou clinicando, nem dando supervisão. Estou focada em meu livro. Você sabia que no HBO e HBO2 (reprise) , de segunda a sexta, às 9:oo horas, tem um programa chamado "In Treatment" , ou seja, "Em Terapia"? Ele aborda sessões psicoterapêuticas e mesmo sessões de supervisão. Muito interessante para um público específico.
*Sim, tenho documentação de tudo que escrevo.
*Não sou contra a Psicanálise, muito pelo contrário. Podemos nos estender a respeito, se interessar a você.
Sou contra a disputa pelo poder e defesa de uma "verdade absoluta", entre vários elementos que abraçaram a teoria freudiana, entre defensores de novas leituras feitas por seus seguidores, e mesmo entre desertores com seus novos focos teóricos sobre o funcionamento do mundo psíquico. Meu foco sempre foi mantido sobre o ser humano de uma forma humanista e holística. Qualquer compreensão verdadeira sobre ele pode ser abarcada, se mudar minha perspectiva. A lógica da linha teórica tem que bater com o fenômeno real observado, dentro desse referencial.
Um projeto meu na área clínica, de 1999 - observe a época - já envolvia a metapsicologia freudiana dentro de uma perspectiva científica. Ainda atualizo a temática, ante cada nova descoberta, envolvendo o funcionamento humano. E não foram poucas nessa década... Revendo a obra de Freud, não era o futuro de uma psicologia científica, o que almejava ?
Tema: Retorno a uma Psicologia Científica
Objetivo Principal: Estabelecer, através da Biofísica, a ponte de ligação entre a Medicina (energia bioquímica) e a Psicologia (energia psíquica), considerando os conhecimentos advindos dos avanços da Física Quântica e da Bioquímica Molecular, e das novas descobertas tecnológicas que ampliaram o campo revelador dos diagnósticos por imagem.
*Não, não me incomodo de passar o tema de alguns projetos, ou mesmo trocar idéias a respeito.
Esse compartilhar idéias faz parte do agregar forças e do somar conhecimentos. Minha curiosidade é inata. Conhecimento para mim é como alimento, sinto falta e estou sempre buscando novas fontes e diferentes áreas. Quando pequena, era chamada por pais e professores de a menina dos "Por que?". Até que me orgulhava do apelido.
Quem estimula seu potencial inovador, vai poder contar com essa fonte criativa, quando precisar. Mais ainda, vai ter disponibilidade e envolvimento necessários para querer concretizar seus projetos, pois sabe de sua importância e como torná-los eficazes. Essa postura é bem diferente daquele que se utiliza desse conhecimento e que logo vai engavetá-lo, após prover seu interesse pessoal promocional.
*Sim, também tenho formação em organizacional. Alguns colegas preferiram não estender seus estágios para a área organizacional e escolar. Optaram pela área clínica. Muitos não se interessaram nem pela obtenção da licenciatura. Consegui abarcar essas áreas.
Isso faz com que caiam por terra as colocações que como profissional da área clínica não entenderia do campo organizacional. Muito pelo contrário, me possibilitou uma maior abrangência de visão e melhor compreensão da dinâmica dos envolvidos, variável que tornou a minha pessoa ameaçadora. Intencionalmente, não me refiro a questionamentos profissionais sobre minha função, pois muitas reações eram imaturas mesmo, levadas para nível interpessoal. Sendo assim, comparações e tentativas de desqualificação eram em doses maciças e constantes.
*Sim, após perceber as alianças entre assessores que se sentiram ameaçados, que chegavam até mim e pediam abertamente para que não os fizesse perder o cargo, que passaram a se agrupar e me excluir das reuniões e desviar informações, bloqueando meu contato com diretores, eu percebi que teria poucos recursos para lidar com a dificuldade de formar parcerias.
*Passei a protocolar tudo que enviava. Em minha saída, busquei via oficial uma resposta sobre o ocorrido, mas nenhum retorno me foi enviado.
Mas não fiquei triste. Teria que me violentar muito, éticamente falando, se ali permanecesse. Eu escolhi que não merecia ser tratada assim, por mim e pelos outros. E continuo, de cabeça erguida, me respeitando no meu trajeto de vida.
