quinta-feira, 8 de março de 2012

O tédio: perda temporária do sujeito desejante

Considero o tédio a perda temporária do sujeito desejante que é quem envolve nosso ser psíquico no interesse por buscas prazerosas, visando algo que preenche uma falta, e o alcance de autorrealizações que nos satisfaçam e dêem sentido à nossa vida.

A dor psíquica da angústia do tédio, para muitos, vem num crescente. Por ser uma angústia livre de objeto é de difícil controle. A Gestalt com suas fantasias nos permite tomar consciência dessa dinâmica interna, possibilita contato com os sofrimentos psíquicos, sem afastá-los ou deles fugir camuflando a dor psíquica, ou ainda negar a sua existência numa brincadeira de "faz de conta que não é comigo que está ocorrendo".

Algumas pessoas, que tiveram uma infância convivendo com interações mais aconchegantes e respeitosas, estruturantes de uma personalidade mais autocentrada, constituíram uma maneira de ser mais saudável. Puderam defender e ocupar seus espaços como sujeitos desejantes, sem terem sido colocadas no lugar de realizadores do desejo do outro. para que ele se sentisse mais aliviado ou mais "feliz", afirmação que constitui um ledo engano.

Como se comunicar por conceitos pode se constituir em fonte de confusão, torna-se importante diferenciar a personalidade autocentrada que se constitui em centro de autorrefêrencia para o ser psíquico mais amadurecido, da maneira de ser autocentralizadora da condição de sujeito na postura narcísica. O narcisista se destaca por se coloca como centro de referência de perfeição e acertos, a ser reverenciado por outras pessoas, que devem girar ao redor de seu desejo e opiniões, de sua vaidade e orgulho. Arrogantes e desrespeitosos, não se apercebem do valor das diferenças humanas na pequenez do cenário onde observam unicamente sua imagem grandiosa refletida.

Nossa sociedade ainda cultiva um pensar voltado à razão concreta e padronizada, e incentiva uma disciplina pessoal mais rígida e criteriosa voltada a ordem e passividade da massa social. Empreendedorismo, criatividade, inovação, são muito estimulados desde que mantenham o "status quo" de quem usufrue de privilégios. Nessa categoria incluo os pais e familiares educadores.

Não causa pois espanto, a constatação de como tem se alastrado a sensação tediosa, o desinteresse necrosante do imaginário sonhador.

Impera o sentir-se perdido se tiver que usar o raciocínio abstrato, a imaginação e a criatividade, para permitir a eclosão do tesão de um desejo por um objeto, que permita nomear a falta causadora da angústia. Predomina a impotência e sentir-se enfraquecido por ter que suportar a enorme pressão da energia psíquica em processo de combustão pela antevisão alucinatória de um sonho ou do provável ganho prazeroso. Como conviver com o fracasso e a frustração, e voltar a estimular a vontade, em sua força enfraquecida, para voltar a expressar a singularidade de um desejo, enfatizando que ele é sempre pessoal e intransferível?

Desejo representa uma falta. E essa falta é única para cada ser humano. Não há educador que consiga fazer prevalecer na economia psíquica um mercado baseado em trocas de desejos: ofertas, advindas unicamente do mundo exterior, nunca vão conseguir suprir a prioridade de uma demanda pessoal. A via da frustração não aceita devoluções gratuitas. E toda reposição tem um preço psíquico. O importante é buscar o equilíbrio entre custos e benefícios posteriores.

Uma criança, ou um adulto imaturo emocionalmente, não tem condição de cruzar esses dados e processá-los mais harmoniosamente. A situação mais fácil é se colocar na dependência dos "cuidadores do pensar e melhor direcionar o desejo alheio". Ah, não tem condições de avaliar que a conta vai para o balancete econômico da energia psíquica do suposto "sujeito desejante"!

Pensem nisso ao calar a boca de uma criança que tenta expressar o que quer, ou o que tem vontade de ter. Querer não implica que se vá ter. Mas a preservação dessa capacidade é estruturante para a construção de uma personalidade forte e autocentrada, dona de si e boa gerenciadora de seus desejos. No administrar seu querer, como sujeito desejante, a criança vai ter que lidar a "satisfação de ter o que almeja", ou conviver com a "frustração do não ter o que quer" e tolerar o desconforto de continuar com a falta, postergar a obtenção desse prazer ou substituí-lo, se for importante para conseguir um estado interno de bem-estar. Esses são os passos para se conseguir o crescimento emocional.

A educação atual exibe uma dupla fachada, por um lado a de estar voltada para a formação ética de uma criança feliz, livre e empreendedora, e por outro a de ocultar a ação de mantê-la como humano robotizado e impotente dentro dessa sociedade amoral e violenta. Os curriculos institucionais e as interações familiares ainda buscam, em suas essências, adaptar as crianças aos "padrões sociais do certo e errado", "do seja bonzinho (ou boazinha) para ser aceito (a) e amado (a)".

Mais ainda e isso me preocupa muito, de maneira perversa, até pela não tomada de consciência sobre tal mecanismo repressor, por meio do qual incutem a culpa na criança, indefesa - pela fragilidade de seu aparelho psíquico operacionalizar sua angústia - em sua função de preservar a integração de seu mundo interno do maciço bombardeio desetruturante proveniente do mundo externo que a cerca, se houver , qualquer tentativa que seja, de se manifestar como pessoa que pensa e sente diferente dos educadores.

