Uma nova ciência que cada vez chama mais a minha atenção é a que se convencionou chamar "Ciência da Informação".
Sobre ela e a "Fenomenologia da Interação" indico o vídeo do Engenheiro Augusto Franco no Canal Youtube:
www.youtube.com/watch?v=rQX3i6SWxe4&feature=youtu.be
Franco começa a nos conscientizar que "redes sociais não são as plataformas Face, Twitter ou Google", mas são "pessoas interagindo", o que existe há muito tempo. Agora caíram os intermediários e não nos demos conta. O que se alterou, foi a nossa percepção sobre as transformações que estavam ocorrendo no social. O que nos amedronta é estarmos "mais vulneráveis à interação fortuita com o outro", à invasão direta pelo acesso de estranhos à nossa privacidade, fato que nós não planejamos.
Considerando a atual "rede de informação distribuída", não há mais como negar que a maior força social está nas "configurações entre as pessoas que interagem nas redes". Afetos por amigos, conhecidos de longo tempo, se estendem aos amigos desses amigos, que passam a ser tratados como amigos também por nós- como internautas - mesmo sem conhecê-los. Facilmente caímos no risco de estender a privacidade de nossas vidas também a eles, facultando a divulgação de detalhes de nossa intimidade sem que saibamos, ou que tenham passado pelo crivo de nossa permissão explícita.
Para Augusto Franco, a tecnologia potencializou o que já existia e vinha assumindo proporções avassaladoras. Agora, o que existe, com a Internet Interativa, são os "meios de interação em tempo real à distância". Não temos mais o jogo interativo de pingue-pongue do diálogo, que podia até se tornar, em alguns aspectos previsíveis, entre duas pessoas. No mundo participativo, modalidade de convivio social anterior, existiam regras predefinidas a serem seguidas pelos partícipes. Estamos perdendo até a responsabilidade sobre o conectar e deletar. O aumento do "salvar como", "encaminhamento" e futuro "download", não nos deixam mentir. A presença ausente do outro se torna visível e audível em instantes, e em recortes, falsamente eternizados em sequências repetitivas, se assim o quisermos, ou apelarmos de forma doentia.
A grande mudança ocorrida, a ser enfatizada por Franco, é que "na interação tudo é construído conforme a dinâmica vai se desenvolvendo... tudo acontece determinado pelo fluxo interativo da convivência social". Esse caminho vai desviar, segundo acredito, o mundo das interações pessoais, para uma "rede de reações", difícil de ser contida, ante o aumento da incerteza e imprevisibilidade nublando mais ainda a construção de projetos futuros. Fator preocupante é a "consequente rede de impactos" até sobre a viabilidade de planejamentos e estratégias de ação, que possibilitem a sensação aconchegante de zonas de conforto internas. Corremos o perigo de não mais contar com os referenciais históricos do passado ou expectativas esperançosas do futuro. Tudo se plasma no aqui e agora da realidade presente, mesmo que seja holográfica. O que se concretiza é o trilhar circense por uma corda bamba e a necessidade de se equilibrar internamente entre a incerteza que nos cerca há algum tempo e a certeza da dificuldade de sua reversibilidade.
Sendo assim, na interatividade e conectividade atual, não escondem mais que "a periferia, ou minoridade, do sistema é capaz de modificar esse sistema", e respeitando o princípio de que "tudo que interage se aproxima, tende a ser aglomerado"... o social não corresponde mais a pessoas isoladas, mas a "configurações, módulos e conexões entre eles", que passam a ganhar vida própria.
A meu ver o maior perigo dos seres humanos, nesse milênio - que considero de transição para a consolidação pacífica de uma nova sociedade - reside na força do que chamo de "novo poder" -um Gigante Robô Eletrônico Internetizado, senhor absoluto, sem forma ou rosto delineados, que se encontra agora devastador em toda parte, e que pode disseminar o ópio de ideias de acomodação passiva a crenças e ilusões, além de implantar afetos forjados e necessidades fictícias, nos incautos e ingênuos que desativam sua razão - seja por instantes de não reflexão. Instantes passam a ser tempo bastante, que vai lhes custar a cegueira sobre o que lhes ocorre, ou a dor da impotência por não vislumbrarem meios, forças e coragem para reagir contra esses "chips mentais" agora instalados, com maestria, dentro do mundo interior de muitos.
Vale conferir a análise feita por Franco dos recentes movimentos sociais de enorme aglomerado de pessoas que eclodiram pelas ruas do país, sem um líder direto que as convocassem ou objetivo específico que as mobilizassem.
Um leque de variáveis conduzia essa multidão, que foi surgindo em diversos pontos do país. Uma bola de neve de pessoas, que ia aumentando, aumentando assustadoramente, de forma imprevisível e incontrolável. O elo que as unia não mais caracterizava um padrão de descentralização de informação - que ainda obedece a hierarquias, podendo ter seu rumo redirecionado, sendo refletida sua validade e ponderada possível viabilidade de negociações. Vigorava, agora, uma organização abstrata acéfala de dinâmicas, que se auto-alimentam através das forças de amplas "distribuição de informações", que, em tempo recorde, podem causar o caos social que se observou.
Nesses movimentos sociais acéfalos, até a mídia deixa de ser o "quarto poder". O poder e a violência podem adquirir conotações altamente expressivas, e ninguém pode com justeza ser responsável direto para ser incriminado criminalmente pela comunicação disseminada e convocação das pessoas. Franco aborda algumas características desse mundo de alta rotatividade e potencial interatividade, à disposição em seu vídeo para quem quiser melhor se inteirar, como o fato de que "indivíduos juntos começam a clonar, imitar uns aos outros" e "o ambiente passa a determinar os comportamentos".
Como exercer constante vigilância sobre nós mesmos, a não ser por constantes reciclagens em nossos processos de autoconhecimento, e contínuas atualizações descartando o que nos é obsoleto e disfuncional?
Como nos vacinar nesse mundo onde passou a predominar um pensar coletivo, não mais subjetivo respeitando o individual?
Como escapar ileso da cegueira do cenário, pincelado abaixo, onde às perspectivas analíticas de Franco agreguei algumas considerações pessoais, que me angustiam nesse momento:
* A sociedade é o "palco onde as coisas ocorrem".
* A "dinâmica da sociedade mudou".
* Com ela "muda todo o corpo social".
* A inclusão do indivíduo, nessa sociedade, está atrelada ao possuir um "passaporte online" e ao passar a "pertencer a um sistema de redes" que pensa de modo coletivo.
* Implícito no pensar coletivo dentro do sistema de "conectividade em tempo real" está o poderoso "campo online de forças" que lhe é próprio, que se retroalimenta do próprio "output" - ou resultados obtidos - e assim vai se sustentando como eterno processo existencial vivo.
Como não se perder nesse emaranhado de interações em rede?
Como escapar da "teia das redes" com a honradez e dignidade de uma integridade individual, que prima pela liberdade pessoal, pela serenidade de um convívio pessoal pacífico, pela valorização da riqueza de uma vida afetiva olho no olho, fortificada pelo toque amoroso direto, pelo sintonia dos tons de vozes, pelos significados das palavras e sentidos das ações em simultânea harmonia pela afinidade sinfônica?
Podemos pensar juntos?
Aurora Gite
terça-feira, 29 de julho de 2014
domingo, 20 de julho de 2014
Compartilho: "Convivendo com a AIDS"
Acompanho há muito tempo com grande interesse as pesquisas e novas descobertas sobre a AIDS. Procuro sempre divulgar novas notícias de especialistas a respeito dos avanços relativos a essa doença, como a dessa semana; "AIDS cresce no Brasil... particularmente entre jovens e gays". Apreensiva, continuo a me perguntar: "Por que os jovens ainda não se previnem adequadamente, virando as costas a quaisquer programas informativos sobre os cuidados preventivos e a morbidez de suas consequências?"
Nesse sentido, não há como deixar de compartilhar o que acredito ser a forma de terapia do mundo virtual. Luiz Gasparetto, com mais de 40 anos de estudos sobre a condição humana, é um psicoterapeuta que adotou uma visão holística do ser humano (ser biopsicossocial e também "espiritual"), e que expõe sua técnica intervencionista em vídeos. Demonstra, dessa maneira, sua forma de atuar no momento existencial de quem o procura, propiciando o encontro interno dessa pessoa com sua "alma", essência autêntica, encontro com quem é na verdade. É curioso que, nos momentos em que essa integração ocorre, o alívio sintomático dos quadros de angústia logo é percebido pela sensação de leveza e liberdade, relatada por todos que passam por essa vivência.
É fascinante seguir Gasparetto em seus atendimentos de casos (gravados em vídeos) e acompanhá-lo em sua técnica, observar como possibilita o "colóquio da pessoa com sua própria alma, seu eu profundo". Segundo ele, isso é "se achar"; isso é "se encaixar em si". Ao dizer "Não estou com vontade!" a pessoa já se liga em si. "Você pode ser, ou pode não ser, tem o poder de escolher. O importante é aprender a se segurar em si".
A cada intervenção ele busca clarear conceitos intelectualizados e associá-los à sensação corporal. "Amadurecer é estar seguro de si, estar livre para se sentir, e se bancar".
Ele acompanha a pessoa no "sentir suas sensações e escutar seus anseios mais íntimos:
"O que sua alma necessita?";
"O que esse seu eu profundo precisa para ser feliz?";
"O que você pode fazer para ajudar a fortalecer esse seu lado, que te boicota, reconhecendo quão vulnerável e atingível você está?".
Parte da premissa que "Ao entender o que fazemos podemos desfazer"; "Quando há entendimento há sempre mais poder, poder de..."
Esses vídeos podem ser encontrados no Canal YouTube, sob o título de "Convivendo com a AIDS". São em número de 6 vídeos, numa média de 6 a 10 minutos cada um.
Passo o link do primeiro: www.youtu.be/IL51sfyr364via@YouTube
Pelo Google, pesquisar em Luiz Gasparetto/Encontro-Marcado/Convivendo- ...
E se quiserem conhecer um pouco do trajeto de Gasparetto: www.gasparetto.com.br/site/metafisica
A perspectiva de Luiz Gasparetto, psicólogo, visa o alcance emocional de posturas internas onde o ser "seguro de si" é livre para sentir e decidir. Ser seguro de si é aquele ser humano que conseguiu se ligar em si, se encaixar em seu centro de referência interno, confiar em seu senso interior e com forças para se bancar.
Da mesma forma que para Gasparetto, "o efeito terapêutico desta abordagem até hoje me surpreende". Terapeutas, que se dizem ecléticos em suas intervenções, ainda têm muito a apreender sobre as novas formas de abordagens psicoterápicas embasadas na leitura do ser humano sob o prisma energético. Após ouvir o relato, Gasparetto não busca "problemas", os porquês cognitivos ou os afetos represados. Seu foco recai no aqui e agora da pessoa que o procura (não utiliza o termo cliente nem paciente). Seu intervir é voltado a desbloquear o que trava o caminhar dessa pessoa e a impede de encontrar alternativas e possíveis soluções para aliviar seu sofrimento.
Descobrir o que é "certo" é algo pessoal, segundo ele. O maior obstáculo é reconhecer o "programa de ideias" que nos implantam e que nos impede de "sentir por si". Ao seguir a programação mental dos zumbis, voltada ao pensar padronizado pelas leis da lógica, é fácil constatar maior perda da vontade, do tesão e da motivação. A "cultura" não quer priorizar os contatos entre humanos. Controla melhor o social se cultivar o apego a modelos criados e ideais inventados. Ainda é surpreendente nesse milênio, com tantas descobertas e inovações, via internet e globalização onde o saber é alcançado simultaneamente em várias partes do globo, o valor dado e o poder atribuído a conceitos abstratos para gerenciar vidas humanas.
Parece que, cada vez mais, as sociedades estão se adaptando à realidade do milênio, ao perfil dos jovens da "geração y", ao "real time e conectividade dos internautas, sem rostos em seu anonimato e identidade distorcida, ou com seus rostos desfigurados pela intermediação tremida da telinha". Cada vez mais ocorre uma acomodação à nova linguagem e sua recém nomenclatura e neologismos decorrentes da nova era digital. Cada vez mais o convívio entre as pessoas, "crias da Internet" -expressão usada por Edward Snowden em entrevista concedida à jornalista Sonia Bridi (globotv.globo.com/globo-news-milenio)- diluem os laços humanos e amenizam a forma como as pessoas são "tocadas" nas interações virtuais, sem contato de toques afetivos diretos pelo olhar ou gestos amorosos.
Para Gasparetto, segurança é o estado interno de "ser seguro de si para sentir e decidir", liberdade é sensação da alma, felicidade mora dentro de nós, não nos vem de coisas externas, mas nos ajuda a apreciá-las com contentamento. Já Bauman, nos reporta a "circunstâncias externas", que nos levam ao difícil equacionar menor liberdade e maior segurança, ou lidar com o eterno dilema maior liberdade e menor segurança.
Realço as análises do sociólogo Zigmunt Bauman sobre o que denomina uma "modernidade líquida", onde estamos cercados por contínua insegurança e permeabilidade, estranha liquidez decorrente de constante incerteza e instabilidade que veio para ficar ante a velocidade das mudanças nesse início de milênio, que se processam em tempo recorde também no mundo social, inclusive nas redes de relações que permeiam os laços humanos.
Bauman segue de perto, apreensivo e intrigado, as novas configurações sociais que se formam ante as vultuosas e rápidas transformações tecnológicas e alterações obrigatórias no "design" das condições humanas. Enfatiza uma das grandes dificuldades para não se ampliar o abismo entre as gerações do milênio, qual seja a necessidade de grande esforço e tolerância na aprendizagem de novos meios da comunicação no mundo das redes sociais.
Bauman pontua que observou a disparidade de significados no emprego de conceitos com sentidos arraigados, como é o caso da palavra "amigos". Tal fato vai obrigar a geração da pós-modernidade a uma maior atenção, constante parear e atualizar os sentidos, que parecem à primeira vista fugazes, dos conceitos, dentro dos contextos em que são empregados. Ter 500 amigos para um internauta contemporâneo é algo banal, mas muito estranho para aqueles que conviveram com contatos diretos, com o poder da troca de olhares, o fascínio dos toques, a sedução dos gestos cativantes... Contrastando, hoje basta clicar em uma tecla e conectar com um internauta recém conhecido na rede social mas que é logo incluído na categoria de amigo a quem se jura com convicção que o vínculo será duradouro. Porém, ante qualquer contrariedade esse amigo pode ser banido sem maiores comprometimentos afetivos com o mesmo clicar em teclas para seu deletar imediato do rol de amizades, sem a chatice de justificativas, desculpas e prováveis incômodos melindres. Não há nem tempo para "ser tocado pela perda" do então "amigo", pois o passar para 499 é por pouco tempo; no momento seguinte o teto dos 500 amigos novamente é preenchido com facilidade. A partir daí, a atenção de Bauman (segundo ele mesmo relata) foi despertada para o novo fenômeno da liquidez relativa no uso circunstancial dos significados de conceitos empregados cotidianamente.
Sobre as ideias de Zigmunt Bauman indico curtos vídeos disponíveis no Canal YouTube:
* Sobre redes sociais, laços humanos, liberdade e segurança
www.youtu.be/LcHTeDNIarU via @YouTube
* Sobre "Nós Hipotecamos o Futuro"
www.youtu.be/OcPD1pLdkoQ via @YouTube
* Sobre o mundo pós-moderno e a sociedade fragmentada (Fronteiras do Pensamento - Café Filosófico - CPFL) www.youtu.be/POZcBNo-D4A via @YouTube
Sem sombra de dúvida, o mundo virtual e a comunicação digital é um recurso amplo e eficaz, que possibilita melhor conviver com doenças em certos momentos limitantes, que se tornam um desafio para os portadores do soro positivo (HIV), ou para os obrigados a conviver com a AIDS e com os coquetéis de medicamentos, e seus efeitos colaterais. É preciso "aprender a se cuidar" para manterem o "status quo" de seu metabolismo. No entanto, é primordial, como diz Gasparetto, "colocar ordem dentro da cabeça, participar ativamente de atualizações das próprias ideias, com o banimento de crenças negativas e convicções disfuncionais, e com reestruturações positivas voltadas a ter uma vida boa". Para ele, "com cabeça ruim não vai ter vida boa, e cabeça boa é sinônimo de trabalho interno."
