quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Quer um filho assim de presente de Natal?

Tenho abordado muito que o "estar bem espiritualmente" e "autocentrado" propicia mais recursos mentais para o império da "razão", e maior presteza para discriminá-la de raciocínios lógicos egóicos. A meu ver, reconhecendo e aceitando os pontos fracos e fortes, se pode optar por superá-los, buscando equilibrar a energia entre essas forças internas. Fraquezas sempre vão existir. No entanto, podem não implicar em vulnerabilidade, se buscar manter um centro de auto-referências transparente e fortalecido.

Na opção pela energia das virtudes ( e o "amor" me parece a maior delas) como fontes psíquicas integradoras, uma boa dica é buscar responder: "Será que eu mereço isso?". O critério do merecimento vale para auto-avaliação reflexiva e coragem para mudanças, tanto quanto para dar um basta a interações desgastantes.

Tudo isso parece "fácil" e "lindo" estando no papel? Quer um exemplo prático? Então leia essa carta, de um filho (18 anos) dirigida a uma mãe, de tal grandiosidade que merece ser compartilhada com todos vocês. Expressão de amor genuíno, acredito que possa "servir de empurrão" para muita gente. Foi transcrita literalmente:


" Mamãe linda,

Acho que um problema que herdei do vovô foi a baixa eloquência para lidar com pessoas muito próximas. O J. e o F. têm trabalhado isso em mim, com ótimos resultados, mas ainda é difícil. Tem algumas coisas que eu quero te falar. A primeira, que é a mais importante, é que eu te amo DEMAIS e não quero que você jamais chegue a sonhar em duvidar disso.

Se eu me afasto de vez em quando é porque não estou muito bem e não quero passar essa energia ruim pra você, afinal você precisa estar 100% positiva pra passar E superar essa fase.
Não tô muito legal porque o meu lado emocional, que sempre sustentou a falta financeira e as brigas em casa, deu uma batida MUITO forte, e está começando a cicatrizar agora. Não adianta insistir que eu não vou compartilhar isso com você; você tem muitas outras coisas em que eu preciso que você foque.

Mas essa minha fase me mostrou como é importante a gente estar sempre com os amigos, mais próximos e parecidos, BEM próximos de nós. Liga mais pra tia V., veja mais ela, marque um filme de vez em quando (mesmo que seja de dia de semana ou, quando estiver sem dinheiro, só um DVD mesmo). Você talvez não perceba, mas ela sempre te faz muito bem. Se abra mais com ela também, não tem ninguém que vai te entender melhor, já passaram por muitas coisas parecidas.

Não deixe a peteca cair. A mãe da minha irmã diz sempre pra ela que é ela a única pessoa que não acredita no próprio potencial, e vejo você com o mesmo problema. Tenha mais certeza do seu próprio talento na hora de falar.

Nunca apele pra sua situação, não é problema de ninguém como sua vida está; as pessoas só se preocupam com sua experiência e capacitação. Vale muito mais citar seus anos de administradora de consultório e ... do que sua vida sofrida de viúva com dois filhos. E isso vale pra QUALQUER lugar. Se correr atrás não tá adiantando, aprenda a voar. Sonhe cada vez mais alto, mas bata as asas para ir subindo atrás dele. Mexa-se mais! Não importa o quanto você esteja fazendo, SEMPRE é possivel fazer mais. Tente diferente! Teclar a mesma tecla quebrada não vai resolver, pense em comprar outro teclado, nem que pra isso você tenha que vender, tudo o que der, do quebrado.

NUNCA diga que uma porta está trancada sem girar a maçaneta; é o que você mais tem feito ultimamente e isso me decepciona muitíssimo. Se, mesmo girando, a porta não abrir, empurre um pouco com muita força. Por fim, se ainda estiver fechada, procure nos seus bolsos, muitas vezes a chave está com você mesmo. Depois de ter certeza que aquela porta não vai te levar a lugar nenhum, sente...SÓ pelo tempo necessário para respirar fundo 10 vezes. É o suficiente para repor as energias. Se achar que não, tome um energético e lembre que tem gente te esperando no fim do caminho. Levante e vá em FRENTE. Para trás só haverão portas fechadas; você já testou todas.

Cuida do seu corpo. Você já dorme demais; se obrigue a deitar sempre às 23h e acordar às 6h, você vai ver como rende muito mais seu dia. No começo ( três primeiros dias) vai ser difícil, mas garanto que vale a pena. Faça sexo (nem acredito que tô falando isso pra minha mãe), definitivamente não quero saber quando e nem com quem, mas isso estimula a cabeça a trabalhar melhor e libera hormônios que nos dão ânimo pra tudo. Você é linda e interessantíssima, não tem dificuldades pra achar alguém pra um passatempo.

PARE de procurar alguém para ser sua base! Você só vai achar um amor quando tirar da cabeça que precisa de alguém pra por sua vida em ordem! Você é capaz e "vai ter que" fazer isso SOZINHA! Precisa de um amor pra compartilhar suas felicidades e aliviar as tristezas dele. Isso é que realmente nos faz bem num relacionamento. Se não tem alegrias para dividir, procure quem precisa de um ouvido, e ouça todos seus problemas. Pode parecer estranho, mas quando nos despertamos para ajudar alguém nossos problemas se mostram pequenos, como realmente são perto desse mundo todo.

Ouça seus próprios conselhos! Nem todos são propriamente bons, mas os melhores são os que você menos segue. Quando estiver sozinha, repasse tudo que você disse aos outros e aplique TUDO a você mesma. PARE de citar exemplos e SEJA você o exemplo. Procure cada vez menos dizer "Olhe como fulano está fazendo" e busque cada vez mais poder falar "Olhe como EU estou fazendo".