Esses exercem suas funções de cuidadores de forma ambivalente, ou seja, protetora e ameaçadora (gosto de você se...) . "Sorridentes castigam por amor", com rejeição, isolamento e constante ameaça de retirada de afeto, as crianças que ousam uma atitude reacional, considerada como confronto pessoal rebelde, contra as regras de condutas estipuladas por um social insalubre, sob o prisma da saúde mental.

O que mais me penaliza é observar como tantas crianças tentam ainda lutar por seu existir singular e por expressar sua autenticidade como indivíduos, sem serem "escutadas" nesse grito de socorro, visando a soberania de seu mundo psicológico.

O tédio pela vida é, a meu ver, um dos indícios angustiantes desse auto-abandono. Por mais que se tenha conquistado determinada autosuficiência, ele vai ser o preço dos anos de dependência psíquica com outras pessoas pensando pela criança, escolhendo o que é melhor para ela, desejando por ela, ou - o que é pior - estendendo seu desejo ao mundo psíquico dessa criança que passa a ter grandes dificuldades futuras até em dar sentido à sua vida, à sua liberdade.

Seus momentos felizes são, na maioria da vezes, sempre permeados pelo medo de perdas e até de ganhos. São assolados pelo medo do tédio no amar, pois sem ousar inovar para combater a mesmice e o desinteresse claudicante nas relações cotidianas e aprender a tolerar e conviver pacificamente com a instabilidade imprevisível da interação consigo mesmo, como se sentir seguro para a entrega amorosa?

Qualquer desvio é sentido como desintegrador. É preferível conservar-se sob rédeas curtas. assim é fácil, mantendo a disciplina, se organizar internamente, e não sentir a angústia que explode se tomar consciência do movimento de forças que mobilizam a energia em seu mundo interno.

Nosso psíquico se mantém vivo graças às colisões de oportunidades e possibilidades, de decisões incertas e contínuos processos de escolhas. Sendo assim, a educação desse milênio, não pode se voltar mais para modelagens de maneiras de ser, enclausuramento de potencialidades empreendedoras e inovadoras em quartos escuros mentais, cárcere privado do ser psíquico, que pode se tornar prisão perpétua conforme as circunstâncias da vida.

Muitos adultos vão ter que se resgatar e abrir seu espaço, mesmo com tanta defasagem pela formação insegura ante o desafeto que vivenciaram; vão ter que aprender a lidar com seus medos e receios de correr riscos; vão ter que enfrentar suas fobias sociais e angústias de exposição e críticas. O desafeto é como se fosse um veneno psíquico que contamina direto o senso crítico, já que a autocrítica rebaixada assim enraizada por anos é também distorcida no adulto que se defronta com a impossibilidade de buscar comprovações de autorrealizações com base na realidade, postura necessária para o fortalecimento da autoestima, valorização e alcance da maturidade emocional.

Para melhor propiciar a tomada de consciência de si mesmo, o contato com seu sentir e a coragem de se posicionar perante a vida, por mais marcas que possa trazer da infância, indico os experimentos de crescimento em gestalt-terapia contidos no livro "Tornar-se presente" de John O. Stevens, da Summus Editorial.

"Baseados em Gestalt-Terapia, e originalmente criados como parte da formação clínica de estudantes de psicologia, estes experimentos percorrem as principais áreas de funcionamento da personalidade em contato consigo mesma, com os outros, com o meio ambiente e com a corporeidade."

Transcrevo uma das vivências desse livro para ser experienciada como exemplo da ação desse instrumento. Através dele posso trabalhar o tédio, o desapego ao velho já conhecido e o se aventurar ao interesse pelo novo. É o encontro com o sujeito desejante que irá destronar a angústia do tédio.

Muitos preferem acionar as imagens em sua tela mental com os olhos fechados. Em algumas outras fantasias, existe essa necessidade para melhor focalização interna.
Direcione a história bem lentamente, dando tempo para que a imagem seja criada e observada detalhadamente, bem como o ouvinte (ou você mesmo) possa seguir o que ocorre em seu sentir nesse momento, tornando-se realmente presente em sua fantasia.
Na dinâmica, as imagens se movimentam por si, e muitas vezes, os cenários, que são montados mentalmente, surpreendem mesmo. Percebam o esforço que dispendem e tentem compreender o que significa em termos de resistência. O autêntico não demanda esforço para se expressar, faz parte de nossa psique em liberdade.

O livro de Stevens traz várias fantasias que podem ser adaptadas conforme o interesse pessoal e o foco das angústias ou do crescimento interno que se quer tomar consciência para melhor mobilizar a vontade de se transformar: desmontar velhas maneiras de ser e erigir novas formas de se posicionar perante a vida.

Ante o sofrimento pelo tédio, que tal se aventurar a caminhar comigo rumo à loja abandonada, depois à loja de trocas, para em seguida tornar-se você mesmo sem o tédio, e aprendendo a lidar futuramente com ele, quando se aproximar outra vez ( porque isso vai ocorrer, se fizer parte da formação estrutural de sua personalidade) ?

No caso dessa fantasia, o próprio autor escreve:
"Uma fantasia como esta, com uma cidade, é particularmente boa se se estiver num lugar onde haja ruídos de tráfego, etc. Estes ruídos perturbariam ou se introduziriam em algumas fantasias, mas a esta apenas acrescentarão algo, uma vez que são apropriados a uma cidade, e tornar-se-ão parte da experiência da fantasia, sem perturbá-la." (p.203)


Loja Abandonada e Loja de Trocas (p.202)


"Quero que você imagine que está andando pela cidade, à noite, na chuva. Você está bem agasalhado, e pode ver as luzes da cidade refletidas nas ruas molhadas. ... Ande por algum tempo e explore a sua cidade. ... O que você vê?... Como é a sua cidade?... O que acontece nela?... Como se sente ao andar nesta cidade?...