Na área organizacional, datando de 2003, e elaboradas mediante o diagnóstico do quadro deficitário, várias propostas foram apresentadas. Muitos programas visaram a otimização de recursos em geral, desde os humanos, passando pelo mau uso das informações, até atingir o desperdício de idéias, de materiais diversos e de funções operacionais.
*Não. A maior parte dos projetos não chegou aos diretores. Alguns foram entregues bem depois e após o aproveitamento de algumas idéias neles contidas. Sempre fui cumprimentada pelos projetos. Aliás, na construção deles levei em consideração o perfil dos diretores, desde os portadores de caráter ousado e empreendedor, até os de caráter conservador que teriam que ter um tempo maior de assimilação. Mudanças de gestão como ocorreram na passagem do milênio envolvem alterações estruturais e delas não se pode fugir ou tentar evitar; envolvem políticas de inclusão de novos elementos e de novos conhecimentos e, nesse sentido, as equipes não podem se fechar a essas entradas com justificativas de "Em time, que está ganhando, não se mexe". Essas posturas e visões são retrógradas. Com o tempo, tal assertiva cai por terra.
*Os programas que me orgulhei de apresentar e que, a meu ver, abrangiam as defasagens da época - e ainda atuais - foram a "Gestão do Desperdício" e a "Otimização de Follow-up Operacional", pois trazem consigo credibilidade e confiabilidade, sem as quais fica difícil a obtenção de uma coesão participativa produtiva.
Projetos propostos, quebrando paradigmas da gestão tradicional e engavetados na minha época: "Descentralização Supervisionada"; "Formação de Equipe de Projetos Desenvolvimentistas"; criação de um "Centro de Integração e Planejamento Estratégico"; "Trabalho em Equipe focado em Endomarketing" , "Otimização na Captação de Sugestões" , logo seguido do "Captação e Gestão de Feedback" buscando cercar possíveis e prováveis engavetamentos.
Respeitando minha forma clínica de raciocinar, todas minhas propostas estavam entrelaçados intencionalmente. Não surgiram ao acaso, nem na base do ensaio erro e acerto. Foram construídas analisando tendências e probabilidades. Verifiquei que, no geral, afunilavam ou convergiam para a "Gestão do Desperdício". Sendo assim, o fortalecimento desse setor - que me parece ser um núcleo central -e sua transparente fiscalização administrativa, poderia ser uma forma de combater medidas anti-éticas, ou a popular atitude da "puxada de tapete profissional".
*Podem continuar me mandando e-mail. Tento responder e sempre que possível atender o que me pedem. Ou se preferirem escrevam em comentários, que excluo após lê-los.
Gosto dessa troca. Mesmo com críticas, se não puder com argumentos esclarecer e fazê-los mudar de opinião, reflito. Sempre me são oportunidade de crescimento e, em alguns casos, de aprendizagem.
Nesse sentido, também agradeço. Obrigada.
Aurora Gite
- P.S. Infelizmente, creio que o último episódio da série "Em Terapia" ocorreu em 17/07/09. Interromperam sem nenhum aviso. De minha parte, espero breve retorno da série. Valeu a pena, para mim, tê-la assistido. ( P.S. - Postado em 23/07/09 )
Ainda Andrea e sua forma de se comunicar
Sabe que, de vez em quando, a gente tem nossas brigas, mas quem não tem !?!
Siga as pistas para fazermos as pazes:
01- Preciso lhe dizer uma coisa (olhe 5)
02- Não se aborreça (olhe 11)
03- Você fica um amorzinho zangada (olhe 6)
04- Tenha paciência (olhe 8)
05- É algo muito importante (olhe 10)
06- Bem, chega de suspense (olhe 9)
07- Psiu! Olha... me escuta ... eu... Eu te amo!!!
08- Não sei como... não... não tenho... (olhe 15)
09- Não tenho coragem, não adianta (olhe 12)
10- Primeiro consulte o coração (olhe 2)
11- Bem agora é o seguinte (olhe 4)
12- Puxa, é difícil, não vou dizer (olhe14)
13- Já você saberá (olhe 3)
14- Agora sim, me leve a sério e preste atenção (olhe 7)
15- Tenha paciência, que eu tenho que pensar como lhe dizer (olhe 13)
Sampa, 11 de maio*
Andréa
(14 anos então)
Aurora Gite