Então a prescrição é arregaçar as mangas!
Vamos ao trabalho, para saber melhor conviver conosco e com os desafios que a vida nos mandar, com coragem, sabedoria, serenidade e paciência?
Que tal começarmos por entender, o que precisamos aprender com as dificuldades que a vida nos brinda?
O que acham de nos orgulharmos por nosso contínuo enfrentamento dos obstáculos, de cabeça erguida - com honra e dignidade - e constante garra na superação?
Aurora Gite
P.S.: Qualquer dúvida quanto aos links entrem direto por www.twitter.com/thompsonlm
Nesse sentido, não há como deixar de compartilhar o que acredito ser a forma de terapia do mundo virtual. Luiz Gasparetto, com mais de 40 anos de estudos sobre a condição humana, é um psicoterapeuta que adotou uma visão holística do ser humano (ser biopsicossocial e também "espiritual"), e que expõe sua técnica intervencionista em vídeos. Demonstra, dessa maneira, sua forma de atuar no momento existencial de quem o procura, propiciando o encontro interno dessa pessoa com sua "alma", essência autêntica, encontro com quem é na verdade. É curioso que, nos momentos em que essa integração ocorre, o alívio sintomático dos quadros de angústia logo é percebido pela sensação de leveza e liberdade, relatada por todos que passam por essa vivência.
É fascinante seguir Gasparetto em seus atendimentos de casos (gravados em vídeos) e acompanhá-lo em sua técnica, observar como possibilita o "colóquio da pessoa com sua própria alma, seu eu profundo". Segundo ele, isso é "se achar"; isso é "se encaixar em si". Ao dizer "Não estou com vontade!" a pessoa já se liga em si. "Você pode ser, ou pode não ser, tem o poder de escolher. O importante é aprender a se segurar em si".
A cada intervenção ele busca clarear conceitos intelectualizados e associá-los à sensação corporal. "Amadurecer é estar seguro de si, estar livre para se sentir, e se bancar".
Ele acompanha a pessoa no "sentir suas sensações e escutar seus anseios mais íntimos:
"O que sua alma necessita?";
"O que esse seu eu profundo precisa para ser feliz?";
"O que você pode fazer para ajudar a fortalecer esse seu lado, que te boicota, reconhecendo quão vulnerável e atingível você está?".
Parte da premissa que "Ao entender o que fazemos podemos desfazer"; "Quando há entendimento há sempre mais poder, poder de..."
Esses vídeos podem ser encontrados no Canal YouTube, sob o título de "Convivendo com a AIDS". São em número de 6 vídeos, numa média de 6 a 10 minutos cada um.
Passo o link do primeiro: www.youtu.be/IL51sfyr364via@YouTube
Pelo Google, pesquisar em Luiz Gasparetto/Encontro-Marcado/Convivendo- ...
E se quiserem conhecer um pouco do trajeto de Gasparetto: www.gasparetto.com.br/site/metafisica
A perspectiva de Luiz Gasparetto, psicólogo, visa o alcance emocional de posturas internas onde o ser "seguro de si" é livre para sentir e decidir. Ser seguro de si é aquele ser humano que conseguiu se ligar em si, se encaixar em seu centro de referência interno, confiar em seu senso interior e com forças para se bancar.
Da mesma forma que para Gasparetto, "o efeito terapêutico desta abordagem até hoje me surpreende". Terapeutas, que se dizem ecléticos em suas intervenções, ainda têm muito a apreender sobre as novas formas de abordagens psicoterápicas embasadas na leitura do ser humano sob o prisma energético. Após ouvir o relato, Gasparetto não busca "problemas", os porquês cognitivos ou os afetos represados. Seu foco recai no aqui e agora da pessoa que o procura (não utiliza o termo cliente nem paciente). Seu intervir é voltado a desbloquear o que trava o caminhar dessa pessoa e a impede de encontrar alternativas e possíveis soluções para aliviar seu sofrimento.
Descobrir o que é "certo" é algo pessoal, segundo ele. O maior obstáculo é reconhecer o "programa de ideias" que nos implantam e que nos impede de "sentir por si". Ao seguir a programação mental dos zumbis, voltada ao pensar padronizado pelas leis da lógica, é fácil constatar maior perda da vontade, do tesão e da motivação. A "cultura" não quer priorizar os contatos entre humanos. Controla melhor o social se cultivar o apego a modelos criados e ideais inventados. Ainda é surpreendente nesse milênio, com tantas descobertas e inovações, via internet e globalização onde o saber é alcançado simultaneamente em várias partes do globo, o valor dado e o poder atribuído a conceitos abstratos para gerenciar vidas humanas.
Parece que, cada vez mais, as sociedades estão se adaptando à realidade do milênio, ao perfil dos jovens da "geração y", ao "real time e conectividade dos internautas, sem rostos em seu anonimato e identidade distorcida, ou com seus rostos desfigurados pela intermediação tremida da telinha". Cada vez mais ocorre uma acomodação à nova linguagem e sua recém nomenclatura e neologismos decorrentes da nova era digital. Cada vez mais o convívio entre as pessoas, "crias da Internet" -expressão usada por Edward Snowden em entrevista concedida à jornalista Sonia Bridi (globotv.globo.com/globo-news-milenio)- diluem os laços humanos e amenizam a forma como as pessoas são "tocadas" nas interações virtuais, sem contato de toques afetivos diretos pelo olhar ou gestos amorosos.
Para Gasparetto, segurança é o estado interno de "ser seguro de si para sentir e decidir", liberdade é sensação da alma, felicidade mora dentro de nós, não nos vem de coisas externas, mas nos ajuda a apreciá-las com contentamento. Já Bauman, nos reporta a "circunstâncias externas", que nos levam ao difícil equacionar menor liberdade e maior segurança, ou lidar com o eterno dilema maior liberdade e menor segurança.
Realço as análises do sociólogo Zigmunt Bauman sobre o que denomina uma "modernidade líquida", onde estamos cercados por contínua insegurança e permeabilidade, estranha liquidez decorrente de constante incerteza e instabilidade que veio para ficar ante a velocidade das mudanças nesse início de milênio, que se processam em tempo recorde também no mundo social, inclusive nas redes de relações que permeiam os laços humanos.
Bauman segue de perto, apreensivo e intrigado, as novas configurações sociais que se formam ante as vultuosas e rápidas transformações tecnológicas e alterações obrigatórias no "design" das condições humanas. Enfatiza uma das grandes dificuldades para não se ampliar o abismo entre as gerações do milênio, qual seja a necessidade de grande esforço e tolerância na aprendizagem de novos meios da comunicação no mundo das redes sociais.
Bauman pontua que observou a disparidade de significados no emprego de conceitos com sentidos arraigados, como é o caso da palavra "amigos". Tal fato vai obrigar a geração da pós-modernidade a uma maior atenção, constante parear e atualizar os sentidos, que parecem à primeira vista fugazes, dos conceitos, dentro dos contextos em que são empregados. Ter 500 amigos para um internauta contemporâneo é algo banal, mas muito estranho para aqueles que conviveram com contatos diretos, com o poder da troca de olhares, o fascínio dos toques, a sedução dos gestos cativantes... Contrastando, hoje basta clicar em uma tecla e conectar com um internauta recém conhecido na rede social mas que é logo incluído na categoria de amigo a quem se jura com convicção que o vínculo será duradouro. Porém, ante qualquer contrariedade esse amigo pode ser banido sem maiores comprometimentos afetivos com o mesmo clicar em teclas para seu deletar imediato do rol de amizades, sem a chatice de justificativas, desculpas e prováveis incômodos melindres. Não há nem tempo para "ser tocado pela perda" do então "amigo", pois o passar para 499 é por pouco tempo; no momento seguinte o teto dos 500 amigos novamente é preenchido com facilidade. A partir daí, a atenção de Bauman (segundo ele mesmo relata) foi despertada para o novo fenômeno da liquidez relativa no uso circunstancial dos significados de conceitos empregados cotidianamente.
Sobre as ideias de Zigmunt Bauman indico curtos vídeos disponíveis no Canal YouTube:
* Sobre redes sociais, laços humanos, liberdade e segurança
www.youtu.be/LcHTeDNIarU via @YouTube
* Sobre "Nós Hipotecamos o Futuro"
www.youtu.be/OcPD1pLdkoQ via @YouTube
* Sobre o mundo pós-moderno e a sociedade fragmentada (Fronteiras do Pensamento - Café Filosófico - CPFL) www.youtu.be/POZcBNo-D4A via @YouTube
Sem sombra de dúvida, o mundo virtual e a comunicação digital é um recurso amplo e eficaz, que possibilita melhor conviver com doenças em certos momentos limitantes, que se tornam um desafio para os portadores do soro positivo (HIV), ou para os obrigados a conviver com a AIDS e com os coquetéis de medicamentos, e seus efeitos colaterais. É preciso "aprender a se cuidar" para manterem o "status quo" de seu metabolismo. No entanto, é primordial, como diz Gasparetto, "colocar ordem dentro da cabeça, participar ativamente de atualizações das próprias ideias, com o banimento de crenças negativas e convicções disfuncionais, e com reestruturações positivas voltadas a ter uma vida boa". Para ele, "com cabeça ruim não vai ter vida boa, e cabeça boa é sinônimo de trabalho interno."
Então a prescrição é arregaçar as mangas!
Vamos ao trabalho, para saber melhor conviver conosco e com os desafios que a vida nos mandar, com coragem, sabedoria, serenidade e paciência?
Que tal começarmos por entender, o que precisamos aprender com as dificuldades que a vida nos brinda?
O que acham de nos orgulharmos por nosso contínuo enfrentamento dos obstáculos, de cabeça erguida - com honra e dignidade - e constante garra na superação?
Aurora Gite
P.S.: Qualquer dúvida quanto aos links entrem direto por www.twitter.com/thompsonlm
domingo, 22 de junho de 2014
Não mais conflito de gerações, agora é abismo entre gerações!
Não há mais como negar a grande separação existente entre a geração que se forma no milênio e as que a precederam. O mundo de valores convencionais e das tradições, como rede de referências a serem seguidas, se desmontou. O abismo é enorme com a nova geração, cria da internet e do mundo globalizado, cujos parâmetros são muitas vezes incompreensíveis a quem os precede, e que carregam como referência o respeito autoritário gerado pela comunicação hierárquica. Hoje essas relações verticais instauram mais caos ao já inexistente diálogo, pelas cobranças e exigências padronizadas por modelos obsoletos, se pensarmos no que é válido para os dias atuais.
Comunicações verticais nas redes globalizadas que demandam por relações horizontais, não funcionam mais... Se é que funcionaram algum dia!
Valeram para a construção de gerações que conseguem vivenciar a plenitude feliz, do que hoje se intitula, um estilo de vida qualificada?
Não acredito pois, de seus sobreviventes, poucos entendem o destino que assumiram e não se sentem tão autorrealizados, livres e felizes. Nem sabem ao certo o que os conceitos liberdade e felicidade significam para eles. E, se buscarem refletir sobre eles em sua vida, são tomados de enorme angústia para além da existência.
Se viveram aprisionados nas rédeas dos preconceitos hierárquicos e das crenças inquestionáveis, como poderiam abrir espaço não só no social, mas principalmente dentro de si para almejar pensar e lutar por um estilo de vida pessoal, alicerçado no bem estar social, na espontânea união familiar, no prazer de estar junto pelo convívio harmonioso, no cuidar do outro "por amor"; no aconchego sentido ao poder usufruir dessa qualidade na convivência com os que os cercam, movidos unicamente por uma "responsabilidade intrínseca autêntica" gerada por uma "ética-mor libertária", sem erros e acertos, culpas ou remorsos?
* Como não se sentirem amedrontados, inseguros e sem saber o que fazer com os filhos?
* Como ousarem agir ante vínculos mais significativos e amadurecidos, sem se acovardarem por se sentirem incapazes de lidar com as novas situações?
* Como se confrontarem com a estranheza dos comportamentos que vão exigir mudanças em seu modo de agir, se foram preparados para condutas rígidas e previstas, realizadas com facilidade?
* Como atuar com a nova geração que não mais aceita respostas fechadas, ou monólogos inflexíveis de donos da verdade, onde e os diálogos são dificeis de ocorrerem?
É visível que as relações, que envolvem gerações antecessoras, advindas do outro milênio , destoam totalmente das interações emergentes do século 21. É difícil, para os que fizeram parte delas, romper os efeitos e restaurar as sequelas decorrentes da educação repressiva a que foram submetidas. Viveram sob a égide de comandos paternais disciplinadores em excesso ou negligentes em demasia. Esses vínculos disfuncionais opressivos a que foram sujeitos, opressivos e repressivos onde por ser mãe ou pai outorgavam-se direitos sobre a vida e o próprio pensar dos filhos, não encontram mais espaço na rede afetiva horizontal. Mesmo instituídos por várias justificativas racionalizadas, não camuflam mais neste milênio o eco desconfortável da autoridade "que sabe mais", onde o falsete no "fiz por amor" exclui a resignação passiva ante qualquer ação superprotetora.
A mensagem "deixe de pensar", pois penso por você já que tenho mais experiência, ou "você é incapaz de pensar o melhor para você" então deixe que eu sei o que é melhor para você - são as mensagens por trás de frases como:
"- Faça, porque eu estou mandando! Sou sua mãe ( ou seu pai) e exijo que ..."
"- Por que não quer me ouvir? Tenho mais experiência que você."
"- Antigamente os mais velhos eram mais respeitados e melhor cuidados pelos filhos."
"- Não sei onde foi que eu errei na sua educação."
"- Você tem que me obedecer!"
"- Você me deve respeito e consideração!"
"- Você precisa... você deve... você me deve... você tem que..."
Não cabem mais numa sociedade participativa, solidária nas dificuldades e prazeres, compromissada por estar envolvida com a ordem e o progresso genuínos não corrompidos por interesses de pequenos grupos. Os papéis de liderança em uma relação não conferem mais o "status de poder sobre outro ser humano". O elo de comprometimento pessoal passou ao espaço afetivo conquistado dentro do vínculo interpessoal, cuja força amorosa precisa ser renovada constantemente, para que possa influenciar na vontade de crescer, evoluir e progredir, pilares para a produtividade individual e coletiva.
Ante tudo isso vale uma reflexão sobre as funções dos papéis envoltos nas interações básicas para o desenvolvimento humano: o que é ser pai? o que é ser mãe? o que é ser filho? o que é uma família? Essas funções sofreram profundas transformações ainda não assimiladas por muitos educadores não só familiares, mas de várias áreas sociais, aumentando o abismo entre as gerações.
É importante pontuar o abismo linguístico: tanto pelo surgimento de novos conceitos, neologismos alguns de difícil compreensão, como pelo acúmulo de informações, ante a rapidez com que se atropelam e se ultrapassam, sem tempo para serem incorporados aos códigos existentes e se tornarem conhecimentos úteis a serem aplicados no cotidiano de cada um.
Jorge Forbes (psicanalista) e Luc Ferry (filósofo) foram muito felizes, a meu ver, em suas reflexões sobre as transformações do século 21 e no perfil que traçaram sobre a geração que não demanda mais um "Você me entende, você me compreende?" mas busca nas interações saber "Tá ligado? Tá atento a mim e de que forma está sendo afetado pelo que eu digo?"
Forbes enfatiza a saída de uma sociedade padronizada com seus laços sociais verticais:verticalidade do pai, verticalidade do chefe, verticalidade da pátria na sociedade civil. sustentada de um lado pelo ser disciplinado e do outro pela rebeldia. A entrada na sociedade horizontal não tem um padrão como modelo, mas uma multiplicidade de comportamentos. Os conceitos antigos não dão mais conta de facultar a compreensão de sua dinâmica, muito menos encontrar, nesse período de transição, parâmetros que possibilitem estabelecer os valores sob os quais se erguerão os pilares das novas gerações.