Logo adiante há uma ruela deserta. Caminhe por esta ruela e logo verá uma velha loja abandonada. ... A vitrine da frente está suja e salpicada pela chuva, mas olhando de perto você verá umas formas opacas atrás dela. ... O que foi abandonado nesta vitrina?... Chegue mais perto e tente ver o que há ali. ... Esfregue um pouco o vidro, de forma que possa ver mais claramente. ... Examine esta coisa mais de perto. ... Como é ela? ... Observe todos os detalhes. ...

Agora torne-se esta coisa abandonada dentro da loja. Como é a sua existência sendo este objeto abandonado? ... Poe que foi largado ali? ... E como se sente? ... Entre mais na experiência de ser esta coisa abandonada. ...

Agora torne-se você mesmo e olhe cuidadosamente a coisa abandonada na vitrina. ...Você observa algo que não tinha observado antes? ... Lentamente diga adeus a esta vitrina e ao que se encontra nela, e continue a andar pelas ruas da cidade. ... Continue explorando a sua cidade por algum tempo. ...

Mais adiante há outra ruela estranha. Ao caminhar por ela, você vê uma vitrina com uma variedade incrível de coisas: coisas novas, velhas, e muito antigas. Algumas não valem nada, outras são tesouros, e você nunca esperaria encontrar todas elas na mesma vitrina. ... Enquanto está parado aí fora, olhando as coisas da vitrina, um velhinho sai e o convida a entrar. Ele diz que esta não é uma loja comum. Dentro desta loja, aparentemente pequena, existe tudo que há no mundo. Qualquer um que encontre o caminho da loja, pode escolher algo e levar consigo. Você só pode levar uma coisa. Não pode pegar dinheiro e nem vender aquilo que pegar. Fora isso, você pode pegar qualquer coisa da loja. Demore algum tempo para olhar a loja e ver o que há nela. Há todos os tipos de cantinhos e quartos laterais, cheios de coisas que você gostaria de ter. ... Eventualmente você terá que decidir qual destas muitas coisas você quer levar consigo. ...

Quando você tiver decidido o que levar, dedique algum tempo para conhecer melhor esta coisa. ... Olhe para ela cuidadosamente e observe todos os seus detalhes. ... Toque-a com as mãos. ... manuseie, cheire. ... Como se sente em relação a esta coisa? ...

Quando você está saindo com a coisa escolhida, o lojista fala de novo com você e diz: "Você pode ficar com isto, como lhe disse antes. Existe apenas uma condição: você precisa me dar algo em troca. Pode ser qualquer coisa que tiver, e você não precisa estar com ela agora, mas tem que me dar algo em troca daquilo que pegou". O que você dará ao velho?... Demore algum tempo para se decidir. .. Agora diga ao velho o que dará a ele. ...

Saia pela porta e dê uma última olhada para a cidade. ... Lentamente diga adeus a ela. ... Agora volte a esta sala e traga consigo aquilo que decidiu pegar na loja. ...

Agora torne-se esta coisa que você encontrou na loja. ... Sendo esta coisa, como você é? ... Quais são as suas características? ... Como é a sua vida? ... O que se passa com você? ... Qual é a sua função ou sua utilidade? ... Tente entrar realmente nos detalhes da experiência de ser este objeto. ...

Agora torne-se você mesmo de novo e olhe mais uma vez para o objeto. ... Veja se consegue descobrir mais sobre ele. ... Você o compreende melhor agora? ... Vagarosamente diga adeus ao objeto e coloque-o em algum lugar da memória ... e agora descanse por algum tempo. ..."

No livro citado tem muitas outras fantasias.
Eis um treino válido: escolham o instrumento, conforme a necessidade observada em seus mundos internos, ou de seus pacientes.

Aurora Gite

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Da solidão à sensação de "dualidão"

Acredito que essa sensação da transformação da solidão em "dualidão", descrita por Nietzsche para significar seu contato com os conhecimentos adquiridos por Spinoza e a observância de semelhança em seus percursos e nas repercussões de suas posições. São esses encontrões intemporais com proximidade entre idéias e posturas de pensadores distanciados até por séculos, que fortalecem, a meu ver, os elos de pertencermos a uma mesma humanidade.

Em nova mesa redonda, por mim organizada,já estão acomodados alguns convidados trazendo em seus currículos suas idéias inovadoras. Vídeos com suas palestras podem ser encontrados disponíveis no YouTube, a quem se interessar em melhor compreender o processo energético do ser humano.

Uma apresentação concisa de seus componentes, por já tê-los citado anteriormente:
*A neuroanatomista Dra.Jill Bolte Taylor, que conseguiu se recuperar de um difícil quadro de AVC (acidente vascular cerebral) e como cientista além de relatar em livro, o passo a passo de suas experiências, se dispôs a realizar palestras para divulgar suas descobertas comprovadas científicamente;

*O professor de física Laércio B. Fonseca, que em sua aula sobre Física Quântica e Espiritualidade nos confronta com suas idéias pioneiras e nos permite acompanhar seus argumentos dentro de uma logicidade que nos remete obrigatoriamente a adentrar um labirinto de reflexões. Confesso que a maioria de suas constatações acompanho, mas algumas estão muito além de minha compreensão no momento... mas estou aberta a elas. No penúltimo vídeo da série que contém essa aula, expõe propostas inovadoras sobre "partículas e ondas fazerem parte do mesmo campo a que chamamos de consciência", que valem a pena ser consideradas com atenção especial;