Quando precisar de dinheiro, ao invés de bater na porta de seu pai, bata na porta de alguma clínica e veja se não há alguma vaga. NÃO, você NÃO pode ter certeza de que a porta está trancada antes de girar a maçaneta, empurrar com força e procurar a chave. Pare de deixar as coisas passarem batidas, tudo, por menor que seja, deve ser levado em conta e analisado com muita cautela, a repercussão pode ser maior do que se espera.

Você definitivamente não precisa e nem vai ter quem te ajude a andar, você já aprendeu a fazer isso sozinha! Não procure bengalas, mas caminhos! Se parecer que não há nenhum, ache um facão e desbrave um. Uma mulher que passou pelo que você passou tem força pra isso. Não evite chorar, é um bem imenso lavar o que nos incomoda. No entanto, busque sorrir mais, veja vídeos engraçados, ouça piadas ou ligue para conversar com alguém cuja voz lhe agrada.

E, sempre que precisar de um abraço, você tem um filho, que te ama demais, de braços abertos pra te apertar bem forte. e dar uma chacoalhada nessa tua cabeça instável.

F.
05.10.10

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Novas descobertas demandam nova visão de mundo

"Potencial é o mesmo que possibilidades não vistas. Ou você vê que algo é possível, ou não vê. Impossível é apenas outro nome para o que não é visto." ... " Não podemos negar o fato de que as formas de vida estão constantemente evoluindo, passando a níveis mais altos de abstração, imaginação, perspicácia, inspiração." (Chopra,Deepak. "O Efeito Sombra", p.84 e p.82)

Considero importante realçar que um conhecimento científico deve ser compartilhado e que pesquisas devem ser embasadas em amostras representativas. Não devem ser manipuladas em prol de resultados imediatos e interesses pessoais. Nesse sentido, a honestidade dialética é que permite o agregar de forças, visando a evolução da ciência. Caminhamos juntos?

Vou tentar me posicionar, para que possa ser entendido meu trajeto pessoal e formação profissional. O início de meus interesses pelo bioeletromagnetismo teve como marco a busca de entender algumas experiências, ocorridas no final da década de 70, do "segundo milênio". Ainda estranho essa colocação.

Dos ensinamentos dos Vedas e do Budismo, passando por Krishnamurti e pela meditação na yoga, por um vértice; Carl Sagan e Fritz Capra, por outro; Fromm e Rogers, Fritz Perls e Stevens, Maslow e Forghieri, em outro; Laing, Horney, Klein, Adler e Jung, fechando outro vértice de uma pirâmide evolutica. Em seu cume, permitindo a passagem para a parte superior dessa figura geométrica e o amplo vislumbrar de novas perspectivas, coloco a Psicologia Transpessoal com seu corpo teórico que sintetiza algumas dessas visões, integrando conhecimentos de escolas psicológicas ocidentais com elementos das tradições esotéricas. dando espaço para a inclusão da dimensão espiritual do ser humano. Em sua proposta holística da consciência, Wilber considera-a una, e por sua multiplicidade de aspectos, defende a idéia da existência de um espectro da consciência, de maneira análoga às radiações eletromagnéticas e seus diversos comprimentos de ondas.

O contato com filósofos e pensadores ocorreu bem antes; dei a mão para Plotino e Platão, Aristóleles e Kant, Schopenhauer e Nietzsche...Sempre os considerei como alimento para minha alma. Em cada um encontrava elementos que me possibilitavam maior autoconhecimento e melhor compreensão do que ocorria com meus pacientes - e, com isso, meios mais efetivos de ajudá-los terapêuticamente.

Vou me permitir fazer um parêntese. Olhando para trás, deixando a mente vagar por recordações longínquas, desde criança minhas inquietudes se voltavam aos "Por que o ser humano não consegue se enxergar, e só vê sua imagem refletida num espelho?"; "Por que ficamos presos no globo pela força da gravidade e se pensarmos no planeta Terra estamos soltos no espaço?"; "Por que nossa mente é povoada de pensamentos e idéias? O que surge antes?" Por aí se vê que minhas interações prazerosas não foram tão fáceis, e trocas de idéias que pudessem aplacar minhas curiosidades e angústias foram raras.

Cada vez mais me distanciava da Psicanálise Freudiana ou de como foi usada por muitos psicanalistas tradicionais, e mais me aproximava da liberdade terapêutica de adotar várias perspectivas, bem como de interações dialéticas socráticas substituindo o divã, a falta de visão e o silêncio das técnicas analíticas. Não gosto de me sentir "engessada" em regras e julgamentos preconceituosos, tendo que me obrigar a segui-los para ser aceita por grupos ou pessoas. Continuo hoje questionando o saber fechado, baseado em interpretações subjetivas e a complexidade de conceitos, que dificultam a leitura psíquica e compreensão de relatos casuísticos, em momentos de discussão interdisciplinar. Aliás, relendo Freud, tenho dúvidas sobre muitas posturas que lhe foram atribuídas por seus seguidores mais fanáticos. Adotei uma postura mais eclética a nível teórico e instrumental, onde o paciente não era engessado em molduras teóricas e como terapeuta, senti-me mais livre ante o uso dessa instrumentação técnica mais diversificada.

Após essas premissas procurando uma frequência comunicativa mais alinhada e afinada, vamos lá, deixar registradas as considerações abaixo.

