sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Saudade do que poderia ter sido e não foi...
Eles bem representam a opção de um momento vivencial, uma circunstância de vida, uma história existencial, uma lembrança mantida viva, uma fonte de satisfação e orgulho por escolhas feitas.
Algumas vezes me pego refletindo sobre quantas pessoas tiveram na vida um encontrão, do qual resultou uma certeza de que valeria a pena ter investido nessa relação, e dela fugiram? Mesmo ante circunstâncias favoráveis ao redor, na época da ocorrência, se amedrontaram e não confiaram na própria capacidade de construir uma convivência serena, debaixo de uma cumplicidade fiel e leal?
Acredito que muitas conhecem a dor da saudade, do que poderia ter sido e não foi ...
E carregam dentro de si a tristeza da sensação de alguém , que poderia ter sido tão significativo em sua vida, estar tão longe, distante...
E convivem com o paradoxo da alegria de senti-lo tão presente dentro da ausência.
No entanto, poucas carregam no peito o enorme prazer de perceber, e constatar, semelhanças.
Sintonia e sincronia de valores e virtudes, que pouco sobressaem numa sociedade como a atual. O que faz valer a frase popular: "É como encontrar uma agulha num palheiro".
É difícil se enganar ante as evidências de pontos em comum, como o resgate da "dignidade humana"; a luta pelo "ser livre e feliz"; o fascínio pela "verdade e justiça", "amor e solidariedade"; o desejo de contribuir para o "bem estar social".
Esse é o espírito que envolveu a escolha desses poemas sobre o "Amor". Eles bem representam, a meu ver, o maior perigo num envolvimento amoroso:
"Amor é fogo que arde sem se ver"
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"
"Se pena por amar-vos se merece"
Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre está? Ou quem isento?
Que alma, que razão, que entendimento
Em ver-vos se não rende e obedece?
Que mor glória na vida se oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se não sente, mas esquece.
Mas se merece pena quem amando
Contínuo vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso.
Em mim, Senhora, podeis ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.
"Transforma-se o amador na cousa amada"
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
O nome de seu autor é: Luís Vaz de Camões
Ah, a dor da saudade do que poderia ter sido e não foi!
Por vezes, o peito aperta e sangue parece brotar do coração ferido.
No entanto, não se pode deixar de reconhecer que, uma saudade assim, não deixa de colorir o aqui e agora de existências humanas voltadas ao encontro da própria integridade e dignidade interior.
Mas, querem saber, hoje em dia duvido, que alguém deixe de lado um amor, mesmo quando o encontrão impactante o pegar desprevenido!
Aurora Gite
sábado, 10 de dezembro de 2011
A maratona dos cientistas
Fileira de formiguinhas, trazendo às costas o material de sobrevivência de sua espécie, obedecendo ao rítmo de cada uma das formigas, enfileiradas à sua frente, sem atropelos competitivos em seu caminhar persistente e sistemático.
Em meus devaneios, era o que ocorreria entre aqueles que se esgrimiam em seus argumentos defendendo ou criticando, na luta pela construção do mundo das idéias, que seriam aglomeradas em teorias científicas e que passariam a ser aplicadas racionalmente na prática em prol da humanidade. Assim, suas descobertas passariam a fazer parte desse "conjunto de conhecimentos sistematizados relativos a um determinado objeto de estudo" que vem receber o nome de ciência.
A ciência, no entanto, para espanto de muitos (inclusive meu), passou a ganhar "status" de algo concreto corporificado, personificado como entidade dotada de poder sobre o homem. Saiu do campo do abstrato, como tantos outros termos ideativos, e tornou-se - como a religião era antigamente - fonte de referência da verdade.
E se expandiu! A meta principal a ser atingida voltou-se para a obtenção e manutenção de poder. Não foi tão diferente do que ocorreu com a religião, agregada a instituições, onde os religiosos passaram a ter que se curvar ante um conjunto de regras a serem seguidas como estilos de vida, e dogmas a serem obedecidos sem questionar, se quiserem pertencer a categoria. Não mais prevalecia o valor das transformações interiores e da adoção de condutas éticas, mas o pagamento de dízimos e a absolvição por repetição de rezas decoradas. Hoje em dia, tem cientista para tudo. O homem passou a englobar, nesse termo, amplas áreas de conhecimentos vários. Um cientista passou a representar prestígio, fama para alguns, poder autárquico para outros.