Atualmente , segundo ele, não se pode dizer que os pais foram disciplinadores, nem suficientes, nem em excesso. Não adianta balizarmos nossas atuações focando os sonhos de um mundo anterior. É preciso que os educadores "percebam que cada criança, cada pessoa, vai ter que inventar a sua forma de ser, e que não é um inventar para ser qualquer coisa, é um inventar responsável". Continua Forbes, "eu diria que são as duas palavras do momento, invenção e responsabilidade, você tem que inventar e se responsabilizar por isso desde cedo na vida e o tempo inteiro; não há mais possibilidade de você fazer uma relação dependente, onde a responsabilidade é do outro. Com isso, a mudança na educação é muito grande. Como conseguir isso em meio a imensa crise na Educação como um todo? Como reconhecer padrões morais maiores e possibilitar ao educando diferenciar o que é consequente do que não é consequente?
A previsão de Forbes é ainda pessimista, nesse sentido. A seu ver, "nós não estamos preparados nesse novo laço social para dar um acolhimento à globalização". A isso acrescento que, sem dúvida, será muito custosa nossa adaptação e convivência harmônica, principalmente nesse período de passagem entre o mundo vertical com as certezas das claras referências, onde o outro e as tradições apontavam os caminhos a serem seguidos, para o mundo horizontal onde o ser humano é livre para decidir e se vê confrontado com várias alternativas para escolher, mas encontra-se mais vulnerável pela insegurança, indecisão e incerteza das circunstâncias que o cercam.
Embora tenha claro que, observando com a perspectiva de ontem, não se tenha mais a possibilidade real de uma avaliação da análise histórica do que ocorre no hoje, muito menos pode-se almejar o design do futuro ousando empreender visões prospectivas sobre as probabilidades, que poderão ocorrer no amanhã.
Algumas inquietações são constantes entre os pensadores atuais. As perguntas que não querem calar, e inquietam a muitos, são:
* Como lidar com circunstâncias tão mutáveis, tão maleáveis, tão voláteis, que requerem constantes reorganizações eficientes e eficazes, em espaços de tempo tão rápidos pois logo suas estruturas se tornam novamente obsoletas para conter os acelerados avanços sociais e a superficialidade dos 'vínculos internetizados' facilmente deletados?
* Como lidar com o impacto da existência real de um abismo entre gerações?
* Como ainda resistir às mudanças, não desviando o foco de intervenções, continuando sob a perspectiva vertical de conflito de gerações, buscando culpados por erros na educação de pais e filhos, particularmente?"
Segundo Ferry, para dar conta dessas angústias, a pedagogia e a nova filosofia do milênio estariam voltadas à uma "Revolução por Amor", atreladas à emergência de um "novo humanismo, que não é o de Voltaire ou de Kant; do Iluminismo, que era o humanismo da Razão, do Direito do Homem ... Estamos no Humanismo do Amor, é o amor que dá sentido às nossas vidas... Uma nova História começa a ser escrita, sob uma espiritualidade laica, não atrelada a instituições, mas a um fonte criativa e inovadora advinda do interior espiritual e ético de cada ser humano.
Eis algumas de suas reflexões que mobilizaram suas propostas de nova pedagogia:
* "Não se pode ter o mundo de consumo desenfreado, para que as empresas ganhem e tenham lucro, e as crianças sejam bem criadas. Essa é a grande contradição do mundo atual e da educação".
* "Redes sociais são novidades, uma grande revolução. Facebook é como uma praça pública".
* "É a banalização das amizades? Eu desconfio desse falso calor humano".
* "A mim importa mais a luta em prol dos valores humanos".
* "A Internet é sensacional, porque a imprensa tradicional está aprisionada pelo poder político? Não é verdade! A Internet é muito mais o mundo do rumor, das intrigas, do boato - tudo escondido atrás do anonimato, sem correr riscos".
* "Para mim, a Internet é grande liberdade e grande horror. Não é possível ser ingênuo em relação a isso".
A meu ver, no esboço das novas pedagogias ante o mundo globalizado se uniram a Ortega y Gasset (1883-1955)- jornalista, docente e filósofo- com sua pedagogia vital e sua postura perante a existência , tão bem expressa em sua frase célebre : Eu sou "eu mais as circunstâncias" que me cercam. De acordo com esse pensador, "essa vida que nos é dada, nos é dada vazia, e o homem tem que ir preenchendo-a, ocupando-a".
Existir implica assumir a vida enquanto tarefa que envolvem escolhas, opções pela vida, que se constituem em possibilidades de "criar a sua própria história".
Como não citar, outra famosa frase de Gasset, como ativista político e palestrista, que também foi vida à fora: "Debaixo de toda vida contemporânea se encontra latente uma injustiça"?
E recordar o exemplo de sua historia de vida, que não deixou de o mobilizar para novas lutas visando transformações sociais em prol da coletividade: "O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer, mas se reconhece e mostra seu claro e rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade".
Seu propósito pedagógico envolve uma concepção dinâmica do mundo e da vida humana dando primazia à razão vital. Criticava a formação dos professores porque ela estaria orientada para encaixar os alunos numa cultura rígida e previamente sistematizada. Dizia que "a escola tradicional educa para o ontem e não com vistas ao futuro, do mesmo modo que oferece um preparo individual, mas não para a vida em sociedade. Isso porque não leva em conta que cada aluno se articula, por uma rede de relações, as comunidades cada vez mais amplas".
Gasset propõe a existência de um "esforço pedagógico para evitar a rebelião das massas". O homem-massa gassetiano não se trata de uma classe, mas de uma forma de viver peculiar, como "homem esvaziado da própria história".
O homem, para esse pensador, passa a alcançar a dignidade do "homem-nobre" ao se lançar na existência e partilhar com os outros de um determinado contexto histórico... no contato com os outros é que vai elaborar o sentido de sua própria existência. Sendo assim, "o homem não tem outro remédio, senão fazer alguma coisa para manter-se na existência".
A Educação vira um instrumento para que cada um possa conscientizar-se de sua circunstância, relacionar-se com ela e superá-la.
Realça Gasset: "Se não a salvo, não me salvo eu".
Como não ter isso em mente, ante tantas dificuldade de superação para a integração no novo continuum do milênio?
Existem vários vídeos no Canal YouTube das palestras de Forbes e Ferry ministradas no programa Café Filosófico da TVCultura. Livros de Ortega Y Gasset como "Rebelião das Massas" e "El estudio sobre el amor" podem ser encontrados na Internet para download gratuitos, inclusive.
É grande minha admiração por profissionais, pensadores e escritores, que buscaram inovar com suas ideias, valorizaram sua obra, e se preocuparam em compartilhá-la com o mundo, através da criação de respectivas Fundações que carregam, em sua maioria, seus nomes. Sendo assim, vale uma visita à Fundação Ortega y Gasset.
Aurora Gite
Comunicações verticais nas redes globalizadas que demandam por relações horizontais, não funcionam mais... Se é que funcionaram algum dia!
Valeram para a construção de gerações que conseguem vivenciar a plenitude feliz, do que hoje se intitula, um estilo de vida qualificada?
Não acredito pois, de seus sobreviventes, poucos entendem o destino que assumiram e não se sentem tão autorrealizados, livres e felizes. Nem sabem ao certo o que os conceitos liberdade e felicidade significam para eles. E, se buscarem refletir sobre eles em sua vida, são tomados de enorme angústia para além da existência.
Se viveram aprisionados nas rédeas dos preconceitos hierárquicos e das crenças inquestionáveis, como poderiam abrir espaço não só no social, mas principalmente dentro de si para almejar pensar e lutar por um estilo de vida pessoal, alicerçado no bem estar social, na espontânea união familiar, no prazer de estar junto pelo convívio harmonioso, no cuidar do outro "por amor"; no aconchego sentido ao poder usufruir dessa qualidade na convivência com os que os cercam, movidos unicamente por uma "responsabilidade intrínseca autêntica" gerada por uma "ética-mor libertária", sem erros e acertos, culpas ou remorsos?
* Como não se sentirem amedrontados, inseguros e sem saber o que fazer com os filhos?
* Como ousarem agir ante vínculos mais significativos e amadurecidos, sem se acovardarem por se sentirem incapazes de lidar com as novas situações?
* Como se confrontarem com a estranheza dos comportamentos que vão exigir mudanças em seu modo de agir, se foram preparados para condutas rígidas e previstas, realizadas com facilidade?
* Como atuar com a nova geração que não mais aceita respostas fechadas, ou monólogos inflexíveis de donos da verdade, onde e os diálogos são dificeis de ocorrerem?
É visível que as relações, que envolvem gerações antecessoras, advindas do outro milênio , destoam totalmente das interações emergentes do século 21. É difícil, para os que fizeram parte delas, romper os efeitos e restaurar as sequelas decorrentes da educação repressiva a que foram submetidas. Viveram sob a égide de comandos paternais disciplinadores em excesso ou negligentes em demasia. Esses vínculos disfuncionais opressivos a que foram sujeitos, opressivos e repressivos onde por ser mãe ou pai outorgavam-se direitos sobre a vida e o próprio pensar dos filhos, não encontram mais espaço na rede afetiva horizontal. Mesmo instituídos por várias justificativas racionalizadas, não camuflam mais neste milênio o eco desconfortável da autoridade "que sabe mais", onde o falsete no "fiz por amor" exclui a resignação passiva ante qualquer ação superprotetora.
A mensagem "deixe de pensar", pois penso por você já que tenho mais experiência, ou "você é incapaz de pensar o melhor para você" então deixe que eu sei o que é melhor para você - são as mensagens por trás de frases como:
"- Faça, porque eu estou mandando! Sou sua mãe ( ou seu pai) e exijo que ..."
"- Por que não quer me ouvir? Tenho mais experiência que você."
"- Antigamente os mais velhos eram mais respeitados e melhor cuidados pelos filhos."
"- Não sei onde foi que eu errei na sua educação."
"- Você tem que me obedecer!"
"- Você me deve respeito e consideração!"
"- Você precisa... você deve... você me deve... você tem que..."
Não cabem mais numa sociedade participativa, solidária nas dificuldades e prazeres, compromissada por estar envolvida com a ordem e o progresso genuínos não corrompidos por interesses de pequenos grupos. Os papéis de liderança em uma relação não conferem mais o "status de poder sobre outro ser humano". O elo de comprometimento pessoal passou ao espaço afetivo conquistado dentro do vínculo interpessoal, cuja força amorosa precisa ser renovada constantemente, para que possa influenciar na vontade de crescer, evoluir e progredir, pilares para a produtividade individual e coletiva.
Ante tudo isso vale uma reflexão sobre as funções dos papéis envoltos nas interações básicas para o desenvolvimento humano: o que é ser pai? o que é ser mãe? o que é ser filho? o que é uma família? Essas funções sofreram profundas transformações ainda não assimiladas por muitos educadores não só familiares, mas de várias áreas sociais, aumentando o abismo entre as gerações.
É importante pontuar o abismo linguístico: tanto pelo surgimento de novos conceitos, neologismos alguns de difícil compreensão, como pelo acúmulo de informações, ante a rapidez com que se atropelam e se ultrapassam, sem tempo para serem incorporados aos códigos existentes e se tornarem conhecimentos úteis a serem aplicados no cotidiano de cada um.
Jorge Forbes (psicanalista) e Luc Ferry (filósofo) foram muito felizes, a meu ver, em suas reflexões sobre as transformações do século 21 e no perfil que traçaram sobre a geração que não demanda mais um "Você me entende, você me compreende?" mas busca nas interações saber "Tá ligado? Tá atento a mim e de que forma está sendo afetado pelo que eu digo?"
Forbes enfatiza a saída de uma sociedade padronizada com seus laços sociais verticais:verticalidade do pai, verticalidade do chefe, verticalidade da pátria na sociedade civil. sustentada de um lado pelo ser disciplinado e do outro pela rebeldia. A entrada na sociedade horizontal não tem um padrão como modelo, mas uma multiplicidade de comportamentos. Os conceitos antigos não dão mais conta de facultar a compreensão de sua dinâmica, muito menos encontrar, nesse período de transição, parâmetros que possibilitem estabelecer os valores sob os quais se erguerão os pilares das novas gerações.
Atualmente , segundo ele, não se pode dizer que os pais foram disciplinadores, nem suficientes, nem em excesso. Não adianta balizarmos nossas atuações focando os sonhos de um mundo anterior. É preciso que os educadores "percebam que cada criança, cada pessoa, vai ter que inventar a sua forma de ser, e que não é um inventar para ser qualquer coisa, é um inventar responsável". Continua Forbes, "eu diria que são as duas palavras do momento, invenção e responsabilidade, você tem que inventar e se responsabilizar por isso desde cedo na vida e o tempo inteiro; não há mais possibilidade de você fazer uma relação dependente, onde a responsabilidade é do outro. Com isso, a mudança na educação é muito grande. Como conseguir isso em meio a imensa crise na Educação como um todo? Como reconhecer padrões morais maiores e possibilitar ao educando diferenciar o que é consequente do que não é consequente?
A previsão de Forbes é ainda pessimista, nesse sentido. A seu ver, "nós não estamos preparados nesse novo laço social para dar um acolhimento à globalização". A isso acrescento que, sem dúvida, será muito custosa nossa adaptação e convivência harmônica, principalmente nesse período de passagem entre o mundo vertical com as certezas das claras referências, onde o outro e as tradições apontavam os caminhos a serem seguidos, para o mundo horizontal onde o ser humano é livre para decidir e se vê confrontado com várias alternativas para escolher, mas encontra-se mais vulnerável pela insegurança, indecisão e incerteza das circunstâncias que o cercam.
Embora tenha claro que, observando com a perspectiva de ontem, não se tenha mais a possibilidade real de uma avaliação da análise histórica do que ocorre no hoje, muito menos pode-se almejar o design do futuro ousando empreender visões prospectivas sobre as probabilidades, que poderão ocorrer no amanhã.
Algumas inquietações são constantes entre os pensadores atuais. As perguntas que não querem calar, e inquietam a muitos, são:
* Como lidar com circunstâncias tão mutáveis, tão maleáveis, tão voláteis, que requerem constantes reorganizações eficientes e eficazes, em espaços de tempo tão rápidos pois logo suas estruturas se tornam novamente obsoletas para conter os acelerados avanços sociais e a superficialidade dos 'vínculos internetizados' facilmente deletados?
* Como lidar com o impacto da existência real de um abismo entre gerações?
* Como ainda resistir às mudanças, não desviando o foco de intervenções, continuando sob a perspectiva vertical de conflito de gerações, buscando culpados por erros na educação de pais e filhos, particularmente?"
Segundo Ferry, para dar conta dessas angústias, a pedagogia e a nova filosofia do milênio estariam voltadas à uma "Revolução por Amor", atreladas à emergência de um "novo humanismo, que não é o de Voltaire ou de Kant; do Iluminismo, que era o humanismo da Razão, do Direito do Homem ... Estamos no Humanismo do Amor, é o amor que dá sentido às nossas vidas... Uma nova História começa a ser escrita, sob uma espiritualidade laica, não atrelada a instituições, mas a um fonte criativa e inovadora advinda do interior espiritual e ético de cada ser humano.
Eis algumas de suas reflexões que mobilizaram suas propostas de nova pedagogia:
* "Não se pode ter o mundo de consumo desenfreado, para que as empresas ganhem e tenham lucro, e as crianças sejam bem criadas. Essa é a grande contradição do mundo atual e da educação".
* "Redes sociais são novidades, uma grande revolução. Facebook é como uma praça pública".
* "É a banalização das amizades? Eu desconfio desse falso calor humano".
* "A mim importa mais a luta em prol dos valores humanos".
* "A Internet é sensacional, porque a imprensa tradicional está aprisionada pelo poder político? Não é verdade! A Internet é muito mais o mundo do rumor, das intrigas, do boato - tudo escondido atrás do anonimato, sem correr riscos".