Continuo minhas pesquisas sobre a relação entre as vias de canalizações de energias sexuais orgásticas e energias psíquicas mais sutis, extrafísicas. Foco, atualmente, o sistema endócrino e os novos estudos sobre a glândula pineal, as descobertas sobre a melatonina e as pesquisas sobre as interações entre elas. Nesse campo experimental vale se inteirar da evolução em Radiologia Médica e na área da Imagiologia, graças a alta tecnologia desenvolvida pela Física. Não vou ser repetitiva sobre o papel desempenhado pelas descobertas da Física Quântica no descortinar desse novo mundo.

Gosto de imaginar o paciente em terapia trilhando os patamares de uma pirâmide. Na base inferior suas angústias, seus conflitos, sua patologias... ou como diz Chopra, sua sombra que necessita ser ultrapassada para alcançar a plenitude da liberdade integradora. Também constato, como ele, que nosso lado sombrio defende as riquezas do inconsciente, e que a plenitude e a cura estão intimamente ligadas. Ainda, podemos apreender muitas técnicas de cura, de uma observação atenta sobre os sistemas do corpo físico e seu funcionamento integrado. O difícil é integrar um self dividido. Desafio que me impulsiona a buscar estímulo na famosa frase: "Mãos à obra!". A observação e comprovação de bom prognóstico, e mesmo cura, em pacientes, que conservam dentro de si a esperança e fortalecem sua fé intuitiva, é um grande incentivo.

Como propiciar o "contato consciente" com a espontaneidade de sua essência e potencial criativo, a não ser por uma reavaliação do que serve ou não dos valores "incorporados sem pensar" familiares e culturais? Como conquistar sua autovalorização pessoal? É um árduo caminho que tem como primeiro passo o seu libertar do que não pertence a sua personalidade; depois o conviver com o desamparo e o vazio internos e com a dor do parto por ele mesmo induzido; a seguir entrar em contato com o seu nascer como pessoa, com a livre expressão de sua potencialidade e da responsabilidade de tornar-se indivíduo e cidadão participativo do social onde está inserido. É fácil se perceber como é importante uma aliança terapêutica baseada em relação de aceitação incondicional, de confiabilidade e fidelidade, que possa vir a se constituir em experiência emocional corretiva.

Volto a imagem da pirâmide e a observação de um novo patamar de canalização de energias internas. A manutenção do ser humano no caminho das virtudes - qualidades morais que lhe são inerentes e que podem se constituir em campo de forças integradoras no mundo psíquico -impulsiona a uma convivência interativa interna e externa, dentro de uma honestidade ética dialética, que culmina num evoluir e se autorrealizar espiritualmente.

As dimensões físicas do agir, pensar e sentir não mais comportam essa qualidade energética.
Ao se chegar a uma compreensão holística de seu papel no mundo dos paradoxos, a serem aceitos e ultrapassados, surge uma unicidade compreensiva que dá um significado diferente ao momento vivido em plenitude, sentido e não julgado, apreendido por uma sabedoria intuitiva, que se une ao bom senso racional e à razão pura kantiana. Vale conferir as correlacões entre esse estado e as descobertas científicas citadas por Eduardo Augusto Lourenço em seu livro "O Ser Consciencial: na busca do auto-conhecimento"(2009).

Essa nova dimensão do ser humano é atingida por um caminhar solitário nesse deserto de desapegos, único e pessoal. Consiste em experiência individual difícil de abarcar por relatos pois ainda é indescritível em palavras. Atualmente, muitas pessoas ousam relatar experiências semelhantes e, ante a proximidade dos conhecimentos advindos através da Física Quântica, algumas hipóteses já podem ser traçadas.

Algumas idéias já coloquei em blogs anteriores. Defendo que a Psicologia é grandeza física do campo do biomagnetismo, e que as interações da energia psíquica fazem parte do mundo das partículas subatômicas, demandando de leitura da Nova Física para adquirir status de ciência, como ambicionava Freud ( aliás deixou esse anseio em seus registros escritos).

Atuais experiências já constatam transmutações de energias captadas por ondas vibratórias (pensamentos) em mensagens fisicoquímicas, unindo eletricidade, magnetismo e neuroquímica. Dica para quem tenha interesse: buscar no Google e se inteirar das pesquisas de Vollrath e Semm; Philip Lansky e seus fármacos; neurocientistas do Instituto de Biofísica da Universidade Federal de São Paulo; estudos em Radiônica; Aguilera, físico-espiritualista... e por aí vai. É montarem seu próprio quebracabeça com a configuração de peças de seu interesse pessoal.

No meu caso, me interessei pelo estado de relaxamento que permitia um campo mental mais aberto e receptivo a ocorrência de um "processo de imantação", semelhante a uma mola (salto quântico?), onde a consciência humana não se desconecta da atividade corporal, mas se vê puxada por uma força, num "religar" que lhe permite atingir um campo com outras grandezas. Sensações de paz e amor/aconchego; luz e calor; ausência de palavras e um silêncio interior comunicativo/um pensar sem palavras; plenitude contemplativa e estado de êxtase/orgasmo espiritual (não físico) único e duradouro. A experiência não se apaga com o passar dos anos.

Confiram os avanços das pesquisas relacionadas ao nosso DNA: descobertas de Fritz-Albert Popp e de Burr; de Gregg Braden; de Vladimir Poponin... entre outras.