*Representantes da Gestalt-Terapia, como Fritz Perls e Barry Stevens com sua busca de novas maneiras de enfrentar a vida e entrar em contato com a força e originalidade de sua criação. Muito me atrai os recursos terapêuticos usados em seu desafio de focalizar a tomada de consciência. Muitos utilizei, com bons resultados, tanto em atendimentos individuais quanto grupais;

*Jung com suas descobertas sobre energia psíquica e representantes da bioenergética e da psicologia transpessoal persistem em seus postos;

*Entre os filósofos também persiste Nietzsche e convido Spinoza;

*Conclamo a presença de Krishnamurti cujas idéias, nessa mesa, terão espaço para serem realmente escutadas e assimiladas em comunhão por todos os demais, já capacitados para esvaziar suas mentes dos condicionamentos, conhecimentos passados acumulados e da influência profunda de toda forma de poder: preconceitos, tradições, religiões fragmentárias, autoridades psicológicas que aprisionam o ser e o impedem de atingir sua liberdade interior.

Sobre Krishnamurti me estendo um pouco mais, por ser a primeira vez que o cito como participante ativo, difundindo o conteúdo de suas idéias através de inúmeras palestras e livros - de grande valia para minhas pesquisas atuais.

Jiddu Krishnamurti (1895-1986) realça que o maior inimigo do homem se concentra no tempo psicológico e que urge a necessidade de sua eliminação, para que a verdadeira liberdade interna seja alcançada, e seja barrada a fragmentação destrutiva das sociedades, formadas por homens perdidos em sua desumanidade.

Krishnamurti tem total consciência de sua diferenciação da maioria, onde muitos enquadram suas idéias inovadoras na categoria da loucura. No entanto, confirma seu fortalecimento na verdade alcançada e, em sua firme postura autocentrada, continua na defesa do homem. Sua proposta é que, para que mudanças reais e imediatas ocorram, o homem precisa se abrir para a escuta atenta de sua intuição - percepção imediata - onde não se observa a participação da mente e da memória condicionadora, que o aprisiona e o molda a padrões externos já estabelecidos. Coloca como decorrentes da mesma movimentação energética a percepção imediata, a visão intuitiva, o amor e a compaixão: daí advém, segundo ele, a energia saudável e a força necessária para a construção da humanidade no lugar das sociedades, ditas civilizadas, que formamos no mundo atual.

Em suas conferências e palestras (vídeos no YouTube) destaca a importância dessa visão intuitiva para a humanidade, que se deteriora ante tantas guerras e justificativas, que são mais distorções racionais para a exposição de todas sua violência e desagregação como ser humano. Sua investigação recai sobre a causa do homem enganar a si mesmo e permitir que sua própria mente o aprisione na corrente de ilusões que ela criou ao redor dele. Mesmo não se sentindo bem, desamparado e perdido nesse quadro social, prefere ficar no mesmo lugar, fato incompreensível, se analisado sob os holofotes da lógica da razão. Aponta, ainda, para o perigo da ilusão do "buscar a transformação", que considera mais uma fuga do que um atuar visando um mudança de postura interna. Coloca que a armadilha, aí contida, é pelo fato das expectativas dos homens se basearem em conhecimentos atrelados ao "tempo psicológico" de pensamentos, referenciados pela imaginação do passado ou de um futuro. Sem a referência prática a possíveis alterações do agir no "presente", único tempo real, paralisam o homem e o impedem de alcançar o estado de espírito interior e a verdade de sua existência e essência.

Krishnamurti se empenhou, durante sua vida, a divulgar suas idéias sobre a necessidade do homem adotar uma nova forma de agir para mudar o quadro de destruição que o cerca. Em seu processo investigativo é constante seu questionamento sobre o porquê do homem, que se intitula racional, agir de forma tão irracional - reconhecendo sua irracionalidade - e persistir no ambiente deteriorado, que sua própria mente insana criou.

Seus livros reúnem as conferências e palestras por ele proferidas. São transcritos em forma de indagações e busca de respostas normalmente em diálogos. "Uma Nova Maneira de Agir" data de 1964, mas traz os problemas e questões atuais, de forma que causa surpresa observar a mesma moldura destrutiva ser mantida e a dificuldade do homem "escutar"a si e à natureza do universo cósmico, e utilizar sua "visão intuitiva"- percepção que o conduz ao esvaziamento da mente da energia pensamento, e à aproximação solitária do vazio silencioso de um espaço interior, pleno de outro tipo de energia, verdadeira força interna a conduzi-lo a ser livre e a um estado de espírito sereno.

Os que contém seus diálogos com o físico quântico David Bohm, abordando o sistema energético intrínseco ao ser humano e o movimento da energia pensamento, são muito instigantes - ainda mais se considerarmos as décadas em que ocorreram.

Agora é vocês conferirem!
E para quem for da área de saúde mental,considero importante o estabelecimento de conexões com as qualidades dos vínculos estabelecidos com seus pacientes, em qualquer modalidade de terapia, e a escolha dos recursos terapêuticos a serem empregados.

Ops! E não esqueçam de revalidarem teorias reducionistas, que ainda buscam enquadrar o paciente visando resgatar um passado e chegar a uma qualidade de vida padronizada pela sociedade vigente.

O foco é propiciar ao homem social, hoje em dia cada vez mais indiferente e perdido em si mesmo, que se aprisionou e se violentou, liberar "com urgência" seu lado humano sensível e racional, íntegro e harmônico, livre e sereno.