* "Para mim, a Internet é grande liberdade e grande horror. Não é possível ser ingênuo em relação a isso".
A meu ver, no esboço das novas pedagogias ante o mundo globalizado se uniram a Ortega y Gasset (1883-1955)- jornalista, docente e filósofo- com sua pedagogia vital e sua postura perante a existência , tão bem expressa em sua frase célebre : Eu sou "eu mais as circunstâncias" que me cercam. De acordo com esse pensador, "essa vida que nos é dada, nos é dada vazia, e o homem tem que ir preenchendo-a, ocupando-a".
Existir implica assumir a vida enquanto tarefa que envolvem escolhas, opções pela vida, que se constituem em possibilidades de "criar a sua própria história".
Como não citar, outra famosa frase de Gasset, como ativista político e palestrista, que também foi vida à fora: "Debaixo de toda vida contemporânea se encontra latente uma injustiça"?
E recordar o exemplo de sua historia de vida, que não deixou de o mobilizar para novas lutas visando transformações sociais em prol da coletividade: "O destino não consiste naquilo que temos vontade de fazer, mas se reconhece e mostra seu claro e rigoroso perfil na consciência de ter que fazer o que não está na nossa vontade".
Seu propósito pedagógico envolve uma concepção dinâmica do mundo e da vida humana dando primazia à razão vital. Criticava a formação dos professores porque ela estaria orientada para encaixar os alunos numa cultura rígida e previamente sistematizada. Dizia que "a escola tradicional educa para o ontem e não com vistas ao futuro, do mesmo modo que oferece um preparo individual, mas não para a vida em sociedade. Isso porque não leva em conta que cada aluno se articula, por uma rede de relações, as comunidades cada vez mais amplas".
Gasset propõe a existência de um "esforço pedagógico para evitar a rebelião das massas". O homem-massa gassetiano não se trata de uma classe, mas de uma forma de viver peculiar, como "homem esvaziado da própria história".
O homem, para esse pensador, passa a alcançar a dignidade do "homem-nobre" ao se lançar na existência e partilhar com os outros de um determinado contexto histórico... no contato com os outros é que vai elaborar o sentido de sua própria existência. Sendo assim, "o homem não tem outro remédio, senão fazer alguma coisa para manter-se na existência".
A Educação vira um instrumento para que cada um possa conscientizar-se de sua circunstância, relacionar-se com ela e superá-la.
Realça Gasset: "Se não a salvo, não me salvo eu".
Como não ter isso em mente, ante tantas dificuldade de superação para a integração no novo continuum do milênio?
Existem vários vídeos no Canal YouTube das palestras de Forbes e Ferry ministradas no programa Café Filosófico da TVCultura. Livros de Ortega Y Gasset como "Rebelião das Massas" e "El estudio sobre el amor" podem ser encontrados na Internet para download gratuitos, inclusive.
É grande minha admiração por profissionais, pensadores e escritores, que buscaram inovar com suas ideias, valorizaram sua obra, e se preocuparam em compartilhá-la com o mundo, através da criação de respectivas Fundações que carregam, em sua maioria, seus nomes. Sendo assim, vale uma visita à Fundação Ortega y Gasset.
Aurora Gite
domingo, 8 de junho de 2014
"Sem lugar para se esconder"
Estou na metade da leitura de "Sem lugar para se esconder: Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano". Acredito que os três - Governo Americano, NSA e Snowden - ficarão expostos, de tal forma, que estarão "sem lugar para se esconder a partir de agora e por um bom tempo" ocupando as páginas dos noticiários e nas entrevistas midiáticas, além da legalidade de seus atos estarem sob investigação, reflexão ética e discussão no meio político e judiciário.
Já na metade e ainda me considero surpresa! Continuo lendo, agora com um misto de afã, de curiosidade e de admiração por seus protagonistas reais.
Esse livro do jornalista Glenn Greenwald, com seu estilo simples, bem descritivo dentro de seu jornalismo investigativo, me cativou logo de início. Seus parágrafos curtos onde o conteúdo das ideias eram espalhados com parcimônia e cuidado, para que o leitor seguisse de perto suas associações, me auxiliaram muito na compreensão de um material tão complexo.
Estava evidente a "violação dos direitos humanos" pela "vigilância em massa" da população americana e não só, os abusos na autorização de "programas de espionagem sem nenhuma prestação de contas" e o mais grave com a permissão de reduzido grupo nos escalões mais próximos ao próprio presidente americano, portanto, nem sempre tendo a permissão direta do mesmo. Outra variável que é exposta é a submissão de parte da imprensa, que se dispõe a publicar material passado diretamente pelo governo para divulgação, ou filtrado por ele com o carimbo de "publicável". Tudo chega aos leitores com o caráter de verdade, de representação de fatos autênticos, quando na verdade são falseados a bel prazer dos governantes, exercendo seu poder, propalado e fictício, de protecionistas da nação.
Continuo indicando a todos!
Retrata o mundo globalizado, o papel da internet e rede de telefonia como veículos de vigilância em massa de pessoas, que têm seu sigilo e privacidade invadidos, sem as devidas permissões jurídicas conseguidas anteriormente, sendo então explicitado e analisado previamente o motivo para que tal concessão ocorresse.
Uma via de comunicação em tempo instantâneo e globalizante, uma das maiores, senão a maior responsável pela transformação cultural do milênio, pode-se tornar enorme perigo aos ideais humanísticos e democráticos de igualdade, fraternidade e liberdade, se não houver, com urgência, uma fiscalização legal efetiva, embora no Brasil a aprovação de um "Marco Civil", sinalizando alguns parâmetros referenciais, já tenha sido um primeiro passo importante.
A perseguição a jornalistas independentes e corajosos, que tenham audácia para investir na luta para que suas matérias sejam publicadas, sem a devida aprovação e cortes dos respectivos governos é essencial para evitar uma farsa midiática. À tentativa de colocar a mordaça em uma imprensa livre, vai se aliar a colocação de uma venda na Justiça, se não se puder contar com respaldo jurídico para fontes e denúncias "contra abusos ilegais por representantes governistas", que se escondem atrás do sigilo e da não necessidade de prestação de contas do que fazem à sociedade, como um todo, e aos políticos, que representam essa sociedade.
Greenwald nos leva a refletir sobre a "encruzilhada histórica" que vivemos e sobre os "abusos", que cercam a vigilância ilegal em "politicas extremistas". A tecnologia evoluiu e, segundo ele, a vigilância evoluiu: sistemas de vigilância em massa converteram a internet em "monitoramento intrusivo e repressivo", sem que os usuários sequer se deem conta da extensão do que realmente esteja ocorrendo com suas vidas, pois acreditam nos governos protetores do seu bem estar e zeladores por sua segurança. O que foi exposto com os documentos apresentados é que o que ocorre ao nosso redor é, pelo contrário, bem a nível dos controles centralizadores e autoritários "orwellianos".
Realmente podemos observar o design de nova configuração social, novas formas de integração grupal, um nivelamento entre indivíduos com diferentes graus de poder. A internet, o anonimato, a democratização do discurso político sem compromisso efetivo que demonstre sua eficácia, sem programas de governo que contem com o envolvimento na aplicação prática, sem representantes do governo que sigam na avaliação de sua implantação e devida eficiência após eleitos. Inegável é que esse quadro está propiciando o "desenvolvimento de novas personalidades (novas maneiras de ser e existir no mundo) e de novas expressões das individualidades". O próprio Snowden se considera uma "cria da internet", se transformando em testemunho vivo da geração cibernética do milênio, cujo perfil vai ficando cada vez mais fácil de se delinear.
Considerando, no entanto, as circunstâncias atuais com tantas mobilizações agressivas e violentas reivindicações sociais, espocando em várias partes do mundo, é importante enfatizar que a natureza humana tem uma resistência limitada às tentações. A barbárie social, do momento, vai muito além do repúdio a diferenças de opiniões, investidas a medidas frustrantes intoleráveis, rejeição e desrespeito a limites necessários para uma boa, ou razoável que seja, convivência social interpessoal. A preservação dos bens coletivos, a busca da manutenção da vida pacífica em sociedade, o cultivo do amor à pátria... perderam seu sentido e valor, e são atacados de forma grosseira e irracional.
A meu ver, hoje constatamos a marca da "era do ódio", destruições de patrimônios e mutilações de vida ocorrem não mais por inveja ou vingança. Penso que o "sadismo maquiavélico" se estende aos regimes tirânicos de tortura, à criatividade inovadora das espionagens, aos "controles orwwellianos", ao cinismo e manipulação de fatos, que ganham maquiagens de "verdades nobres e justas".
Assim entraria Snowden na farsa dos "delatores que são demonizados como pessoas solitárias ou perdedoras, que agem movidos pela alienação e frustração de uma vida fracassada" , se não fosse o casamento perfeito de ideais, entre ele e Greenwald, voltados à luta por um bem maior coletivo e pelo direito de defesa, de cada indivíduo, em prol da integridade e dignidade de sua alma e da nobreza de seu caráter.
Snowden embasou sua escolha para entregar os documentos a Greenwald, por considerá-lo um jornalista responsável, honesto e integro que iria divulgá-los sem espetacularização, mas com a seriedade que demandavam. Greenwald permitiu a aproximação de Snowden com cautela e movido por sua própria intuição, algo lhe dizia internamente para ir atrás da ferrenha determinação e convicção moral desse jovem analista de sistemas, nascido a 21 de junho de 1983. "Não sei explicar por quê, mas minha intuição me diz que esse cara está falando sério, que ele é exatamente quem diz ser." (p.23)
Impressionante a tranquilidade de Snowden nas entrevistas em vídeo. Sua postura serena era o campo ideal para convencer, com seu discurso coerente e lúcido, dos objetivos e intenções que cercavam suas ações. A cada vídeo seu, buscava indícios de um megalomaníaco com tendências de se tornar um salvador do mundo, um candidato ao posto de celebridade mundial, um indivíduo vingativo buscando revidar ofensas e humilhações, ou um "kamikase" se orgulhando de participar de um ataque suicida! Mas era justamente o contrário, que saltava aos olhos. Tudo direcionava para ser Snowden uma pessoa "especial", uma "agulha no palheiro" social.
Atentem a seu vocabulário, onde encontramos termos e expressões como: dignidade, nobreza, valores e virtudes pessoais, integridade e reconhecimento da influência positiva dos pais, preservação da família por amor e gratidão a seus membros que o criaram, respeito à sociedade, solidariedade e cooperação com o coletivo, patriotismo, amor à nação...
Destaco algumas frases de Snowden, desse jovem de 29 anos então, retiradas do livro de Greenwald:
* "A real medida do valor de alguém não é aquilo em que a pessoa diz acreditar, mas o que ela faz, para defender essas crenças." (p.54)
* "Se você não age de acordo com as suas crenças, é provável que elas não sejam sinceras."
* "Só poderia estar agindo moralmente caso estivesse disposto a sacrificar os próprios interesses em prol de um bem maior."
* "Cresci lendo muita mitologia grega...tirei lições: Somos nós que damos significado à vida, com nossas ações e as histórias que criamos com elas."
* "A cidadania traz consigo um dever de policiar o próprio governo: percebi que o meu só permite uma supervisão limitada e se recusa a prestar contas."
* " Sim, estou feliz. O custo foi muito alto, mas como não se sentir feliz se consigo dormir e levantar com a satisfação de ter feito a coisa certa? Fiz o que devia fazer: Um povo tem o direito de escolher a forma de sociedade em que almeja viver".
Snowden e Greenwald detalham a sofisticação dos sistemas de espionagem governamentais que não respeitam nem as normas legais nem alianças entre nações. Não se intimidam em descrever os conluios de muitos setores midiáticos e o filtro governamental sobre as matérias a serem publicadas depois dessa intervenção.
Sendo assim, indico:
"Sem lugar para se esconder: Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano". Glenn Greenwald. Rio da Janeiro: Sextante, 2014.
E, como cidadã, empunho uma placa com esses dizeres:
"Procura-se pessoa honesta com firmeza ética, que ouse amputar de vez sistemas movidos por alianças corruptas e modelos jurídicos disfuncionais."
No momento, aguardo, com grande expectativa, a decisão do governo brasileiro, sobre o pedido de asilo de Edward Snowden. Manifesto meu receio de não concessão!
Penso alto:" Que ingenuidade, os que defendem a Justiça, acharem que existe respeito a ela, dos que se cobrem com o manto da impunidade, e bradam por defesa com o cetro, que permite manipulação a seu favor dos princípios legais!"
Seria ingenuidade minha, se não concordasse com Snowden que, em sua lucidez, reconhece que: "Só teria um julgamento justo, se lhe dessem direito de autodefesa e não o condenassem a priori como traidor, como muitos estão sendo induzidos a fazer por difamadores e caluniadores...frustrados em sua intenção de obter mais poder para si, sem necessitar prestar contas à sociedade."
Snowden tem bem claro para si que "só lhe seria feita Justiça" se analisassem seu gesto sob o prisma de estar "denunciando abusos governamentais, para que uma imprensa livre, embasada em estatutos responsáveis e legais, os divulgasse", com a finalidade principal de que todos "cidadãos atingidos" tivessem ciência, e pudessem decidir, livres e democraticamente, as medidas legais a tomar. Adotar uma "postura omissa e negligente" é que o faria "trair a si mesmo" e, nesse sentido, sua "consciência moral não o deixava aquietar e serenar".
Tinha a plena convicção dentro de si, motivo de sua tranquilidade interior, de estar fazendo o que era certo ao não continuar encobrindo tais fatos. Os documentos coletados e tornados públicos (não vendidos a nações inimigas), eram as evidências indiscutíveis de quem eram os verdadeiros traidores da pátria e da sociedade. Mas as leis, da forma como estão redigidas, ainda os inocentam, e culpam os que ousam denunciar os delitos abusivos desses "poderosos", que são abertamente resguardados juridicamente por elas.
Snowden reitera, nas entrevistas, sua lealdade aos Estados Unidos. Seu compromisso de continuar trabalhando com o governo americano, buscando melhorar a segurança cibernética, cujas falhas já demonstrou, mas dentro dos padrões legais e do bem estar coletivo; não apadrinhando interesses pessoais voltados a "conquista de poder e mais poder", mentiras e falseamento da verdade.
Como patriota, concordo com a nobreza de seu amor à pátria.
Como pessoa, admiro sua lealdade a si mesmo e seu empenho em preservar sua dignidade pessoal.
Faço parte das 1.200.000 ( "hum milhão e duzentos mil" ) assinaturas endossando a concessão de seu pedido de asilo, o convidando para vir para o Brasil!
Aurora Gite
Já na metade e ainda me considero surpresa! Continuo lendo, agora com um misto de afã, de curiosidade e de admiração por seus protagonistas reais.
Esse livro do jornalista Glenn Greenwald, com seu estilo simples, bem descritivo dentro de seu jornalismo investigativo, me cativou logo de início. Seus parágrafos curtos onde o conteúdo das ideias eram espalhados com parcimônia e cuidado, para que o leitor seguisse de perto suas associações, me auxiliaram muito na compreensão de um material tão complexo.
Estava evidente a "violação dos direitos humanos" pela "vigilância em massa" da população americana e não só, os abusos na autorização de "programas de espionagem sem nenhuma prestação de contas" e o mais grave com a permissão de reduzido grupo nos escalões mais próximos ao próprio presidente americano, portanto, nem sempre tendo a permissão direta do mesmo. Outra variável que é exposta é a submissão de parte da imprensa, que se dispõe a publicar material passado diretamente pelo governo para divulgação, ou filtrado por ele com o carimbo de "publicável". Tudo chega aos leitores com o caráter de verdade, de representação de fatos autênticos, quando na verdade são falseados a bel prazer dos governantes, exercendo seu poder, propalado e fictício, de protecionistas da nação.
Continuo indicando a todos!
Retrata o mundo globalizado, o papel da internet e rede de telefonia como veículos de vigilância em massa de pessoas, que têm seu sigilo e privacidade invadidos, sem as devidas permissões jurídicas conseguidas anteriormente, sendo então explicitado e analisado previamente o motivo para que tal concessão ocorresse.