Cabem muitas reflexões ao se adotar postura aberta e receptiva a essas novas informações, resignação ante a queda de paradigmas obsoletos e aceitação dos novos conhecimentos advindos da era tecnológica e digital do Terceiro Milênio. Acredito que as profecias de Nostradamus não estavam tão erradas em suas incisivas afirmações de "fim de mundo", linguagem simbólica para expressar transformações, da grandiosidade que estão sendo presenciadas, cuja compreensão não mais cabe dentro da visão de homem e de mundo que predominou até agora.

Ante todas as informações que chegam a uma velocidade assustadora, só se pode entoar o pedido de: "serenidade e paz interior para aceitar o que não pode ser mudado... e sabedoria e coragem para alterar o que tem que ser mudado".

Uma das maiores angústias a enfrentar ante esse mundo desconhecido é a sensação de estranheza que advém. Um dos maiores obstáculos a ser enfrentado é lutar para "se manter inserido no mundo novo como cidadão participativo" e não espectador passivo, patinando no velho que, na realidade, não existe mais, a não ser na memória de cada um.

Aurora Gite

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Um pouco mais de Andréa em sua solidão

"Receio"

É tao bom a gente sentir,
Eu sei, um amor maior que nós.
Mas, eu também dei de muito sentir,
Ao ver minha dor não sair.

E ao fugir deste meu amor,
Sentir uma dor maior.
E maior que a dor de um grande amor,
Só mesmo a dor da solidão.

Esta dor que está sempre,
Sempre a me perturbar.
Com um temor que não tem fim,
Quando eu viver o amor final.

E, ao sentir nosso amor terminar,
Vou saber me encontrar,
Pois só é pior que a dor de uma paixão,
A dor de ser tão só.


"Rua da Solidão"

Não tenho amor pra viver,
Não tenho com quem falar.
Tudo perdeu o prazer
E agora eu vivo a chorar.
Agora eu sou tão calada,
Ninguém mais me faz sorrir.

É triste não ser amada,
É duro não se iludir.
Fico fugindo da noite
Somente pra não lembrar,
Que tudo isto é um açoite,
Que sabe onde me encontrar.

Assim eu vou me acabando,
Sempre fugindo da dor.
Ninguém mais está me amando,
Tudo perdeu o valor.
Nem sei mais onde encontrar
Animação pra viver.

De tanto que eu quero amor,
Eu só consigo sofrer.
Não encontro passagem,
Vou ter que ficar aqui.

Pois que me levem, me matem,
Mas me tirem daqui.
A rua está muito escura.

Eu quero sair daqui!
Se eu sair esta dor cura,
E nunca mais vou me iludir.


É isso aí, Andréa, nos momentos difíceis, a melancólica solidão de sua alma tem grande chance de aparecer. O importante é você se permitir ouvi-la e não abafá-la, ou fazer de conta que nada diz. O que sua alma grita, com perspicácia e coragem, você conseguiu apreender e colocar no papel através das poesias.

Você já sabe que esse é o instrumento para se aproximar de seu íntimo, de sua alma tão só... dar o aconchego que ela pede e possibilitar a expressão da dor, que é o que ela demanda... para ser "curada".

Talvez seu caminho possa servir de exemplo a muitas outras pessoas por aí, com suas almas perdidas dentro de si.

Aurora Gite

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Supervisão em Psicologia em Hospital Geral (3ªparte)

Acredito que com mais essa parte tenha contribuído para sanar algumas de suas dúvidas. Pincelei alguns aspectos de meu projeto com tal intuito. Então vamos lá?

A própria busca de qualidade exige uma revisão constante nas formas de avaliação e na metodologia, que envolve esse processo. Tal procedimento é que poderá embasar programas de treinamento e reciclagens, devendo para isso não possuir caráter punitivo, ou mesmo premiativo, não culminando com demissões ou exclusões, mas com a inserção dos profissionais -efetivos e estagiários - em programas específicos a cada um, que ocasionem seu desenvolvimento mais adequado, visando sempre, em virtude da própria prioridade institucional, também a produtividade da organização hospitalar e a qualidade dos serviços supervisivos oferecidos.

A avaliação mais condizente, ao exposto nos dois blogs anteriores, deveria abranger o todo da atuação dos elementos envolvidos numa supervisão, e efetuada longitudinalmente. Deveria levar em consideração não só aspectos da competência e destreza clínica, mas também a própria qualidade dos vínculos relacionais e éticos estabelecidos durante o período. As avaliações das capacitações, que envolvem o próprio processo cognitivo, bem como as motivações, interesses, intervenções e leituras de feedbacks, seriam adaptados a qualquer linha teórica.

Mediante o preenchimento de um questionário padronizado a supervisores e supervisionados, em quatro fases distintas, poderíamos obter uma avaliação longitudinal qualitativa das motivações e interesses que o cercam. Suas possíveis alterações nos possibilitariam efetuar um levantamento situacional de prováveis momentos dentro do próprio estágio, que demandariam um planejamento supervisivo diferenciado. Haja visto a grande mudança, na área afetiva e comportamental, observada nos estagiários ante a elaboração da monografia, por exemplo.

Levando-se em consideração que o estagiário deve apresentar uma postura ético-profissional, estruturas cognitivas adequadas, unidas a condições emocionais mínimas e habilidades específicas, os aspectos avaliados envolveriam como ele usufrui e busca conhecimentos, as ferramentas utilizadas, e se a forma como as usou demonstrou eficiência e foi, portanto, eficaz.