Epa! Esqueçam o "com urgência", hábito ou ação já automatizada, ou robotizada se preferirem um termo mais atual. Seu uso inadvertido serviu para exemplificar como nos condicionamos a agir sem pensar, nos deixando levar, sem refletir, dentro da imposição do enquadramento do "relógio do tempo psicológico", que "nós mesmos inventamos para nos enjaular"!

Aurora Gite

P.S. : Já visitaram www.ameporto.org ?
Não é para se espantarem, mas o site é da Associação Médica do Porto (Portugal) e artigos científicos de ponta registrando últimos experimentos com o uso de neuroimagens funcionais.

Destaco ainda os vídeos do Prof. Dr. Decio Iantoli Jr disponíveis no YouTube. acesso pelo Google. Ou assistam a um deles, que indico com prazer, em: www.youtu.be/aRHzsq6KgMc

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Nova perspectiva: novo prisma sobre a humanidade

Duas inquietações me mobilizaram a mudar de perspectiva, ampliando assim o prisma de minha observação do mundo e das relações humanas... e das formas de psicoterapias o que é pauta de futuro blog a elas mais direcionado.

A primeira inquietação envolve a enorme abertura dada pelos representantes oficiais da Psicanálise à entrada de vários profissionais, muitos dos quais com vasto campo teórico e mínimo campo prático no que diz respeito a sua própria formação pessoal como psicanalista, colocando em perigo a complexa relação analista-analisando com seu intrincado mundo transferencial representando um viés interpretativo, um caminho sem volta na realidade concreta do paciente em análise.


No contato com defensores da Psicanálise me advinha a mesma sensação: como estavam tão acima, seu foco recaia na fortaleza teórica freudiana, e não demonstravam preocupação com qualquer infiltração que pudesse abalar suas bases, nem com o fato de que os indivíduos estavam mais e mais infelizes, e que as sociedades mais estavam totalitárias e opressoras. Nesse sentido, o quadro vivencial do ser humano pouco mudou. E isso é fato!

A segunda foi despertada pela inovação terapêutica advinda da Filosofia Clínica. Entendo filosofia como amor à sabedoria, amor à verdade. Para mim o próprio viver psíquico deveria inspirar e expirar o ar renovador e unificador desse amor. A humanidade em si  deveria ser fortalecida em sua "integração pela convivência amorosa".


É importante ter sempre em mente que o amor implica um cuidar prazeroso. Isso leva a um convívio agradável e sereno, tipo de relação baseada em paz, união, construção mas atualmente cultivada por tão poucos! A maioria se vê assolada por seus conflitos psíquicos.  Deixando de estabelecer uma relação amorosa harmônica consigo mesmo, como expandir sua capacidade de amar?


No que residiria, então, uma clínica filosófica?
Como haver uma investigação filosófica, ligando a existência humana à sua essência, sem esbarrar intrusivamente na clínica psicológica, entrando em choque frontal com a base ética dos limites humanos, não só formais mas virtuosos, a serem respeitados?
Como imaginar o uso da Filosofia abalando o pilar transparente da Justiça, como "bem maior" em suas regras de convivência adequada?
Como vislumbrar a não observância, por parte dos que se dizem filósofos, dos direitos legais sociais a serem preservados, ou refutados, com base nas leis criadas pelos homens visando esse alcance?

De repente mudei de posição e, com essa atitude, me deparei com outro ponto de vista. O foco no social e nas sociedades, recaiu direto sobre o humano e a humanidade, que estiveram por anos encobertos.

Aí foi esticar a mão e retirar da prateleira os livros, não... as idéias de Jiddu Krishnamurti (1895 - 1986), também não...  muito menos as palavras e os pensamentos, ou conhecimentos e condicionamentos, tão questionados por ele - por estarem atrelados ao que considerava o maior inimigo do humano, ou seja, o tempo psicológico.


Aí foi esticar a mão e retirar da prateleira o "humanismo de Krishnamurti" . Seu foco teórico estava no homem em seu existir cotidiano e na prática errônea da "ação humana não consciente" . Sua investigação recaia sobre a dificuldade do ser humano "irracional em suas atitudes", recusar se reconhecer dentro de sua irracionalidade, sempre se escondendo sob o manto do racional para não precisar agir em seu existir no agora.

Eis o que buscava nessa palestra proferida por Krishnamurti em 1980 (Ojaí, Califórnia). Mudem a moldura de 1980 para 2012 e verifiquem como ainda lhe cabe:

"Gostaria de fazer uma pergunta que poderá nos conduzir a algo: o que é preciso para o homem transformar-se profunda, fundamental e radicalmente? Ele tem passado por crise após crise, tem sofrido inúmeros choques, tem atravessado todos os tipos de infortúnios, de guerras, de sofrimentos pessoais, e assim por diante. Tem tido um pouco de afeição, um pouco de alegria, mas tudo isso não parece mudá-lo. O que fará com que um ser humano abandone o caminho que está seguindo, e siga em direção completamente diferente? Esse é um dos nossos maiores problemas, você não acha? Por quê? Se estivermos preocupados, como deveríamos estar com a humanidade, com todas as coisas que estão acontecendo, qual será a ação correta para levar o homem a mudar de direção? Essa pergunta é válida? Tem algum significado? (...) o que está segurando as pessoas... o que está mantendo as pessoas no seu rumo atual...parecem mudar, mas o centro egotista permanece o mesmo...o que dificulta a manutenção de afastamento de atitudes irracionais, padrões destrutivos e autocentrados...o que leva a mente a enganar a si própria? (...) Os analistas tentaram, as pessoas religiosas tentaram, todo mundo tentou tornar os seres humanos inteligentes - mas eles não tiveram sucesso (...) há muitas explicações bastante racionais, e no final caímos de volta nisso (...) Você poderá me apresentar mil explicações, e todas provavelmente um pouco irracionais, mas eu direi: você o fez (rompeu o padrão) ?"