Uma via de comunicação em tempo instantâneo e globalizante, uma das maiores, senão a maior responsável pela transformação cultural do milênio, pode-se tornar enorme perigo aos ideais humanísticos e democráticos de igualdade, fraternidade e liberdade, se não houver, com urgência, uma fiscalização legal efetiva, embora no Brasil a aprovação de um "Marco Civil", sinalizando alguns parâmetros referenciais, já tenha sido um primeiro passo importante.
A perseguição a jornalistas independentes e corajosos, que tenham audácia para investir na luta para que suas matérias sejam publicadas, sem a devida aprovação e cortes dos respectivos governos é essencial para evitar uma farsa midiática. À tentativa de colocar a mordaça em uma imprensa livre, vai se aliar a colocação de uma venda na Justiça, se não se puder contar com respaldo jurídico para fontes e denúncias "contra abusos ilegais por representantes governistas", que se escondem atrás do sigilo e da não necessidade de prestação de contas do que fazem à sociedade, como um todo, e aos políticos, que representam essa sociedade.
Greenwald nos leva a refletir sobre a "encruzilhada histórica" que vivemos e sobre os "abusos", que cercam a vigilância ilegal em "politicas extremistas". A tecnologia evoluiu e, segundo ele, a vigilância evoluiu: sistemas de vigilância em massa converteram a internet em "monitoramento intrusivo e repressivo", sem que os usuários sequer se deem conta da extensão do que realmente esteja ocorrendo com suas vidas, pois acreditam nos governos protetores do seu bem estar e zeladores por sua segurança. O que foi exposto com os documentos apresentados é que o que ocorre ao nosso redor é, pelo contrário, bem a nível dos controles centralizadores e autoritários "orwellianos".
Realmente podemos observar o design de nova configuração social, novas formas de integração grupal, um nivelamento entre indivíduos com diferentes graus de poder. A internet, o anonimato, a democratização do discurso político sem compromisso efetivo que demonstre sua eficácia, sem programas de governo que contem com o envolvimento na aplicação prática, sem representantes do governo que sigam na avaliação de sua implantação e devida eficiência após eleitos. Inegável é que esse quadro está propiciando o "desenvolvimento de novas personalidades (novas maneiras de ser e existir no mundo) e de novas expressões das individualidades". O próprio Snowden se considera uma "cria da internet", se transformando em testemunho vivo da geração cibernética do milênio, cujo perfil vai ficando cada vez mais fácil de se delinear.
Considerando, no entanto, as circunstâncias atuais com tantas mobilizações agressivas e violentas reivindicações sociais, espocando em várias partes do mundo, é importante enfatizar que a natureza humana tem uma resistência limitada às tentações. A barbárie social, do momento, vai muito além do repúdio a diferenças de opiniões, investidas a medidas frustrantes intoleráveis, rejeição e desrespeito a limites necessários para uma boa, ou razoável que seja, convivência social interpessoal. A preservação dos bens coletivos, a busca da manutenção da vida pacífica em sociedade, o cultivo do amor à pátria... perderam seu sentido e valor, e são atacados de forma grosseira e irracional.
A meu ver, hoje constatamos a marca da "era do ódio", destruições de patrimônios e mutilações de vida ocorrem não mais por inveja ou vingança. Penso que o "sadismo maquiavélico" se estende aos regimes tirânicos de tortura, à criatividade inovadora das espionagens, aos "controles orwwellianos", ao cinismo e manipulação de fatos, que ganham maquiagens de "verdades nobres e justas".
Assim entraria Snowden na farsa dos "delatores que são demonizados como pessoas solitárias ou perdedoras, que agem movidos pela alienação e frustração de uma vida fracassada" , se não fosse o casamento perfeito de ideais, entre ele e Greenwald, voltados à luta por um bem maior coletivo e pelo direito de defesa, de cada indivíduo, em prol da integridade e dignidade de sua alma e da nobreza de seu caráter.
Snowden embasou sua escolha para entregar os documentos a Greenwald, por considerá-lo um jornalista responsável, honesto e integro que iria divulgá-los sem espetacularização, mas com a seriedade que demandavam. Greenwald permitiu a aproximação de Snowden com cautela e movido por sua própria intuição, algo lhe dizia internamente para ir atrás da ferrenha determinação e convicção moral desse jovem analista de sistemas, nascido a 21 de junho de 1983. "Não sei explicar por quê, mas minha intuição me diz que esse cara está falando sério, que ele é exatamente quem diz ser." (p.23)
Impressionante a tranquilidade de Snowden nas entrevistas em vídeo. Sua postura serena era o campo ideal para convencer, com seu discurso coerente e lúcido, dos objetivos e intenções que cercavam suas ações. A cada vídeo seu, buscava indícios de um megalomaníaco com tendências de se tornar um salvador do mundo, um candidato ao posto de celebridade mundial, um indivíduo vingativo buscando revidar ofensas e humilhações, ou um "kamikase" se orgulhando de participar de um ataque suicida! Mas era justamente o contrário, que saltava aos olhos. Tudo direcionava para ser Snowden uma pessoa "especial", uma "agulha no palheiro" social.
Atentem a seu vocabulário, onde encontramos termos e expressões como: dignidade, nobreza, valores e virtudes pessoais, integridade e reconhecimento da influência positiva dos pais, preservação da família por amor e gratidão a seus membros que o criaram, respeito à sociedade, solidariedade e cooperação com o coletivo, patriotismo, amor à nação...
Destaco algumas frases de Snowden, desse jovem de 29 anos então, retiradas do livro de Greenwald:
* "A real medida do valor de alguém não é aquilo em que a pessoa diz acreditar, mas o que ela faz, para defender essas crenças." (p.54)
* "Se você não age de acordo com as suas crenças, é provável que elas não sejam sinceras."
* "Só poderia estar agindo moralmente caso estivesse disposto a sacrificar os próprios interesses em prol de um bem maior."
* "Cresci lendo muita mitologia grega...tirei lições: Somos nós que damos significado à vida, com nossas ações e as histórias que criamos com elas."
* "A cidadania traz consigo um dever de policiar o próprio governo: percebi que o meu só permite uma supervisão limitada e se recusa a prestar contas."
* " Sim, estou feliz. O custo foi muito alto, mas como não se sentir feliz se consigo dormir e levantar com a satisfação de ter feito a coisa certa? Fiz o que devia fazer: Um povo tem o direito de escolher a forma de sociedade em que almeja viver".
Snowden e Greenwald detalham a sofisticação dos sistemas de espionagem governamentais que não respeitam nem as normas legais nem alianças entre nações. Não se intimidam em descrever os conluios de muitos setores midiáticos e o filtro governamental sobre as matérias a serem publicadas depois dessa intervenção.
Sendo assim, indico:
"Sem lugar para se esconder: Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano". Glenn Greenwald. Rio da Janeiro: Sextante, 2014.
E, como cidadã, empunho uma placa com esses dizeres:
"Procura-se pessoa honesta com firmeza ética, que ouse amputar de vez sistemas movidos por alianças corruptas e modelos jurídicos disfuncionais."
No momento, aguardo, com grande expectativa, a decisão do governo brasileiro, sobre o pedido de asilo de Edward Snowden. Manifesto meu receio de não concessão!
Penso alto:" Que ingenuidade, os que defendem a Justiça, acharem que existe respeito a ela, dos que se cobrem com o manto da impunidade, e bradam por defesa com o cetro, que permite manipulação a seu favor dos princípios legais!"
Seria ingenuidade minha, se não concordasse com Snowden que, em sua lucidez, reconhece que: "Só teria um julgamento justo, se lhe dessem direito de autodefesa e não o condenassem a priori como traidor, como muitos estão sendo induzidos a fazer por difamadores e caluniadores...frustrados em sua intenção de obter mais poder para si, sem necessitar prestar contas à sociedade."
Snowden tem bem claro para si que "só lhe seria feita Justiça" se analisassem seu gesto sob o prisma de estar "denunciando abusos governamentais, para que uma imprensa livre, embasada em estatutos responsáveis e legais, os divulgasse", com a finalidade principal de que todos "cidadãos atingidos" tivessem ciência, e pudessem decidir, livres e democraticamente, as medidas legais a tomar. Adotar uma "postura omissa e negligente" é que o faria "trair a si mesmo" e, nesse sentido, sua "consciência moral não o deixava aquietar e serenar".
Tinha a plena convicção dentro de si, motivo de sua tranquilidade interior, de estar fazendo o que era certo ao não continuar encobrindo tais fatos. Os documentos coletados e tornados públicos (não vendidos a nações inimigas), eram as evidências indiscutíveis de quem eram os verdadeiros traidores da pátria e da sociedade. Mas as leis, da forma como estão redigidas, ainda os inocentam, e culpam os que ousam denunciar os delitos abusivos desses "poderosos", que são abertamente resguardados juridicamente por elas.
Snowden reitera, nas entrevistas, sua lealdade aos Estados Unidos. Seu compromisso de continuar trabalhando com o governo americano, buscando melhorar a segurança cibernética, cujas falhas já demonstrou, mas dentro dos padrões legais e do bem estar coletivo; não apadrinhando interesses pessoais voltados a "conquista de poder e mais poder", mentiras e falseamento da verdade.
Como patriota, concordo com a nobreza de seu amor à pátria.
Como pessoa, admiro sua lealdade a si mesmo e seu empenho em preservar sua dignidade pessoal.
Faço parte das 1.200.000 ( "hum milhão e duzentos mil" ) assinaturas endossando a concessão de seu pedido de asilo, o convidando para vir para o Brasil!
Aurora Gite
domingo, 25 de maio de 2014
"Ela", ou "Her" se preferirem!
Afinal tive a oportunidade de assistir ao filme "Her" (2013). Recebe no Brasil o nome de "Ela" (tradução literal), e em Portugal é chamado de "Uma História de Amor". Vale conferir qual seria o mais adequado!
Ao ler sobre a produção (escrito,dirigido e produzido por Spike Jonze), a escolha do elenco e as dificuldades com o desenvolvimento do filme (via Wikipedia), além da sinopse desse "filme estadunidense" (Warner Bros.) atraiu minha atenção a singularidade inventiva do "script" e a caracterização no gênero comédia dramática, ficção científica e romance . Não é sempre que nos deparamos com articulações originais dentro de um roteiro intrigante.
Como negar que me causou grande impacto "como" o diretor (Spike Jonze) manipulou as cenas "ampliando o efeito" das ações mais paradas dentro de um desenrolar lento e cenografia menos ofuscante, e "como procurou" dar maior ênfase às mensagens transmitidas pelos atores: ou afetando as maneiras como podem "tocar a quem as assiste", jogando camisas com tons quentes e cores estimulantes, amarelas ou vermelhas, sobre o corpo bem talhado de Theodore, ou agregando até um fundo vermelho na tela do computador, cor que mais acrescia calor às entonações de voz de Samantha.
Procuro excluir os coadjuvantes, pois pouco me afetaram. Realço os papéis desempenhados por Joaquin Phoenix ("Theodore") como ator principal em sua performance fisionômica e gestual, contracenando, não se espantem, com uma voz, a voz de Scarlett Johansson (sistema operacional - escolhido por Theodore como feminino - que se autodenomina "Samantha").
Não tendo assistido ao filme e se tiveram sua curiosidade despertada, lendo a sinopse (Wikipedia) vão observar que a história, além de "explorar a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia", faz um recorte do estado depressivo de um escritor solitário ainda em processo de elaboração de uma separação conjugal e já tendo que enfrentar novo luto ante a assinatura do divórcio. Com ela urgia a liberação de um espaço interno até então preenchido com a história de vida do casal, onde um representou - ou ainda representa - parte viva, de cada um, no outro.
A vivência dos momentos vividos juntos não passaram a fazer parte de lembranças, soltas e livres, para serem recordadas fazendo parte de um passado distante, mas guardam características de vivências longínquas ainda vivificadas, interferindo nas ações presentes pela mumificação dos vínculos afetivos. Não acredito na expressão "enterrar defuntos", querendo significar "pessoas que passam a nos ser totalmente indiferentes, que morrem dentro de nós, que a história vivida em comum seja simplesmente apagada sem deixar nenhuma marca na memória".
Nas separações conjugais - nesses encontros de forças pessoais - são partes nossas que necessitam ser alteradas com ou sem a presença do outro. Significam o resgate de nossas forças individuais, que foram depositadas no parceiro, dando significado ao vínculo e sentido à relação estabelecida. Sem a separação virtual do que é nosso e do que é do parceiro, fica difícil desenergizar a potência do vínculo das parcerias, impedindo que nos afetem emocionalmente, para que decisões racionais possam ter peso eficiente, efetivo e eficaz.
Reparem as circunstâncias que envolvem o adeus de Samantha e a mudança no comportamento de Theodore, o pareamento com a assinatura do divórcio e a interrupção do encadeamento de imagens afetivas das cenas da vida a dois. "É difícil se constatar em um casal, como o crescimento de um, sem que o outro evolua por seu lado, implica no distanciamento da parceria". A quebra do canal de comunicação, entre os envolvidos, implica no aumento da solidão de cada um. A perda da energia no elo afetivo - onde cada um é afetado pelo encontro de forças ativas no outro, mantenedor do encanto, da atração e da integridade da união pacífica e harmoniosa entre eles - torna-se visível pelas brigas constantes por motivos por vezes irrelevantes. "A expectativa é que o outro se torne aquilo que ele não é" torna-se o indicador do rompimento interno da ligação afetiva amorosa.
Minhas leituras sobre a vida, principalmente depois de ler Espinosa, e de agregar, por considerar pertinente, algumas ideias desse filósofo a minhas vivências diárias, recaem sobre o trânsito constante de nosso "pensar" entre seus três gêneros de conhecimento. Sendo assim, o fenômeno amoroso torna-se passível de ser lido e compreendido sob a perspectiva de cada um desses conhecimentos, dependendo do grau de elevação de cada indivíduo (salto quântico a meu ver):
*1- conhecimentos obtidos pela imaginação, que correspondem a nossa ilusões e fantasias, ideias inadequadas pois contém sempre as marcas e significações da consciência;
*2- os obtidos através da razão, que fazem parte das noções de entendimento comuns, ideias adequadas que passam por todos os processos das articulações lógicas;
*3- conhecimentos que nos elevam eticamente, pertencentes ao campo da ciência intuitiva, perceptível pela escuta, através da intuição, da sensação plena da serena alegria da alma , e da expansão gratificante da espontaneidade rica de um viver genuíno, criativo e inovador.
Espinosa considera que se deve sempre "pensar o Inconsciente como um campo de forças, de devires e de produção" e "não como campo de significações, de fantasmas, de terrores, de superstições e tolices". Sua leitura não se volta a essas interpretações, mas à qualidade das intensidades das forças que vão atuar dentro de cada um de nós.
Para esse filósofo, a Natureza (ou Deus, ou energia, ou campo de forças) e as relações humanas são encontros de forças, representando energias em intensidades diferentes. Sendo assim, alianças e parcerias, que nos agreguem valor e expandam nossa potência no viver, devem ser estimuladas; e devem ser rejeitados ou abandonados, os vínculos que destruam nosso potencial integrativo e diminuam nossa força interior, ou seja, a intensidade da energia interna mobilizada pela alma ou pelo querer espontâneo do ser humano.
Nesse sentido, lembranças são "pensamentos vivos, energias latentes pulsantes na vida mental" de quem teve real afetividade amorosa; "ganham vida própria na manutenção do vínculo", e na vontade de mudá-lo, para que diminua seu potencial de atuação em nosso psiquismo, se estiverem nos afetando negativamente em detrimento do patrimônio psíquico que impulsiona nossa vontade de evoluir como ser humano. O "pensar" pode trilhar livremente pelos três gêneros de conhecimento espinosistas. E é esse movimento livre do pensar que vai caracterizar a liberdade a ser alcançada pelo ser humano emocionalmente amadurecido.