Sintetizando, poderíamos classificar essas avaliações em quatro categorias:

a) Quanto às relações estabelecidas:
1- avaliações longitudinais qualitativas das motivações e interesses, tanto do supervisor, quanto do supervisionado, e possíveis alterações
2- avaliações qualitativas das interações interdisciplinares
3- avaliações ante feedbacks e tipos de mudanças dos próprios pacientes
4- posturas perante o paciente
5- posturas ético-profissionais gerais

b)- Quanto às correlações da teoria e da prática:
1- avaliação de mudanças no que se refere a assimilações teóricas de novos contextos, e da própria didática, que a envolveu na instituição hospitalar com as especificidades de UTIs, PS, Clínicas Médicas, Enfermarias...
2- como articula o pensamento
3- como utiliza os conceitos
4- como interage teoria e prática
5-coerência de atuação com a linha adotada

c)-Quanto ao amadurecimento profissional:
1- avaliação da autonomia e discernimento do estagiário
2- como o supervisionando enfrenta problemas pontuais, situacionais
3- como concebe soluções ou sugere procedimentos
4- como define prioridades, avaliação da capacidade seletiva
5- segurança na atuação, avaliação da habilidade na tomada de decisões
6- flexibilidade e maleabilidade adaptativa
7- tolerância a frustrações profissionais

d)- Quanto à destreza clínica:
1- avaliação da capacidade de sistematização e análise dos dados obtidos
2- avaliação da capacidade de síntese e interpretação do material coletado
3- capacidade de diagnosticar
4- capacidade de estabelecer hipóteses e objetivos dentro da linha teórica adotada
5- avaliação da capacidade de elaborar e planejar estratégias e/ou intervenções
6- clareza e objetividade de expressão

Tal método de avaliação envolveria aspectos evolutivos e de aprendizagem, mais do que conteúdos e fórmulas padronizadas. Seria sistemático, objetivo, com caráter científico, pois envolveria dados concretos e registrados, não apenas relatos de sessão e observação de aspectos transferenciais e contra-transferenciais, mas os aspectos vivenciais dessa relação que deverão ser registrados, obrigatoriamente, em relatórios, independentemente da linha teórica adotada. Cada ítem, acima mencionado, se dividiria, ainda, em subítens específicos. No espaço reservado para observações, caberiam justificativas pertinentes.

Além da relação, por escrito, da bibliografia lida durante o estágio, haveria um fichamento das leituras. Ele seria uma das fontes para serem avaliados os aspectos mencionados. Esses materiais seriam arquivados em pasta e comparados, no final do estágio, pelo supervisor e supervisionado. Consideramos esse tipo de documentação importante para o acompanhamento objetivo das mudanças, quebrando o processo unicamente subjetivo de avaliação por parte do supervisor, e possibilitando uma auto-avaliação realista, por parte do supervisionado. Cada clínica poderia montar assim um tipo de biblioteca específica. Ao aprimorando caberia não somente receber e acumular, mas já haveria um aprendizado de troca, de registrar suas idéias e soltá-las, posturas indispensáveis a um cientista.

Omitimos nesse post algumas partes sobre a necessidade inicial de caracterização da clínica de atuação, sobre monografias, só realçando que seus temas deveriam estar vinculados às demandas da própria clínica, da Divisão de Psicologia, ou sugeridos pelo próprio supervisor, e não soltos, unicamente de interesse do estagiário pois muitos trabalhos se tornam repetitivos ou aleatórios ao local de atuação no período de aprimoramento.

Enfatizamos a necessidade de modelos de supervisão baseados em moldes científicos, onde basicamente registros, comprovações por escrito, possibilitariam suas próprias reciclagens, num processo de retroalimentação, ocasionando redimensionamentos da própria supervisão e do teor do vínculo supervisor-supervisionado, ante observações concretas, mesmo posteriores. de quando e porque algumas modificações ocorreram e em que âmbito se deram.

Terminamos pontuando que um modelo de supervisão, assim estruturado, já estaria buscando a inserção do estagiário no âmbito científico, além da motivação para um crescimento pessoal e desenvolvimento profissional pós-estágio.

Obs: Entregue na década de 90, nunca mais vi meu projeto. Retorno via diretoria: bom projeto que estava sendo encaminhado á psicóloga responsável pelo setor de aprimorandos. Nenhum contato foi estabelecido pela mesma. Retorno de colegas: que era uma visionária, que esse projeto seria para instituições de primeiro mundo e não para aquele complexo hospitalar iniciando seu processo de transformação também administrativa, decorrente de sua parceria com entidades do ramo.

Porém o pior, foi o contato com assessores e chefias inseguras, e seu constante "não sei como me relacionar com você" e sentindo-se ameaçados foram retirando sala, contato telefônico, computador, materiais de trabalho, bloqueio de pacientes e interações com área médica; avisos de reuniões chegavam com datas e horários errôneos, bem como impedimento de participação em reuniões científicas multidisciplinares. Foi o período em que aprendi como pode ser maldoso o ser humano, perversa a interação grupal às voltas com interesses pessoais e elementos algemados por gratidão manipulada, e o quanto temos que caminhar até uma sociedade mais ética e justa.

Aurora Gite

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Supervisão em Psicologia em Hospital Geral (2ªparte)

Para se pensar em modelo de supervisão em Psicologia em Hospital Geral há que se considerar também os aspectos abordados no blog anterior, do qual este representa sua continuidade.

Ao abordarmos a demanda hospitalar, estamos nos reportando a uma demanda médica, dos pacientes e também da instituição. A busca da saúde mental adquire urgência capital, não se esquecendo da inserção do recurso humano organizacional e sua adequação à visão, missão e valores da referida instituição.