Recolho agora material das obras de Krishnamurti com seu foco no "agir no agora da humanidade" e cruzo com o que me fornece André Martins, filósofo e psicanalista em seus livros "Pulsão de Morte?" (novas idéias e propostas teóricas inovadoras para uma clínica psicanalítica, que visa à potência do agir do analisando) e "O mais potente dos afetos: Spinoza&Nietzsche" (o "conhecimento" como o mais potente dos afetos, ou seja, aquilo que me afeta, me causa afeição, vínculo afetivo).

E me aventuro agora a ler "O Livro Negro da Psicanálise: viver e pensar melhor sem Freud", em suas 644 páginas, org. por Catherine Meyer. Na contracapa podemos ler: "Há uma vida depois de Freud: podemos, em terapia, trabalhar um inconsciente não freudiano (...) Este livro é, antes de tudo, um ato de confiança na liberdade de cada um. Cabe ao leitor saber resistir aos argumentos de autoridade daqueles que "sabem", daqueles que decidem ex abrupto. Cabe a ele comparar os diferentes pontos de vista."

Como começar em meio a tudo isso?
É simples! Comece por acompanhar, dentro de você, a movimentação de sua energia interna ante a mudança dos termos "sociedade" por "humanidade". Só observe e constate o que ocorre quando o "homem social" cede espaço para o "ser humano".

Aurora Gite


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Uma Saudosa Homenagem

Casa Arrumada

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros
saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.

Carlos Drumond de Andrade
(1902 - 1987)

Sem palavras novamente... só saudades!
Aurora Gite

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

" O que fazer?"

O que fazer?


Para associar mundo moderno com viver bem
Não basta tentar,
Temos que ir muito além.
Há três tipos de pessoas
Que vale a pena conhecer:
O modernista, o campista
E o que sabe bem viver.

O primeiro adora tecnologia.
Para ele, computador
É coisa de magia.
Mas não deixa a cidade grande.
Para ele, viver bem
É nada mais, nada menos
Que fama, poder e dinheiro.

O segundo é o tipo fazendeiro.
Trabalhou a vida inteira
E ganhou muito dinheiro.
Com trinta anos se aposentou.
Uma fazenda comprou
E muito bem se casou.
Qualidade de vida para ele
É ser rico e bem casado,
Ter fazenda e muito gado.
E viver bem relaxado.

O terceiro é bicho estranho.
Mas vale a pena mostrar,
Pois tem muito valor
No que estamos a falar.
Este sabe misturar
Viver bem e na cidade morar
Tem casa na cidade
E outra linda no campo.
Gosta de gastar,
Mas não tem dinheiro no banco.
Trabalha no que acha legal,
Mas o que ganha é muito mau.
Casou-se com quem ama,
Passa o domingo na cama.
Gosta de trabalhar,
Mas odeia o chefe encontrar.
Não sabe se vive bem,
Mas de uma coisa está certo:
É muito nervoso,
Mas é feliz também.

Agora, cabe a ti escolher
Qual dos três você quer ser.
Para quem não sabe o que fazer,
Saiba que minha opinião já fiz:
O que mais quero é ser feliz.

Luis Felipe Cyrillo Danezi
em seus 12 anos de idade
publicado na Revista de sua escola


Vale como lembrete para que os adultos não se esqueçam de seus sonhos e de quem realmente foram e poderão ser.

A dica da vida não é que procuremos nos adaptar às circunstâncias ao nosso redor, administremos nossos medos - como o medo do amor e de ser feliz - ou gerenciemos nosso "eu" em prol do bem viver de acordo com a expectativa de sociedades com normas, valores e preconceitos instituídos antes mesmo de nela existirmos. Não são as circunstâncias responsáveis por quem somos. Nosso "ser no mundo", com qualidade de vida, está atrelado a outras forças internas.

A mensagem que a vida nos envia é para respeitarmos com lealdade a pessoa que, em essência, existe dentro de nós; é confiarmos em nossa liberdade e capacidade para transformarmos o que nos cerca; é termos coragem dentro da simplicidade de buscar que nossa existência se adapte a quem realmente somos; é sermos fiéis a nossos sonhos sem medo de ser feliz.

É podermos olhar para trás e sentirmos profundo orgulho por termos nos permitido lutar por nossos sonhos, buscando suas inserções na realidade, em vez de termos vivido dentro deles, como sonhadores com medo de viver, o que a vida nos encaminha.

E, se a vida nos encaminha, faz parte de um mistério, a ser enfrentado e desvendado.
Qual são os primeiros passos a serem dados?
  • Encontrar e acolher o menino que todos temos dentro de nós.
  • Sair da bolha sonhadora, que mina a esperança de realizações ocorrerem; que eterniza o tempo, mas paralisa nosso andar por ele. E que susto ao vê-lo ter passado tão rápido!
  • Colocar os pés no mundo real, buscando na dignidade pessoal alcançada, a força e o equilíbrio para caminhar.
  • Dar sentido e qualidade a nossa vida, para nos aproximarmos da grandeza do bem viver.
  • Resgatar e agora sim vivenciar os sonhos, não tão esquecidos assim dentro de todos nós.
A partir daí, mãos à obra!
Posicionar sua tela mental, pegar o pincel de sua imaginação e delinear o esboço do que quer para sua vida. A cena onde seu desenho vai ser formatado vai depender da paisagem de seu cotidiano, mas as cores, que darão força à imagem que vai surgir, vão depender de suas escolhas e de sua vontade para decidir sobre quais delas vai querer que façam parte de sua criação, de seu viver a partir de agora.