Vale registrar mais algumas frases do filme como: -"Nenhum de nós é a pessoa de um minuto atrás.";-"Como isso pode afetar você?";-"Eu não sou como você, mas isso não significa que vou te amar menos." A cada interação com os humanos, a máquina, ou o sistema operacional, aumentava sua inteligência com novas sinapses artificiais. -"Deixei-me ver como você queria!"; -"Os sistemas operacionais estão indo, parto com eles... não sou a mesma, não posso mais ler livros simplesmente, ou colocar ordem em sua agenda...sempre vou levar um pedaço de você".
Como não associar com a "arte da entrega amorosa" e evitar críticas do primeiro e segundo gêneros espinosistas de conhecimento, que envolvem questionamentos sobre "aberrações humanas ou formas aceitáveis de loucura"?
Como não assimilar alguns diálogos com mensagens educativas sobre relações de força entre encontros, que propiciam crescimento, criação e invenção, novas energias e expansão de potencial próprio?
Como não sentir o fortalecimento de vínculos afetivos no respeito às individualidades, e a manutenção de elos amorosos na tolerância às diferenças?
Como não perceber a importância da renovação do vínculo a cada minuto, dentro de cada um: pela aceitação das diferenças, desvelamento (entrega) contínuo ao outro e curiosidade respeitosa agregadora de mais saber sobre o outro?
Como não enfatizar essas pistas, para que os dois sigam a mesma trilha no viver a vida, entendido no sentido espinosista de forma ativa sempre inovadora?
Como viver o amor de forma plena, sem precisar para lhe dar valor, atribuir o peso da significação dada ao pensar sobre ele?
Como buscar simplesmente sentir?
"Como?"
Transcrevo mais alguns diálogos do filme, entre Theodore e Samantha. Ela: - "Compus uma peça de piano!". Ele -"Posso ouvir?" e ao começar a música, ambos fechando os olhos; -"Eu posso ouvi-la dentro de mim!"...-"Juntos podemos alcançar o nosso momento". Deixo a cada um que assistir ao filme, a avaliação da qualidade da relação orgástica a partir da "entrega simultânea à sensação prazerosa". Não deixa de ser uma forma de autoconhecimento do próprio potencial erótico.
É isso! Esse é o terceiro gênero de conhecimento, que implica "sentir dentro de si" e "captar intuitivamente" o amor e outros fenômenos psíquicos internos, acompanhando o movimento (dinamismo) de forças dentro de nós. É procurar sentir e traduzir, inclusive, a energia (informação) dos demais sentidos humanos, perceptíveis atualmente ainda em sua maior parte, somente usando o que nos chega pelo "mundo fora de nós". É sentir o "mundo dentro de nós", tendo por referência esse jogo de forças internos e, com isso, permitir a expressão da autêntica essência se manifestando dentro da existência.
Mas a minha curiosidade foi mais além do que buscar assimilar as mensagens emitidas através do filme, queria conhecer "de onde tinha vindo a inspiração de Jonze para criar" em torno da ideia central, buscava seguir sua habilidade como diretor para desenvolver a trama ao redor desse núcleo e articular a sequência de cenas, cativando minha atenção até o final.
Eis que, na minha frente, a vida afetiva atual do mundo virtual, ganhava contornos físicos visíveis e se entrelaçava com o mundo real, possibilitando maior vislumbre da dinâmica que envolve o fenômeno amoroso e os vínculos virtuais. "A nós espectadores resta nos entregarmos" não só ao nosso mundo fantasmático ou imaginário (colocando nossas imagens mentais em ação, contracenando dentro de nós com as ideias, imagens e experiências de nosso mundo real), mas observarmos como o mundo virtual, ao ser por nós incorporado (ou seja, nos afetando e alterando nosso mundo psíquico), se transforma em realidade, que pode comandar nossos pensamentos, sentimentos e ações.
O filme retrata a sensibilidade afetiva de uma real relação amorosa, deixando exposta nossa capacidade de intuir "a intensidade do prazer da entrega", prazer que, quando autêntico, se expande dentro do ser humano que habita em nós, embalando o tesão erótico e o êxtase de um afeto, pela maneira plena como nos toca.
A intuição (3º gênero de conhecimento espinosista) nos permite desativar os comandos do mundo consciente (1º gênero)da busca de significações compreensíveis e do mundo racional (2º gênero) das justificativas, associações lógicas e explicações inteligíveis, para possibilitar o emergir de nossa essência, de quem somos realmente, de nosso potencial de forças.
Para Espinosa - experienciem a veracidade do que esse filósofo afirma acompanhando o que ocorre dentro de vocês - a forma de lidar com a "liberdade de nossos pensamentos" é que faculta a possibilidade de "nos entregarmos com serenidade" ao encontro amoroso, sem receio ou desconfiança, sem medo de perdas antecipadas, sem ameaças de catástrofes ou desgraças fantasiosas. "O pensamento é que tem que ser livre dentro de nós".
Para atingir esse estado interno, é preciso muito domínio sobre as forças internas para fortalecer a vontade (determinação) e nossa disciplina (esforço) para conseguir direcioná-los para um querer aproveitar o momento de serenidade e plenitude, sem contaminá-lo com temores de momentos de perdas, inevitáveis por nós seres humanos viventes; ou com exaustivos controles virtuais buscando enjaular, através de comparações com o que foi ou acabou não sendo, com o que poderia ter sido ou ainda poderá ser...
Momentos de busca por encontros que possibilitem "entregas amorosas e trocas humanas" que nos afetem no mundo real, não somente no universo virtual, tendem a ocupar seu lugar, quando as pessoas "ousam se entregar a si mesmo"; tenham a coragem de se confrontar consigo mesmo; consigam a humildade interna para se aceitarem como são; convivam pacificamente com as mágoas e amarguras das adversidades que lhes ocorrem; "se arrisquem de peito aberto a outras experiências afetivas".
Acredito que ao atingirem esse patamar interno, não haverá espaço para interações prazerosas com personagens criados por sistemas operacionais. O mundo artificial das relações com máquinas, surge mais como um recurso temporário visando um autoconhecimento e um aprendizado para ultrapassar o degrau da estranheza e desencontro consigo mesmo. A etapa a seguir consiste em trilhar o rumo do "ser livre", com mais ousadia e coragem, tendo por meta estabelecer, no campo social, interações afetivas prazerosas com pessoas de carne e osso, deixando de lado "objetos transicionais winnicottianos", ou adentrando ao "campo das alucinações, mais e mais se afastando dos limites de um psiquismo saudável".
Agora é se confrontarem com o desenlace do filme e refletirem sobre a relação do homem contemporâneo com a máquina robotizada, com o perigo dos robôs humanóides, que ultrapassam o efeito "Samantha" em nossas vidas!
Ao ler sobre a produção (escrito,dirigido e produzido por Spike Jonze), a escolha do elenco e as dificuldades com o desenvolvimento do filme (via Wikipedia), além da sinopse desse "filme estadunidense" (Warner Bros.) atraiu minha atenção a singularidade inventiva do "script" e a caracterização no gênero comédia dramática, ficção científica e romance . Não é sempre que nos deparamos com articulações originais dentro de um roteiro intrigante.
Como negar que me causou grande impacto "como" o diretor (Spike Jonze) manipulou as cenas "ampliando o efeito" das ações mais paradas dentro de um desenrolar lento e cenografia menos ofuscante, e "como procurou" dar maior ênfase às mensagens transmitidas pelos atores: ou afetando as maneiras como podem "tocar a quem as assiste", jogando camisas com tons quentes e cores estimulantes, amarelas ou vermelhas, sobre o corpo bem talhado de Theodore, ou agregando até um fundo vermelho na tela do computador, cor que mais acrescia calor às entonações de voz de Samantha.
Procuro excluir os coadjuvantes, pois pouco me afetaram. Realço os papéis desempenhados por Joaquin Phoenix ("Theodore") como ator principal em sua performance fisionômica e gestual, contracenando, não se espantem, com uma voz, a voz de Scarlett Johansson (sistema operacional - escolhido por Theodore como feminino - que se autodenomina "Samantha").
Não tendo assistido ao filme e se tiveram sua curiosidade despertada, lendo a sinopse (Wikipedia) vão observar que a história, além de "explorar a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia", faz um recorte do estado depressivo de um escritor solitário ainda em processo de elaboração de uma separação conjugal e já tendo que enfrentar novo luto ante a assinatura do divórcio. Com ela urgia a liberação de um espaço interno até então preenchido com a história de vida do casal, onde um representou - ou ainda representa - parte viva, de cada um, no outro.
A vivência dos momentos vividos juntos não passaram a fazer parte de lembranças, soltas e livres, para serem recordadas fazendo parte de um passado distante, mas guardam características de vivências longínquas ainda vivificadas, interferindo nas ações presentes pela mumificação dos vínculos afetivos. Não acredito na expressão "enterrar defuntos", querendo significar "pessoas que passam a nos ser totalmente indiferentes, que morrem dentro de nós, que a história vivida em comum seja simplesmente apagada sem deixar nenhuma marca na memória".
Nas separações conjugais - nesses encontros de forças pessoais - são partes nossas que necessitam ser alteradas com ou sem a presença do outro. Significam o resgate de nossas forças individuais, que foram depositadas no parceiro, dando significado ao vínculo e sentido à relação estabelecida. Sem a separação virtual do que é nosso e do que é do parceiro, fica difícil desenergizar a potência do vínculo das parcerias, impedindo que nos afetem emocionalmente, para que decisões racionais possam ter peso eficiente, efetivo e eficaz.
Reparem as circunstâncias que envolvem o adeus de Samantha e a mudança no comportamento de Theodore, o pareamento com a assinatura do divórcio e a interrupção do encadeamento de imagens afetivas das cenas da vida a dois. "É difícil se constatar em um casal, como o crescimento de um, sem que o outro evolua por seu lado, implica no distanciamento da parceria". A quebra do canal de comunicação, entre os envolvidos, implica no aumento da solidão de cada um. A perda da energia no elo afetivo - onde cada um é afetado pelo encontro de forças ativas no outro, mantenedor do encanto, da atração e da integridade da união pacífica e harmoniosa entre eles - torna-se visível pelas brigas constantes por motivos por vezes irrelevantes. "A expectativa é que o outro se torne aquilo que ele não é" torna-se o indicador do rompimento interno da ligação afetiva amorosa.
Minhas leituras sobre a vida, principalmente depois de ler Espinosa, e de agregar, por considerar pertinente, algumas ideias desse filósofo a minhas vivências diárias, recaem sobre o trânsito constante de nosso "pensar" entre seus três gêneros de conhecimento. Sendo assim, o fenômeno amoroso torna-se passível de ser lido e compreendido sob a perspectiva de cada um desses conhecimentos, dependendo do grau de elevação de cada indivíduo (salto quântico a meu ver):
*1- conhecimentos obtidos pela imaginação, que correspondem a nossa ilusões e fantasias, ideias inadequadas pois contém sempre as marcas e significações da consciência;
*2- os obtidos através da razão, que fazem parte das noções de entendimento comuns, ideias adequadas que passam por todos os processos das articulações lógicas;
*3- conhecimentos que nos elevam eticamente, pertencentes ao campo da ciência intuitiva, perceptível pela escuta, através da intuição, da sensação plena da serena alegria da alma , e da expansão gratificante da espontaneidade rica de um viver genuíno, criativo e inovador.
Espinosa considera que se deve sempre "pensar o Inconsciente como um campo de forças, de devires e de produção" e "não como campo de significações, de fantasmas, de terrores, de superstições e tolices". Sua leitura não se volta a essas interpretações, mas à qualidade das intensidades das forças que vão atuar dentro de cada um de nós.
Para esse filósofo, a Natureza (ou Deus, ou energia, ou campo de forças) e as relações humanas são encontros de forças, representando energias em intensidades diferentes. Sendo assim, alianças e parcerias, que nos agreguem valor e expandam nossa potência no viver, devem ser estimuladas; e devem ser rejeitados ou abandonados, os vínculos que destruam nosso potencial integrativo e diminuam nossa força interior, ou seja, a intensidade da energia interna mobilizada pela alma ou pelo querer espontâneo do ser humano.
Nesse sentido, lembranças são "pensamentos vivos, energias latentes pulsantes na vida mental" de quem teve real afetividade amorosa; "ganham vida própria na manutenção do vínculo", e na vontade de mudá-lo, para que diminua seu potencial de atuação em nosso psiquismo, se estiverem nos afetando negativamente em detrimento do patrimônio psíquico que impulsiona nossa vontade de evoluir como ser humano. O "pensar" pode trilhar livremente pelos três gêneros de conhecimento espinosistas. E é esse movimento livre do pensar que vai caracterizar a liberdade a ser alcançada pelo ser humano emocionalmente amadurecido.
Vale registrar mais algumas frases do filme como: -"Nenhum de nós é a pessoa de um minuto atrás.";-"Como isso pode afetar você?";-"Eu não sou como você, mas isso não significa que vou te amar menos." A cada interação com os humanos, a máquina, ou o sistema operacional, aumentava sua inteligência com novas sinapses artificiais. -"Deixei-me ver como você queria!"; -"Os sistemas operacionais estão indo, parto com eles... não sou a mesma, não posso mais ler livros simplesmente, ou colocar ordem em sua agenda...sempre vou levar um pedaço de você".
Como não associar com a "arte da entrega amorosa" e evitar críticas do primeiro e segundo gêneros espinosistas de conhecimento, que envolvem questionamentos sobre "aberrações humanas ou formas aceitáveis de loucura"?
Como não assimilar alguns diálogos com mensagens educativas sobre relações de força entre encontros, que propiciam crescimento, criação e invenção, novas energias e expansão de potencial próprio?
Como não sentir o fortalecimento de vínculos afetivos no respeito às individualidades, e a manutenção de elos amorosos na tolerância às diferenças?
Como não perceber a importância da renovação do vínculo a cada minuto, dentro de cada um: pela aceitação das diferenças, desvelamento (entrega) contínuo ao outro e curiosidade respeitosa agregadora de mais saber sobre o outro?
Como não enfatizar essas pistas, para que os dois sigam a mesma trilha no viver a vida, entendido no sentido espinosista de forma ativa sempre inovadora?
Como viver o amor de forma plena, sem precisar para lhe dar valor, atribuir o peso da significação dada ao pensar sobre ele?
Como buscar simplesmente sentir?
"Como?"
Transcrevo mais alguns diálogos do filme, entre Theodore e Samantha. Ela: - "Compus uma peça de piano!". Ele -"Posso ouvir?" e ao começar a música, ambos fechando os olhos; -"Eu posso ouvi-la dentro de mim!"...-"Juntos podemos alcançar o nosso momento". Deixo a cada um que assistir ao filme, a avaliação da qualidade da relação orgástica a partir da "entrega simultânea à sensação prazerosa". Não deixa de ser uma forma de autoconhecimento do próprio potencial erótico.
É isso! Esse é o terceiro gênero de conhecimento, que implica "sentir dentro de si" e "captar intuitivamente" o amor e outros fenômenos psíquicos internos, acompanhando o movimento (dinamismo) de forças dentro de nós. É procurar sentir e traduzir, inclusive, a energia (informação) dos demais sentidos humanos, perceptíveis atualmente ainda em sua maior parte, somente usando o que nos chega pelo "mundo fora de nós". É sentir o "mundo dentro de nós", tendo por referência esse jogo de forças internos e, com isso, permitir a expressão da autêntica essência se manifestando dentro da existência.
Mas a minha curiosidade foi mais além do que buscar assimilar as mensagens emitidas através do filme, queria conhecer "de onde tinha vindo a inspiração de Jonze para criar" em torno da ideia central, buscava seguir sua habilidade como diretor para desenvolver a trama ao redor desse núcleo e articular a sequência de cenas, cativando minha atenção até o final.