Ante as novas descobertas da grande integração "psiconeuroimunoendócrina", e a adoção de atitudes médicas mais humanistas, holísticas e psicossomáticas, as técnicas adaptativas, que envolvam a diminuição de ansiedade, a adequação à situação momentânea do tratamento e a adesão a ele, tornam-se prioritárias ( não excludentes necessariamente) à própria investigação clínica do que pode estar ocorrendo com o mundo fantasmagórico do paciente.

Comunicações teóricas mais abrangentes, e que possibilitem maior facilidade de decodificação, tornam-se imprescindíveis nesse mundo, predominantemente científico e de interações interdisciplinares. Citamos o caso de uma criança de 10 anos. Quando assumimos o setor, na primeira entrevista, observamos claros sintomas de epilepsia. A mesma estava em tratamento há quase um ano pela profissional que nos antecedera. Nesse período todo, ela continuava a investigar a interação mãe-filho, e a repercussão do super-protecionismo sobre o comportamento ansioso do filho. Após a nova leitura colocada em reunião interdisciplinar de discussão de casos, o paciente foi encaminhado para uma avaliação por profissionais da área médica, na clínica neurológica, e foi constatada sua patologia. Devidamente tratado com medicamentos, seu quadro evoluiu satisfatóriamente em pouco tempo.

Independente dos parâmetros referenciais, que facultem a compreensão de um fenômeno, em virtude da grande demanda hospitalar e da alta rotatividade dos pacientes, o psicólogo hospitalar tem que se adequar às técnicasque envolvam psicoterapias breves, de tempo limitado e com objetivo determinado. Nesse sentido, a eficácia de um diagnóstico mais preciso está atrelada ao conhecimento do que fazer. para traçar uma linha de ação psicoterapêutica.

A imprevisibilidade da possibilidade do retorno dos pacientes, por fatores, muitas vezes, independentes de sua vontade, nos impele a tratar cada sessão como unidade; a refletir sobre o cuidado com o material que possa aflorar, pois sua elaboração pode demandar tempo, que não pode se estender conforme a demanda do paciente. Sendo assim, as intervenções devem instrumentalizar o paciente, tanto quanto possível, para que possa lidar melhor com suas angústias, inclusive. O enfrentamento do paciente com sua realidade pessoal e social adquire prioridade sobre trabalhos unicamente com suas fantasias.

Embora se conte com o vínculo terapêutica como "experiência emocional corretiva", as intervenções do psicólogo hospitalar são mais interativas e focais.

Resumindo, esses aspectos nos indicam a importância da adoção pelo psicólogo hospitalar de:
1- uma linguagem mais adequada, buscando a quebra da "Torre de Babel", que se expandiu, dentro da própria comunicação psicológica;
2- seleção de técnicas que permitam a visualização de um resultado mais rápido no que se refere a minorização das ansiedades observadas ( pacientes, cuidadores e equipes), mesmo com a união de várias linhas teóricas;
3- testes aplicados em vários níveis, não somente projetivos, que possibilitem pontes de contatos mais objetivos, com suas interpretações colocadas de formas mais compreensíveis à equipe como um todo;
4- maiores registros das atividades desenvolvidas, para que a Psicologia passe a ter reforçado seu cunho científico, nesse tipo de instituição.

Modelos teóricos surgiram tendo como alicerce a visão, de homem e de mundo, de seus autores; da mesma forma, não poderíamos abordar a construção de um modelo de supervisão, como o pretendido, sem enfocarmos a visão do psicólogo - não usamos o termo psicanalista propositadamente - e do mundo hospitalar, enlaçados pelo cunho humanista e científico que lhes dá sustentação.

Sendo assim, um modelo de supervisão psicológica hospitalar já pode ir-se delineando. Portador de um caráter sempre dinâmico, portanto funcional e mutável, deveria apresentar algumas características constantes, tais como:
1- visão holística e global do psicólogo em si e de sua função dentro de uma instituição hospitalar;
2- adaptabilidade a regras e conceitos institucionais, a necessidades emergentes e técnicas adequadas;
3- flexibilidade e adoção de posturas mais ecléticas, pertinentes à demanda e não a uma linha teórica específica;
4- versatilidade e preparo do profissional para atuar em várias áreas para as quais se capacitou como psicólogo, e não acatamento de desejos específicos de atuação limitada -no caso psicanálise;
5- interatividade sistêmica, propiciadora de equipes mais harmônicas e conjuntos de ensinamentos e práticas mais integrados;
6- comunicabilidade acessível aos diferentes níveis de interações hospitalares.

Aqui você tem mais dados para cruzar com os seus e refletir em cima deles. No próximo coloco as formas de avaliação propostas, nesse projeto elaborado em setembro de 1998. Acho que abarquei o que me foi pedido.
Aurora Gite

sábado, 2 de outubro de 2010

Supervisão em Psicologia em Hospital Geral (1ªparte)

Espero que esse material lhe sirva. Foi parte de um projeto elaborado visando a construção de modelo de supervisão e de processos avaliativos em Psicologia, em um Hospital Geral.

Refletindo sobre a função da supervisão psicológica hospitalar, podemos observar sua dupla tarefa, formativa e informativa.

Propiciar ao supervisionando uma aplicação prática de teorias, que se supõe assimiladas em sua formação acadêmica; abrir espaço física para tal aprendizagem prática, unida à própria integração dentro de equipes multidisciplinares. orientar leituras pertinentes à atuações específicas, possibilitando essa correlação e interação da teoria com a prática. supervisionar as atuações do estagiário, são ações pertinentes ao ato de supervisionar.