Aurora Gite

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ufa, até que enfim! Valeu o esforço!

Muitos dos que acompanham meu blog sabem de minha intenção ao criá-lo. Queria que servisse de voz a minhas pesquisas, que tiveram como ponto de partida vivências reais que não encontravam fácil conexão de escuta por parte de muitas pessoas, pela dificuldade de serem nomeadas.

Mesmo caminhando durantes anos nos meios científicos, encontrei grande dificuldade de espaço pelo desconhecimento da função do psicólogo e desconsideração de seu papel na área psíquica. Em blogs anteriores faço constar esse caminhar e a persistência na busca de profissionais afins com quem pudesse trocar idéias sobre minha hipóteses.

Como acredito que paciência e perseverança sejam características indispensáveis a um pesquisador, me voltei a pesquisas na literatura diversificada entre física quântica, psicanálise, psicologia transpessoal, partindo para os conhecimentos paranormais comprovados cientificamente. Como, no campo pragmático, tinha dados diretos, advindos de minha vivência pessoal, procurei lidar com fenômenos psíquicos, desnomeando-os, desmontando enquadramentos, crenças e preconceitos, que aprisionavam o real e que poderiam distorcer minhas percepções. Ah, busquei também escapar da tentação das articulações fáceis com sedutoras teorias, e fechadas em seu saber!

Conseguia uma informação e já me colocava disponível para a apreensão dos resultados de novas descobertas metafísicas. Sendo assim, meus votos e sonhos para 2012, não poderiam se afastar do desejo de que passassem a ser reconhecidas a nova natureza psíquica do ser humano e a real possibilidade do alcance de sua verdadeira espiritualidade, desvendada pela ciência do milênio.

Como tenho feito, até agora, deixo registrada as referências bibliográficas onde encontrei sintonia e sincronicidade com minha experiência. A cada degrau de compreensão das teorias, altero meus companheiros de jornada, do que chamo "mesa redonda de idéias". Embora estejam ausentes fisicamente, estão muito pertos pelos vínculos caracterizados pela acronia e pela atopia. Isso não os diferencia dos novos elos decorrentes do mundo virtual. Amigos próximos são criados facilmente, deletados e resgatados. mais rapidamente ainda. dentro do pouco envolvimento afetivo real das redes de solitárias relações virtuais. O que constatamos não é uma civilização marcada pelo imaginário, pelo simbólico, pela construção de um real fictício, tão distante da realidade presentificada e que clama, nesse momento histórico pelo menos, por seu espaço a cada minuto de vida?

Bem, nesse final de ano, o cardápio de idéias para minha ceia reflexiva, consistiu na articulação das energias do ser humano em sua vias químico/físico e quântico/psíquico. Muito me ajudaram as informações transmitidas pelo físico Laércio Fonseca, cujas aulas sobre Espiritualidade e Ciência encontram-se disponíveis em vídeos no Youtube, de fácil acesso pelo Google. Através de seu ensinamento, em forma de "b-a-bá" sobre o mundo quântico, pude nomear minha experiência e registrar a constatação da percepção dos estados alterados de consciência decorrentes de saltos quânticos, inclusive da sensação de imã -força propulsora- e da fase de não consciência entre eles: tempo e espaço somem; a linguagem conceitual é substituída por outra forma de comunicação mental, um pensar intuitivo, sem o crivo de palavras, mas de sensações também intuídas,via telepatia. Confesso que ainda me falta muito para assimilar os conhecimentos a que chegou Fonseca, mas o raciocínio lógico observado em seus argumentos é inegável nesse novo mundo de possibilidades, de incertezas, de probabilidades alocais e atemporais que se entrecruzam no presente.

Vou me permitir parar de descrever minha experiência pessoal. Em blogs anteriores vão encontrar a angústia de minha empreitada buscando relatar passo a passo essas vivências. Neles faço constar a lista de meus "convidados" em anos anteriores, de acordo com os patamares de minhas pesquisas. Graças a todo esse trabalho tenho encontrado meios para reconhecer o fenômeno psíquico que ocorreu, e recursos para expressá-lo em palavras.

Sendo assim, é fácil prever a relação de meus convidados, selecionados entre os que fizeram parte de minha jornada atual, fortalecendo minhas pesquisas recentes: Jung com suas personalidades 1 e 2 (assim nomeadas por ele); Lacan com seu pequeno outro e "grande Outro", seu "Supereu ético" em contraponto com o conhecido e cruel superego proibitivo freudiano; Freud, o inconsciente e o mundo quântico, pois considero que ele foi o primeiro a observar as interações subatômicas no interior do ser humano e nunca se afastou da esperança de que a psicologia ganhasse o "status" de científica e se voltasse à base orgânica do mundo psíquico.