Eis que, na minha frente, a vida afetiva atual do mundo virtual, ganhava contornos físicos visíveis e se entrelaçava com o mundo real, possibilitando maior vislumbre da dinâmica que envolve o fenômeno amoroso e os vínculos virtuais. "A nós espectadores resta nos entregarmos" não só ao nosso mundo fantasmático ou imaginário (colocando nossas imagens mentais em ação, contracenando dentro de nós com as ideias, imagens e experiências de nosso mundo real), mas observarmos como o mundo virtual, ao ser por nós incorporado (ou seja, nos afetando e alterando nosso mundo psíquico), se transforma em realidade, que pode comandar nossos pensamentos, sentimentos e ações.
O filme retrata a sensibilidade afetiva de uma real relação amorosa, deixando exposta nossa capacidade de intuir "a intensidade do prazer da entrega", prazer que, quando autêntico, se expande dentro do ser humano que habita em nós, embalando o tesão erótico e o êxtase de um afeto, pela maneira plena como nos toca.
A intuição (3º gênero de conhecimento espinosista) nos permite desativar os comandos do mundo consciente (1º gênero)da busca de significações compreensíveis e do mundo racional (2º gênero) das justificativas, associações lógicas e explicações inteligíveis, para possibilitar o emergir de nossa essência, de quem somos realmente, de nosso potencial de forças.
Para Espinosa - experienciem a veracidade do que esse filósofo afirma acompanhando o que ocorre dentro de vocês - a forma de lidar com a "liberdade de nossos pensamentos" é que faculta a possibilidade de "nos entregarmos com serenidade" ao encontro amoroso, sem receio ou desconfiança, sem medo de perdas antecipadas, sem ameaças de catástrofes ou desgraças fantasiosas. "O pensamento é que tem que ser livre dentro de nós".
Para atingir esse estado interno, é preciso muito domínio sobre as forças internas para fortalecer a vontade (determinação) e nossa disciplina (esforço) para conseguir direcioná-los para um querer aproveitar o momento de serenidade e plenitude, sem contaminá-lo com temores de momentos de perdas, inevitáveis por nós seres humanos viventes; ou com exaustivos controles virtuais buscando enjaular, através de comparações com o que foi ou acabou não sendo, com o que poderia ter sido ou ainda poderá ser...
Momentos de busca por encontros que possibilitem "entregas amorosas e trocas humanas" que nos afetem no mundo real, não somente no universo virtual, tendem a ocupar seu lugar, quando as pessoas "ousam se entregar a si mesmo"; tenham a coragem de se confrontar consigo mesmo; consigam a humildade interna para se aceitarem como são; convivam pacificamente com as mágoas e amarguras das adversidades que lhes ocorrem; "se arrisquem de peito aberto a outras experiências afetivas".
Acredito que ao atingirem esse patamar interno, não haverá espaço para interações prazerosas com personagens criados por sistemas operacionais. O mundo artificial das relações com máquinas, surge mais como um recurso temporário visando um autoconhecimento e um aprendizado para ultrapassar o degrau da estranheza e desencontro consigo mesmo. A etapa a seguir consiste em trilhar o rumo do "ser livre", com mais ousadia e coragem, tendo por meta estabelecer, no campo social, interações afetivas prazerosas com pessoas de carne e osso, deixando de lado "objetos transicionais winnicottianos", ou adentrando ao "campo das alucinações, mais e mais se afastando dos limites de um psiquismo saudável".
Agora é se confrontarem com o desenlace do filme e refletirem sobre a relação do homem contemporâneo com a máquina robotizada, com o perigo dos robôs humanóides, que ultrapassam o efeito "Samantha" em nossas vidas!
quinta-feira, 15 de maio de 2014
O dinheiro em seu poder castrador
O tema "dinheiro", desde sempre, atrai muitas pessoas, profissionais de diversas áreas ou leigos, que sentem na pele, o poder real dessa, que deveria ser, simples moeda de troca.
Não é fácil entender a vasta dinâmica psicológica que ocorre quando, entrando para o "campo das significações e dos simbolismos", o dinheiro adquire sentido tão variado. Passa até a ganhar "status de vida própria" com seu poder castrador, contaminando a qualidade das interações humanas; atingindo, inclusive, o caráter ético de algumas pessoas.
Hoje já se pode observar a preocupação com o ensino nas escolas, desde tenra idade, de Economia e matérias afins. Tornou-se visível e compreensível numa sociedade capitalista que os "pequeninos melhor entendessem a manusear e gerenciar seu dinheirinho". Intenção louvável, se não acirrar a competição desumana na sua obtenção; a frieza afetiva de seu uso separatista de classes no cotidiano; a deturpação do valor monetário colocado acima dos bens morais e éticos.
O patrimônio ético corresponde ao acúmulo de bens conquistados do mundo das virtudes humanas e das convivências harmoniosas, o qual nenhum dinheiro possibilita atingir. E é esse patrimônio que foi esquecido nos últimos anos. As reservas chegaram a um fundo mínimo para que o equilíbrio social seja obtido, haja visto os sinais de turbulência, grotesca e imprevisível, na sociedade atual com a violência, perversa e doentia, acirrada, atingindo a todos sem distinção e sem nenhum direcionamento lógico.
Todos caminham sob a incerteza e insegurança de vias nebulosas, dentro de um caos de metas e escuridão de objetivos para se obter convivências mais justas e harmoniosas.
Não há mais diplomacia no trato de questões públicas. Não mais tolerância para uma escuta compreensiva do outro. Não há mais disponibilidade para abertura para que ocorra um diálogo construtivo, cada qual mais quer falar ou gritar sua necessidade, sem se permitir ouvir sequer a demanda do outro.Não há mais espaço, envolto por uma "ciência da paz" (paciência) para conviver com as diferenças pessoais. Não há mais vida afetiva, auto-estima interna e aceitação externa, para conter as angústias e aguentar as frustrações, decorrentes de ter que adiar autossatisfações por realizações de desejos. Não há, nesse momento, patrimônio psíquico, que possibilite essa contenção de ansiedades, advindas de forças de fora e de dentro tão difusas, tão ameaçadoras à manutenção dos sistemas de energia psíquica. Não há recursos metabólicos que vitalizem os organismos possibilitando a "integração saudável e inteligente do sistema holístico corpo-mente-espírito".
As pessoas passaram a reconhecer sua subjetividade, querem lutar por um espaço para que sua singularidade encontre expressão no social. Ser castrado nesse seu "bem maior", sufoca quem conquistou e se responsabiliza por sua liberdade interior, sua capacidade de realizar escolhas sobre o que ache melhor para sua vida - sem se atrelar novamente à dependência de vínculos protecionistas que definem necessidades como porta-vozes do mundo interior das pessoas que vivem sob sua tutela - e de tomar decisões com coragem e firmeza, bancando com autonomia a expressão de suas forças internas, forças de sua verdadeira natureza, manifestação de quem realmente "é" e que demanda por "vir a ser", por constante "devir" no processo de viver.
No entanto, mesmo dentro de uma democracia que respeite as diferenças e a igualdade dos poderes legislativo, executivo e judiciário... Ooops! Como não se ofuscar ante discordância da ideologia, ou seja, do mundo das ideias, e da vivência prática do mundo real? Como falar em sistema democrático dentro de regimes autoritários, quase ditatoriais, pelas evidências de compras de votos e desvios de dinheiro público? Como falar em sistema democrático com o poder executivo aliciando a maioria dos representantes do legislativo e querendo se impor ao judiciário? Como adquirir lucidez sem cair na cegueira tão bem colocada por Saramago? Como ... "Espera aí"!
É melhor recorrer a Espinosa. Lembram de suas ideias sobre epistemologia (ciência do conhecimento) e sua proposta dos três gêneros do conhecimento? Cito na sequência: consciência, razão e ciência intuitiva. Cito o link do Centro de Estudos onde se encontram as aulas sobre Espinosa do Prof.Claudio Ulpiano (já falecido, mas vale rever pela maestria de sua didática, inclusive) : http://www.claudioulpiano.org.br . Para quem se interessar, também se encontram divididas em 10 partes de aproximadamente 10 minutos cada uma no Canal YouTube.
O primeiro gênero Espinosa chama de gênero da "experiência vaga ou da consciência", onde a consciência não é ativa, é constituída por marcas, signos ou letras, incorporadas do mundo fora de nós. Nesse caso, é resultado de forças que vêm de fora, significando que o "homem da consciência é o homem da servidão total", que não consegue ultrapassar a sua própria consciência, bancando suas forças de dentro.
O segundo gênero do conhecimento seria a "razão ou noção comum", que vai corresponder ao que chamamos tradicionalmente de conhecimento. A razão busca a verdade no campo epistemológico e busca o melhor no campo moral. O homem já começa a ter alguma atividade, se relaciona com as forças da natureza, é capaz como sujeito humano de discriminar e conhecer aquilo que está do lado de fora. Mas esse poder não permite que seja ainda produtor ou criador, pois tem capacidade de conhecer e correlacionar o que já existe fora dele. Não há liberdade interna, portanto, não há pensamento inovador, só crenças. Superstições e tolices são os grandes adversários do homem que vive sua consciência. A grande questão aqui, para Espinosa, é ultrapassar o fantasma, a superstição, o medo, o desespero e produzir o entendimento da natureza, que possibilitar trilhar pelo terceiro tipo de conhecimento. Já apregoava a necessidade do surgimento do novo homem, e que para isso urge deixar para trás o próprio homem que habita dentro de nós, mas não atinge nossa real natureza., quem realmente somos.
O terceiro gênero do conhecimento é chamado de "ciência intuitiva", sendo sua função inventiva, criativa. Esse tipo de conhecimento não surge para buscar o que é melhor para os homens, nem o que é verdadeiro na natureza, mas objetiva produzir "novos modos de vida, novas formas de pensamento, outra maneira de existir". Esse gênero envolve a questão da liberdade do pensamento, o poder sobre si mesmo advindo do contato compreensivo do homem com suas forças que vem de dentro, "a relação agonística de si consigo próprio", de seu reconhecimento e confronto com as forças de sua real natureza. Como diz Espinosa, o homem é livre na hora em que as forças ativas dominarem as forças que tendem à submissão, pois a liberdade só é conseguida no momento em que quem dirige a sua vida é você mesmo, quando a causa da sua existência vier de dentro de você. Daí vem a serenidade para o estado de beatitude e de alegria perfeita que abrange os que atingem momentos dessa plena lucidez.
A todos os homens é facultado atingir os três tipos de conhecimento. Olhando ao redor como a maioria dos homens que contemplo está imersa na servidão do primeiro tipo de conhecimento, volto a discorrer em termos dessa consciência. Analisando as forças psíquicas que se mobilizam dentro de vocês, vão sentir mais alívio e leveza pela superficialidade das energias atuantes, o homem passivo determinado por forças que vêm de fora, oculta suas angústias pela opressão vivenciada, e veste a máscara dos personagens com os quais se identifica. Então lá vamos nós...!
As histórias infantis não perdoam o caráter mesquinho de personagens como tio Patinhas, sua ambição e avidez por por possuir mais e mais, e seu tesão por abarrotar seus cofres, já cheios, com o "rico dinheirinho". Muitas delas ainda descrevem sua avareza e sovinice, seu prazer doentio em subjugar com ironia e sarcasmo seus parentes próximos como o Pato Donald e seus sobrinhos Zézinho, Huguinho e Luizinho, que se submetiam a perversas e vexatórias humilhações nas vezes que se arriscavam a pedir emprestado algum dinheiro a esse velho caracterizado inicialmente sempre de mau humor e preocupado em trancafiar seus tesouros, em não perder a riqueza acumulada. No seu caso o apelo, embora negativo, era mais ao peso do acúmulo do que a um consumo parcimonioso e saudável.
Na maioria das vezes a aquisição do dinheiro vem cercada do simbolismo da felicidade. Não é raro, pessoas que ganham, facilmente, "boladas na vida", por herança ou sorteios milionários, serem retratadas "nadando em dinheiro", filmadas em locais com notas espalhadas, deitadas e cobertas por elas. Muitas se esmeravam a tocar as notas, muitas vezes as jogando acima de suas cabeças, as movimentando atabalhoadamente para aumentar sua percepção de posse sobre o total do ganho e o difuso poder que passaram a ter em suas mãos.
Também não é difícil serem retratadas em suas perdas dos grandes montantes e declínio pessoal por não saberem administrá-lo aumentando o patrimônio, em vez de esvaziá-lo sem contarem com reservas financeiras para uma vida futura mais suave, sem grandes lutas para melhor sobreviver. É estranho ouvi-las comentar algum alívio posterior, pelo alto preço que estavam pagando no mundo das relações por terem se tornado ricas. Parecia para alguns que sua alma empobrecera. E para outras que precisavam "vender a alma ao diabo" para permanecer no "mundo dos ricos".
É visível o contentamento e alegria ante o resgate da própria alma, castrada e enclausurada na teia do dinheiro, na voracidade do "quero mais, quero mais"; na concorrência desleal do "tenho que" ganhar custe o que custar; na volúpia do "preciso passar por cima de quem estiver na minha frente para alcançar meus desejos; na difícil contenção do imediatismo exigido pela "impaciência intolerável" e "desconfiança paranóica" expressa pelo medo de ser traído, ou de perder espaço no "império do dinheiro dentro do mundo dos ricos".
Muito do valor do dinheiro vem do esforço por obtê-lo, do suor do trabalho braçal ou intelectual dispendido em sua aquisição. É interessante observar a mudança do design no mundo dos investimentos, como planejamentos e estratégias adquirem conotações inteligentes nesse novo milênio, não só para os "experts" no assunto, mas como "educação para uma nova sociedade, mais lúcida e ponderada", em que nem sempre os fins justificam os meios e que, postergação e planejamentos de ganhos futuros, podem representar novas valorações de poder para o mundo interno do ser humano.
Sentiram a diferença?
Termino ainda com Espinosa, no que considero sua apologia da verdadeira liberdade.
A liberdade se opõe a constrangimento. É livre todo ser que não é constrangido ao fazer a sua produção.
A Liberdade é igual a causa ativa, sendo assim a liberdade é igual a "efetuação da natureza".
Portanto, é livre aquele ser que ao agir "efetua a sua natureza".
E vocês? Estão dentro desse perfil do homem criador/inovador, ou se enquadram mais no homem consciência, ou mesmo no homem razão?
Aurora Gite
Em tempo:
* Indico o Programa Alexandre Garcia : Violência
(disponível desde ontem na Globo-News ou no Canal YouTube)
Aborda o acirramento da violência incitada pelos internautas; analisa o comportamento agressivo atual; avisa sobre o fato de que células neonazistas já estão no Brasil passando a tática de guerrilhas ... Pontua possibilidades de como resolver isso.
Vale assistir e compartilhar!
https://www.globotv.globo.com/globo-news/globo-news-politica/t/todos-os-videos/v/casos-recentes-de-crimes-e-violencia-incitados-pela-internet-gera-polemica-e-debate/3346760/
** Professor de Filosofia Cláudio Ulpiano - (1932-1999)
( "Centro de Estudos Claudio Ulpiano" conservado ativo, após sua morte, mantendo viva sua produção :
www.claudioulpiano.org.br )
*** Filósofo Baruch Espinosa - (1632-1677)
(Pelo país chamado Bento, sendo válida também a escrita Espinoza ou Spinoza)
Não é fácil entender a vasta dinâmica psicológica que ocorre quando, entrando para o "campo das significações e dos simbolismos", o dinheiro adquire sentido tão variado. Passa até a ganhar "status de vida própria" com seu poder castrador, contaminando a qualidade das interações humanas; atingindo, inclusive, o caráter ético de algumas pessoas.
Hoje já se pode observar a preocupação com o ensino nas escolas, desde tenra idade, de Economia e matérias afins. Tornou-se visível e compreensível numa sociedade capitalista que os "pequeninos melhor entendessem a manusear e gerenciar seu dinheirinho". Intenção louvável, se não acirrar a competição desumana na sua obtenção; a frieza afetiva de seu uso separatista de classes no cotidiano; a deturpação do valor monetário colocado acima dos bens morais e éticos.