Contribuir para que o supervisionando capacite sua observação. desenvolva um tipo de atenção específica. uma escuta adequada ao paciente e à própria equipe. maior agilidade na percepção dos aspectos transferenciais e contra-transferenciais, ou dos aspectos indiscriminados em sua vida de relação profissional; um melhor lidar com as inseguranças e as ansiedades, oriundas, inclusive, do próprio fato de atuar no ambiente hospitalar, onde a doença, a dor, o sofrimento, as deformações e a morte são constantes, também fazem parte desse quadro.

Indepente da linha teórica mais familiar a ambos, supervisor e supervisionado, possível união em torno desse conceito (supervisão) inclue, portanto, aspectos clínicos, voltados sempre ao autoconhecimento e crescimento interno, que envolvem o amadurecimento profissional do aprimorando para conter as enormes angústia e as reações emocionais, que podem eclodir, nesse contexto. Uma coisa é "saber-se" um psicólogo, outra coisa é "tornar-se" um psicólogo hospitalar, finalidade dessa formação educativa e clínica, durante o período de estagiário nesse tipo de instituição.

Um dos maiores obstáculos constatados concentra-se na má formação acadêmica atual dos profissionais particularmente nessa áreal. Tal fato interfere, inclusive, na expectatica e idealização do papel e dos limites de um supervisor. Muitas vezes, esse é colocado, erroneamente, no lugar daquele que detém um saber absoluto, o certo e o errado, devendo manter as rédeas diretivas. Ou então, podemos observar um "outro profissional, embora estagiário", dentro de uma passividade, se impedindo de atuar, de se instrumentalizar e aprimorar seu próprio potencial, na espera de modelos de atuação estáticos, que possam ser copiados.

Parece-nos que um dos trabalhos primordiais que atualmente, nós, supervisores, temos que desempenhar é ensinar ao estagiário como "aprender a aprender", como realmente "incorporar conhecimentos teóricos" e "adaptá-los em sua prática clínica", valorizando-se como profissional que também já é. talvez indo, inclusive, mais além, dentro de um método socrático, "ensiná-lo a pensar".

Ferramentas mudam, conforme o avanço tecnológico, porém necessitam e podem ser bem utilizadas, quaisquer que sejam, por aquele profissional que tiver, além de formação básica consolidada, autoconfiança, senso crítico e discernimento suficientes. Nesse sentido, a postura do supervisor seria fundamental, para que tal ocorresse.

Outro ponto nodal se situa, justamente, em algumas posturas que, de certa forma cerceiam o próprio desenvolvimento do aprimorando, que será livre "desde que" siga às orientações pertinentes à linha teórica do supervisor; ou desenvolva sua identidade, como psicólogo hospitalar, "desde que" se amolde a padrões de atuação rotineiros já estabelecidos. Esbarramos aqui numa grande questão ética, que vai mais além do englobar, em sua conceituação, a responsabilidade de cada profissional por seus atos. Permeia a própria formação do ser humano livre e autônomo, com um sistema de valores próprios e sociais a serem respeitados, só assim lhe possibilitando ser responsável por si, por suas escolhas e atuações supervisionadas, por suas posturas perante seus pacientes, a instituição e demais membros de uma equipe. "Ética" subentende, assim, julgamento valorativo, que permite discriminar e hierarquizar ações intencionais, envolvendo a capacidade crítica e o bom senso, para que tal ocorra.

Refletindo sobre os diversos aspectos, que envolvem uma supervisão, poderíamos até abordar a existência de uma "ética supervisiva", obtendo novo ponto de união independente de divergências teóricas. Ao tentarmos situar o profissional "psicólogo" e delinearmos o perfil de um "psicólogo hospitalar", observamos grande barreira advinda da própria relação Psicologia-Psicanálise e dos profissionais envolvidos por ela. É inegável o papel da Psicanálise, mãe e matriz das demais teorias surgidas. Quer por afinidades, quer por oposição, profissionais da área de Saúde Mental nela se alicerçam. Haja visto seu caráter abrangente, não só a psicólogos, mas a diversos profissionais de outros cursos superiores, desde que tenham passado por uma formação psicanalítica específica, com a inclusão da própria análise pessoal e supervisão clínica. Muitos "psicólogos psicanaliticos" preferem omitir sua primeira formação.

Não podemos desconsiderar a amplitude do campo de atuação do "profissional psicólogo", que se especializou na técnica psicanalítica, com sua escuta apurada, sua atenção flutuante, o aprimoramento de sua capacidade de análise e síntese dos processos psíquicos, ansiedades e defesas, dos aspectos transferenciais e resistenciais, sua criatividade elaborativa, sua adequação interpretativa ao momento ideal; bem como a extensão nosográfica das classificações e sub- classificações freudianas sobre a doença mental. Porém, também não podemos deixar de realçar a importância de outras teorias e técnicas, e a necessidade de conhecê-las, e porque não, dentro de nossa "identidade hospitalar" reconhecer as limitações da técnica psicanalítica e sua não abrangência a algumas patologias mentais. E, sendo assim, ante a emergência da demanda observada, utilizar instrumentações mais adequados ao "paciente", ao "existir de um doente". ao próprio "existir no meio hospitalar"

Paro por aqui. No próximo coloco novas propostas para comunicação em reuniões de equipes interdisciplinares, e para um modelo de supervisão psicológica hospitalar de caráter sempre dinâmico.

Aurora Gite

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O conjunto de "quebra-cabeças" da vida

Um quebra-cabeça... ou um conjunto de quebra-cabeças, é assim que me ponho a olhar a vida atualmente.