Atualmente, me ponho a pensar no mundo psíquico, nas idéias (partículas) carregadas de afeto, irradiando "quanta" ou pacotes de energia eletromagnética, que mantém seus elos associativos.
Pela irradiação e qualidade da expansão da consciência (campo eletromagnético) , através da fala e do pensar, vão sendo alteradas a energia do afeto (perdas ou ganhos quânticos). Imagino o "insight", aquisição compreensiva, um saber advindo de um salto quântico da consciência, em sua função de onda eletromagnética.

Segundo Fonseca: "No espaço entre níveis quânticos, o elétron não existe. Some aqui e reaparece instantâneamente ali; no intervalo não tem realidade". Minhas reflexões me voltaram para buscar dados para justificar minha hipótese: uma consciência quântica... um intervalo atemporal... correspondendo ao que Freud denominou de "inconsciente".

Surpresa, lendo o livro - ganhei como presente de Natal - "Como Ler Lacan" (Slavoj Zizek, Zahar, 2010) , me deparo nas p.97 e p.98 com:

"A física de hoje está presa numa estranha dualidade: a teoria da relatividade dá a melhor explicação do modo como a natureza funciona no nível macroscópico (cósmico), e a física quântica dá a melhor explicação do modo como ela funciona no nível microscópico (subatômico). O problema é que as duas teorias são simplesmente incompatíveis, de modo que o objetivo central da física de hoje é formular uma teoria "unificada" de tudo que possa conciliar as duas.

Não ficaríamos surpresos, portanto, se encontrássemos um eco dessa dualidade na teoria de Freud: por um lado a hermenêutica do inconsciente, interpretações de sonhos, atos falhos ou outros "erros" desse tipo, sintomas...no nível conceitual freudiano: o Inconsciente e o Isso (sítio das energias inconscientes).

Como conciliar...? Um dos muitos neologismos no Lacan tardio é a noção de sinthoma...Em contraste com os sintomas (mensagens codificadas do inconsciente), os sinthomas são uma espécie de átomo de gozo, a síntese mínima de linguagem e gozo, unidades de signos permeadas com gozo (como um tique que repetimos compulsivamente). Não seriam os sinthomas quanta de gozo, seus menores pacotes? Não seriam eles, como tais, um equivalente freudiano das super-cordas, destinadas a conciliar as duas faces da física moderna, a teoria da relatividade e a mecânica quântica?

Embora Lacan seja muitas vezes criticado por negligenciar o vínculo entre a psicanálise e as ciências naturais em que Freud sempre insistiu, esse vínculo está vivo e atuante em sua obra."

Paro esse blog por aqui.
Agora é arregaçar as mangas e continuar cruzando dados.
O livro, acima referido, nos confronta com muitos deles.
Vale a pena sua leitura, para aqueles que se interessem pelo mundo psíquico do ser humano e estejam abertos a mudanças de perspectivas, que possibilitam, e acarretam, nova visão de homem e de mundo.

Mais uma indicação que computo de grande importância para melhor compreensão do momento atual, contendo novas perspectivas sobre os efeitos da Internet na mente humana:

Carr, Nicholas. A geração superficial: o que a Internet está fazendo com nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.

Aurora Gite

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Saudade do que poderia ter sido e não foi...

Ao constatarem quem é o autor dos poemas abaixo, não estranhem!
Eles bem representam a opção de um momento vivencial, uma circunstância de vida, uma história existencial, uma lembrança mantida viva, uma fonte de satisfação e orgulho por escolhas feitas.

Algumas vezes me pego refletindo sobre quantas pessoas tiveram na vida um encontrão, do qual resultou uma certeza de que valeria a pena ter investido nessa relação, e dela fugiram? Mesmo ante circunstâncias favoráveis ao redor, na época da ocorrência, se amedrontaram e não confiaram na própria capacidade de construir uma convivência serena, debaixo de uma cumplicidade fiel e leal?

Acredito que muitas conhecem a dor da saudade, do que poderia ter sido e não foi ...
E carregam dentro de si a tristeza da sensação de alguém , que poderia ter sido tão significativo em sua vida, estar tão longe, distante...
E convivem com o paradoxo da alegria de senti-lo tão presente dentro da ausência.

No entanto, poucas carregam no peito o enorme prazer de perceber, e constatar, semelhanças.
Sintonia e sincronia de valores e virtudes, que pouco sobressaem numa sociedade como a atual. O que faz valer a frase popular: "É como encontrar uma agulha num palheiro".

É difícil se enganar ante as evidências de pontos em comum, como o resgate da "dignidade humana"; a luta pelo "ser livre e feliz"; o fascínio pela "verdade e justiça", "amor e solidariedade"; o desejo de contribuir para o "bem estar social".

Esse é o espírito que envolveu a escolha desses poemas sobre o "Amor". Eles bem representam, a meu ver, o maior perigo num envolvimento amoroso:


"Amor é fogo que arde sem se ver"

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"


"Se pena por amar-vos se merece"

Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre está? Ou quem isento?
Que alma, que razão, que entendimento
Em ver-vos se não rende e obedece?

Que mor glória na vida se oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se não sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
Contínuo vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso.

Em mim, Senhora, podeis ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.


"Transforma-se o amador na cousa amada"

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.


O nome de seu autor é: Luís Vaz de Camões


Ah, a dor da saudade do que poderia ter sido e não foi!
Por vezes, o peito aperta e sangue parece brotar do coração ferido.
No entanto, não se pode deixar de reconhecer que, uma saudade assim, não deixa de colorir o aqui e agora de existências humanas voltadas ao encontro da própria integridade e dignidade interior.

Mas, querem saber, hoje em dia duvido, que alguém deixe de lado um amor, mesmo quando o encontrão impactante o pegar desprevenido!

Aurora Gite