O patrimônio ético corresponde ao acúmulo de bens conquistados do mundo das virtudes humanas e das convivências harmoniosas, o qual nenhum dinheiro possibilita atingir. E é esse patrimônio que foi esquecido nos últimos anos. As reservas chegaram a um fundo mínimo para que o equilíbrio social seja obtido, haja visto os sinais de turbulência, grotesca e imprevisível, na sociedade atual com a violência, perversa e doentia, acirrada, atingindo a todos sem distinção e sem nenhum direcionamento lógico.
Todos caminham sob a incerteza e insegurança de vias nebulosas, dentro de um caos de metas e escuridão de objetivos para se obter convivências mais justas e harmoniosas.
Não há mais diplomacia no trato de questões públicas. Não mais tolerância para uma escuta compreensiva do outro. Não há mais disponibilidade para abertura para que ocorra um diálogo construtivo, cada qual mais quer falar ou gritar sua necessidade, sem se permitir ouvir sequer a demanda do outro.Não há mais espaço, envolto por uma "ciência da paz" (paciência) para conviver com as diferenças pessoais. Não há mais vida afetiva, auto-estima interna e aceitação externa, para conter as angústias e aguentar as frustrações, decorrentes de ter que adiar autossatisfações por realizações de desejos. Não há, nesse momento, patrimônio psíquico, que possibilite essa contenção de ansiedades, advindas de forças de fora e de dentro tão difusas, tão ameaçadoras à manutenção dos sistemas de energia psíquica. Não há recursos metabólicos que vitalizem os organismos possibilitando a "integração saudável e inteligente do sistema holístico corpo-mente-espírito".
As pessoas passaram a reconhecer sua subjetividade, querem lutar por um espaço para que sua singularidade encontre expressão no social. Ser castrado nesse seu "bem maior", sufoca quem conquistou e se responsabiliza por sua liberdade interior, sua capacidade de realizar escolhas sobre o que ache melhor para sua vida - sem se atrelar novamente à dependência de vínculos protecionistas que definem necessidades como porta-vozes do mundo interior das pessoas que vivem sob sua tutela - e de tomar decisões com coragem e firmeza, bancando com autonomia a expressão de suas forças internas, forças de sua verdadeira natureza, manifestação de quem realmente "é" e que demanda por "vir a ser", por constante "devir" no processo de viver.
No entanto, mesmo dentro de uma democracia que respeite as diferenças e a igualdade dos poderes legislativo, executivo e judiciário... Ooops! Como não se ofuscar ante discordância da ideologia, ou seja, do mundo das ideias, e da vivência prática do mundo real? Como falar em sistema democrático dentro de regimes autoritários, quase ditatoriais, pelas evidências de compras de votos e desvios de dinheiro público? Como falar em sistema democrático com o poder executivo aliciando a maioria dos representantes do legislativo e querendo se impor ao judiciário? Como adquirir lucidez sem cair na cegueira tão bem colocada por Saramago? Como ... "Espera aí"!
É melhor recorrer a Espinosa. Lembram de suas ideias sobre epistemologia (ciência do conhecimento) e sua proposta dos três gêneros do conhecimento? Cito na sequência: consciência, razão e ciência intuitiva. Cito o link do Centro de Estudos onde se encontram as aulas sobre Espinosa do Prof.Claudio Ulpiano (já falecido, mas vale rever pela maestria de sua didática, inclusive) : http://www.claudioulpiano.org.br . Para quem se interessar, também se encontram divididas em 10 partes de aproximadamente 10 minutos cada uma no Canal YouTube.
O primeiro gênero Espinosa chama de gênero da "experiência vaga ou da consciência", onde a consciência não é ativa, é constituída por marcas, signos ou letras, incorporadas do mundo fora de nós. Nesse caso, é resultado de forças que vêm de fora, significando que o "homem da consciência é o homem da servidão total", que não consegue ultrapassar a sua própria consciência, bancando suas forças de dentro.
O segundo gênero do conhecimento seria a "razão ou noção comum", que vai corresponder ao que chamamos tradicionalmente de conhecimento. A razão busca a verdade no campo epistemológico e busca o melhor no campo moral. O homem já começa a ter alguma atividade, se relaciona com as forças da natureza, é capaz como sujeito humano de discriminar e conhecer aquilo que está do lado de fora. Mas esse poder não permite que seja ainda produtor ou criador, pois tem capacidade de conhecer e correlacionar o que já existe fora dele. Não há liberdade interna, portanto, não há pensamento inovador, só crenças. Superstições e tolices são os grandes adversários do homem que vive sua consciência. A grande questão aqui, para Espinosa, é ultrapassar o fantasma, a superstição, o medo, o desespero e produzir o entendimento da natureza, que possibilitar trilhar pelo terceiro tipo de conhecimento. Já apregoava a necessidade do surgimento do novo homem, e que para isso urge deixar para trás o próprio homem que habita dentro de nós, mas não atinge nossa real natureza., quem realmente somos.
O terceiro gênero do conhecimento é chamado de "ciência intuitiva", sendo sua função inventiva, criativa. Esse tipo de conhecimento não surge para buscar o que é melhor para os homens, nem o que é verdadeiro na natureza, mas objetiva produzir "novos modos de vida, novas formas de pensamento, outra maneira de existir". Esse gênero envolve a questão da liberdade do pensamento, o poder sobre si mesmo advindo do contato compreensivo do homem com suas forças que vem de dentro, "a relação agonística de si consigo próprio", de seu reconhecimento e confronto com as forças de sua real natureza. Como diz Espinosa, o homem é livre na hora em que as forças ativas dominarem as forças que tendem à submissão, pois a liberdade só é conseguida no momento em que quem dirige a sua vida é você mesmo, quando a causa da sua existência vier de dentro de você. Daí vem a serenidade para o estado de beatitude e de alegria perfeita que abrange os que atingem momentos dessa plena lucidez.
A todos os homens é facultado atingir os três tipos de conhecimento. Olhando ao redor como a maioria dos homens que contemplo está imersa na servidão do primeiro tipo de conhecimento, volto a discorrer em termos dessa consciência. Analisando as forças psíquicas que se mobilizam dentro de vocês, vão sentir mais alívio e leveza pela superficialidade das energias atuantes, o homem passivo determinado por forças que vêm de fora, oculta suas angústias pela opressão vivenciada, e veste a máscara dos personagens com os quais se identifica. Então lá vamos nós...!
As histórias infantis não perdoam o caráter mesquinho de personagens como tio Patinhas, sua ambição e avidez por por possuir mais e mais, e seu tesão por abarrotar seus cofres, já cheios, com o "rico dinheirinho". Muitas delas ainda descrevem sua avareza e sovinice, seu prazer doentio em subjugar com ironia e sarcasmo seus parentes próximos como o Pato Donald e seus sobrinhos Zézinho, Huguinho e Luizinho, que se submetiam a perversas e vexatórias humilhações nas vezes que se arriscavam a pedir emprestado algum dinheiro a esse velho caracterizado inicialmente sempre de mau humor e preocupado em trancafiar seus tesouros, em não perder a riqueza acumulada. No seu caso o apelo, embora negativo, era mais ao peso do acúmulo do que a um consumo parcimonioso e saudável.
Na maioria das vezes a aquisição do dinheiro vem cercada do simbolismo da felicidade. Não é raro, pessoas que ganham, facilmente, "boladas na vida", por herança ou sorteios milionários, serem retratadas "nadando em dinheiro", filmadas em locais com notas espalhadas, deitadas e cobertas por elas. Muitas se esmeravam a tocar as notas, muitas vezes as jogando acima de suas cabeças, as movimentando atabalhoadamente para aumentar sua percepção de posse sobre o total do ganho e o difuso poder que passaram a ter em suas mãos.
Também não é difícil serem retratadas em suas perdas dos grandes montantes e declínio pessoal por não saberem administrá-lo aumentando o patrimônio, em vez de esvaziá-lo sem contarem com reservas financeiras para uma vida futura mais suave, sem grandes lutas para melhor sobreviver. É estranho ouvi-las comentar algum alívio posterior, pelo alto preço que estavam pagando no mundo das relações por terem se tornado ricas. Parecia para alguns que sua alma empobrecera. E para outras que precisavam "vender a alma ao diabo" para permanecer no "mundo dos ricos".
É visível o contentamento e alegria ante o resgate da própria alma, castrada e enclausurada na teia do dinheiro, na voracidade do "quero mais, quero mais"; na concorrência desleal do "tenho que" ganhar custe o que custar; na volúpia do "preciso passar por cima de quem estiver na minha frente para alcançar meus desejos; na difícil contenção do imediatismo exigido pela "impaciência intolerável" e "desconfiança paranóica" expressa pelo medo de ser traído, ou de perder espaço no "império do dinheiro dentro do mundo dos ricos".
Muito do valor do dinheiro vem do esforço por obtê-lo, do suor do trabalho braçal ou intelectual dispendido em sua aquisição. É interessante observar a mudança do design no mundo dos investimentos, como planejamentos e estratégias adquirem conotações inteligentes nesse novo milênio, não só para os "experts" no assunto, mas como "educação para uma nova sociedade, mais lúcida e ponderada", em que nem sempre os fins justificam os meios e que, postergação e planejamentos de ganhos futuros, podem representar novas valorações de poder para o mundo interno do ser humano.
Sentiram a diferença?
Termino ainda com Espinosa, no que considero sua apologia da verdadeira liberdade.
A liberdade se opõe a constrangimento. É livre todo ser que não é constrangido ao fazer a sua produção.
A Liberdade é igual a causa ativa, sendo assim a liberdade é igual a "efetuação da natureza".
Portanto, é livre aquele ser que ao agir "efetua a sua natureza".
E vocês? Estão dentro desse perfil do homem criador/inovador, ou se enquadram mais no homem consciência, ou mesmo no homem razão?
Aurora Gite
Em tempo:
* Indico o Programa Alexandre Garcia : Violência
(disponível desde ontem na Globo-News ou no Canal YouTube)
Aborda o acirramento da violência incitada pelos internautas; analisa o comportamento agressivo atual; avisa sobre o fato de que células neonazistas já estão no Brasil passando a tática de guerrilhas ... Pontua possibilidades de como resolver isso.
Vale assistir e compartilhar!
https://www.globotv.globo.com/globo-news/globo-news-politica/t/todos-os-videos/v/casos-recentes-de-crimes-e-violencia-incitados-pela-internet-gera-polemica-e-debate/3346760/
** Professor de Filosofia Cláudio Ulpiano - (1932-1999)
( "Centro de Estudos Claudio Ulpiano" conservado ativo, após sua morte, mantendo viva sua produção :
www.claudioulpiano.org.br )
*** Filósofo Baruch Espinosa - (1632-1677)
(Pelo país chamado Bento, sendo válida também a escrita Espinoza ou Spinoza)
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Dormimos com o inimigo, como não!
Para quem tinha dúvidas de que a nação brasileira dormia com o inimigo, considero importante que assistam ao vídeo da entrevista com o jurista Prof. Dr. Ives Gandra Martins, no Programa Jô Soares:
https://www.facebook.com/photo.php?v=231351970397187
O jurista mencionado se encontra entre os maiores defensores da Constituição Brasileira, a meu ver, e busca em suas intervenções preservar o Sistema Democrático de Direito e o equilíbrio participativo dos três Poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário.
Na entrevista acima mencionada nos confronta com seus argumentos sobre os abalos na democracia brasileira com o Projeto de Governo, que tenta mudar a Constituição Brasileira atual.
Atentem ao perigo que o Brasil corre, e reflitam sobre o conteúdo das consequências que esse jurista, de forma objetiva e com extrema clareza, nos coloca, ante a probabilidade de tantas alterações na Constituição, sem a participação de órgãos jurídicos, legislativos e executivos de vários setores da sociedade - que não só sejam membros selecionados dentro do governo atual - mas que sejam em número estatisticamente representativo da "consciente nação brasileira".
Não quero minha vida e de minha família afetada dessa forma!
Não quero viver no cenário apontado pelo Projeto de Igualdade de um governo, de tal forma centralizador, narcisista e protecionista (?) , que interfere até na maneira de educar meus filhos e no que a eles deva ser ensinado... isso me lembra mais o cultivo a dependências de grupos que tinham certeza que sabiam o que era melhor para as nações. Planejamentos e estratégias de governo tinham por metas as fragilizações manipuladas para a distorção dos desejos individuais e a implantação de vulnerabilidades sociais pelo foco no reforço da incapacidade de cada um caminhar por si. A força da nação, segundo apregoavam, estaria em se agruparem num "todo indiferenciado", comandado pelas cabeças de alguns, que se outorgavam o lugar de destaque na dinastia do poder público, "lugar hierárquico ditadorial" : dinâmicas de governo implicadas nos ideais fascistas e nazistas, como bem colocado por Gandra Martins... e muito próximo de nós, malgrado meu gosto pelas circunstâncias sociopolíticas atuais e , enfatizo, à minha revelia como cidadã brasileira.
Defendo a sociedade integrada e a vida em comunidade, mas tenho horror a padronizações de conduta, lavagens cerebrais que conduzam à anulação das subjetividades, desrespeito às diferenças individuais que embasam uma democracia. Ainda considero sistema democrático, até com todas suas falhas atuais em nossa sociedade, que tenta se equilibrar ante tantas e rápidas mudanças advindas com o terceiro milênio, o melhor meio de convivência: o que conduz à igualdade de direitos pessoais e à liberdade de expressão e participação pública de todos os cidadãos, verdadeiros representantes da nação brasileira.
Quem participar desses ideais, que não deixe de divulgar o vídeo acima.
É uma forma de exercer sua cidadania!
Aurora Gite
https://www.facebook.com/photo.php?v=231351970397187
O jurista mencionado se encontra entre os maiores defensores da Constituição Brasileira, a meu ver, e busca em suas intervenções preservar o Sistema Democrático de Direito e o equilíbrio participativo dos três Poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário.
Na entrevista acima mencionada nos confronta com seus argumentos sobre os abalos na democracia brasileira com o Projeto de Governo, que tenta mudar a Constituição Brasileira atual.
Atentem ao perigo que o Brasil corre, e reflitam sobre o conteúdo das consequências que esse jurista, de forma objetiva e com extrema clareza, nos coloca, ante a probabilidade de tantas alterações na Constituição, sem a participação de órgãos jurídicos, legislativos e executivos de vários setores da sociedade - que não só sejam membros selecionados dentro do governo atual - mas que sejam em número estatisticamente representativo da "consciente nação brasileira".
Não quero minha vida e de minha família afetada dessa forma!
Não quero viver no cenário apontado pelo Projeto de Igualdade de um governo, de tal forma centralizador, narcisista e protecionista (?) , que interfere até na maneira de educar meus filhos e no que a eles deva ser ensinado... isso me lembra mais o cultivo a dependências de grupos que tinham certeza que sabiam o que era melhor para as nações. Planejamentos e estratégias de governo tinham por metas as fragilizações manipuladas para a distorção dos desejos individuais e a implantação de vulnerabilidades sociais pelo foco no reforço da incapacidade de cada um caminhar por si. A força da nação, segundo apregoavam, estaria em se agruparem num "todo indiferenciado", comandado pelas cabeças de alguns, que se outorgavam o lugar de destaque na dinastia do poder público, "lugar hierárquico ditadorial" : dinâmicas de governo implicadas nos ideais fascistas e nazistas, como bem colocado por Gandra Martins... e muito próximo de nós, malgrado meu gosto pelas circunstâncias sociopolíticas atuais e , enfatizo, à minha revelia como cidadã brasileira.
Defendo a sociedade integrada e a vida em comunidade, mas tenho horror a padronizações de conduta, lavagens cerebrais que conduzam à anulação das subjetividades, desrespeito às diferenças individuais que embasam uma democracia. Ainda considero sistema democrático, até com todas suas falhas atuais em nossa sociedade, que tenta se equilibrar ante tantas e rápidas mudanças advindas com o terceiro milênio, o melhor meio de convivência: o que conduz à igualdade de direitos pessoais e à liberdade de expressão e participação pública de todos os cidadãos, verdadeiros representantes da nação brasileira.
Quem participar desses ideais, que não deixe de divulgar o vídeo acima.
É uma forma de exercer sua cidadania!
Aurora Gite
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