Tantas peças todas misturadas esperando que, com atenção, sensibilidade e inteligência, possamos observar detalhes de formas e nuances de cores. Com habilidade e destreza, possamos buscar o encaixe adequado entre as mesmas para atingir o todo previamente configurado. Grande é a satisfação interna ante o alcance do prazer por atingir seu "todo", que implica no entendimento de sua sistematização e completude. Sendo assim essa compreensão só pode ser vislumbrada ante nossa perspicácia de perceber a conexão entre as peças, e ante nossa capacidade intuitiva aberta a visão abstrata do conjunto das mesmas.

Cada peça de um quebra-cabeça, ou cada evento de nossas vidas, depende da escolha acertada, possibilidade única entre tantas oportunidades com que nos deparamos. No entanto, como acertar ante tantas peças ocultas e embaralhadas no meio de tantas outras que lhe são semelhantes? Mais ainda, como distinguir o acerto das decisões, ante peças ainda não tão visíveis na parcialidade do cenário que se constroe gradativamente. Sua construção depende das relações entre elas e o contexto global, para que possamos obter a engrenagem perfeita, que lhe permita sua sustentabilidade, inclusive ante imprevistos que surgem quando menos esperamos.

Cada situação de vida representa uma vivência, cuja qualidade depende da forma que a assimilemos. Experiência positiva ou negativa, sempre fará parte de nossa vida, sempre terá seu espaço nesse quebra-cabeça. Nele não existe lacuna. O que poderia ser chamado de lacuna, ou espaço vazio, já se constitui numa peça a ser considerada como tal. A firmeza de um ponto central está atrelada a nossa qualidade de caráter auto-referencial, que permite conviver por um tempo com a ansiedade do vácuo inicial até a percepção da integração com a plenitude do todo.

Vamos nos imaginar montando o que nos parece um belo quebra-cabeça, de muitas e muitas peças. Particularmente eu gosto de montá-los e ver as imagens se delineando pouco a pouco. Demanda muita paciência e perseverança. Uma paradinha aqui, um cafezinho ali, uma leitura acolá, e uma nova aproximação da mesa onde as peças estão espalhadas. Sob novo prisma, como por encanto, no meio de tantas uma peça se sobressai dentre as demais. E eis o encaixe perfeito, imperceptível a nossos olhos até então focados atentamente e a toda nossa concentração mental, visando o controle sobre todo aquele contexto desmanchado e borrado. E com que orgulho ouvimos de nosso interior: "Puxa, até que enfim, consegui!" Nosso peito se enche pela auto-admiração com tão simples vitória.

Novamente em minha lembrança surgem cenas nubladas de um filme, que sempre retorna a minha mente - o nome de seu título já se esvai, "Júlia" talvez - mas ainda se conservam bem nítidas as sensações que me despertaram logo no seu início. A solidão do barco, a tristeza do entardecer, a quietude do lago, a serenidade do contexto...De repente, o apagar da cena e a destreza do artista na busca de novas imagens, mais condizentes com seu aqui e agora, com o estado momentâneo de seu mundo interno. Determinado ele se esforça por encobrir a paisagem anterior. Porém na tela permanecem impressos os traços já delineados, por mais que somente a ele se tornem visíveis. Os demais poderão contemplar um belo trabalho, expressão de seu ser. Não imaginariam o que o mesmo encobre.

Como a vida nos prega uma peça. Anseios e aspirações, desejos e fantasias... Quantos sonhos e ideais imaginados! Quantas peças mal escolhidas, muitas tendo que ser desprezadas pois nas tentativas de encaixes acabam sendo deterioradas, de tal forma, que aquele quebra-cabeça não tem mais serventia.

Frustrações, raivas, brigas inúteis com a vida, aceitação do que nos impõe, tristeza profunda, resignação e sábia percepção de que na luta com a vida sempre saímos perdendo. A partir daí, "humildade" e "coragem" para novas negociações diplomáticas sobre "como viver"com a intensidade das rupturas bruscas e com o abandono das dolorosas perdas, sobre "como vislumbrar" novas formas prazerosas de vida, utilizando todas as experiências passadas. E eis que a vida nos brinda com um novo quebra-cabeça. E nos retorna a nossa capacidade de escolher montá-lo com alegria, ou ficar nos consumindo ante o que ela nos retirou e não tem retorno.

Paramos por aqui? Não!
A grandiosidade da vida é que após o término desse novo quebra-cabeça nos possibilita apreciarmos tudo que aprendemos com o anterior.
Seu jogo perverso é que o mesmo não perdura, qualquer esbarrão o desmonta e demanda nova construção, testando nossas forças internas, valores e virtudes, na leitura e interpretação do que nos ocorre com os conhecimentos e sabedoria adquiridos.

O presente da vida é a sábia vivência dando qualidade ao que nos ocorre no momento presente, sem nos prendermos ao que já foi, ou nos lançarmos avidamente ao que está por vir. Porém o desejoso desembrulhar desse "presente", não é tão simples, acarreta nova ultrapassagem, desvendando o "enigma das esfinges", para atingir o desconhecido dentro de nós mesmos, e reconhecer a validade do que recebemos da vida.

Por mais que tenhamos o relógio do tempo da vida como objeto de estimação, o mesmo não nos está disponível a nosso bel prazer, a espera de nossas opções de vida. Vale a pena esperar, mais ainda, para alterar algumas decisões desconfortáveis já tomadas?

Aurora Gite
(postado às 19:05h)

P.S. Obrigada, recebi o email e divulgo. O filme a que me referi nesse texto é "Julia" de Fred Zinnemann. Data de 1977. Jane Fonda foi a atriz principal.