Um parêntese, ou um lembrete de atenção, se faz mister. Tal foi o poder que o homem lhe atribuiu que tornou-se corriqueira a justificativa "Faço em nome da ciência!". A permissão para seguir adiante nos experimentos surge, não sei bem com que aval, mas sei que muitos experimentos se tornam até contrários ao bem comum da humanidade. Ops, e sei que as pessoas sabem, sabem reconhecer de onde vem a autorização. É só acompanhar o fio da meada e descobrem seu ponto inicial, mas terão que conviver com a dor da impotência e o confronto com a frustração e a raiva por se aquietar e brecar um agir ético; e isso incomoda tanto, que é melhor não insistir em observar a verdade que jaz oculta.
Quando pensava em ciência me vinha a imagem de uma maratona de cientistas, profissionais importantes na corrida em prol de novos saberes, um passando ao outro a tocha da verdade, com galhardia e orgulho, buscando no final o acender da tora que iluminaria as decisões humanas em prol de uma sociedade mais harmônica e feliz. O vislumbre esperançoso era o de contribuir para a expansão de uma sociedade onde o ser humano ganhasse em dignidade e auto-estima, a convivência usufruisse de mais paz, pelo respeito e tolerância ante as diferenças, e a raça humana mais serenidade, pelo "cuidar por amor" que se expandiria como consequência inevitável desse tipo de interação.
Como machuca se cair na real, podendo transitar no meio científico, principalmente sendo profissional da área da saúde mental. Anos passados fazendo parte, inclusive, de equipes institucionais nas áreas de pesquisa, ensino e assistência... Ops, essa ordem não deveria estar invertida?
Também penso assim, mas não é a realidade, que se pode constatar, ou se desejaria ajuizar, ainda. O que se observa são muitos, mas muitos mesmo, profissionais "de passagem" por instituições de renome, que buscam acumular conhecimentos nesse trânsito institucional e burocrático, se destacando em "especialidades", para aplicarem esse saber em seus consultórios particulares e tornarem seus nomes públicos para garantir aumento em suas contas bancárias, por "reconhecimento devido", conforme o ponto de vista que defendem. Justificativas que reportam a uma reflexão sobre a qualidade de seu ensino superior e à qualificação de seu aprendizado envolvendo o "como se tornar um ser humano".
O resultado dessa diretriz de ensino é bem diferente das máquinas registradoras pensantes, que se acumulam por aí. Calculadoras ambulantes, que visam sempre o aumento de lucros materiais, não abarcando a prazerosa gratificação obtida através dos benefícios morais multiplicados pela irradiação ambiental das atitudes virtuosas. Sua visão imediatista não se assemelha ao olhar do empreendedor da nova era. O termo virtude não está cadastrado, em seu lugar vem a mensagem do "não tem registro" nos arquivos mentais. A janela que surge em sua mente, com seu piscar intermitente indica a necessidade da vivência racional no mundo capitalista, distorcido para um frio acúmulo de riquezas materiais e o colocar sob vigilância e controle o perceptivo mundo sentimental, como se pensamento e sentimento não estivessem atrelados simbióticamente, residindo a chave mestra em seu gerenciamento adequado.
O quadro acima dificulta a administração justa e ética das incompatibilidades entre os meios acadêmicos e os profissionais que se quer lançar no mercado. Grades curriculares engessam a curiosidade espontânea, mola propulsora a ser fortalecida em qualquer cientista.
Os alunos, e os verdadeiros mestres, são enjaulados dentro de grades ideológicas poderosas, que delineiam pouco espaço ao saber em si, direcionando suas metas e avaliações a interesses outros, que não o de sanar, ou beneficiar, a demanda do "paciente social".
Na época atual, atribui-se ao ensino a bóia salvadora do quadro social que hoje vivemos. A má remuneração e má formação dos profissionais docentes são citados como principal fator desse estado de anomia e violência. A realidade, no entanto, se incumbe de espelhar outro cenário, bem diferente do idealizado e divulgado, mas isso é para quem se dispõe a ver, a se confrontar com o que é refletido, com o fenômeno real.
O foco, para despoluir o social, recai então no saneamento da ignorância pela formação de profissionais qualificados. Uma reflexão mais apurada vai constatar o desvio da atenção do que se mantém por trás dos brilhos dos diplomas: o juramento sub-liminar de manter o "status quo" do poder institucional vigente e o aprisonamento do atuar ético dentro dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Uma análise mais acurada vai comprovar que ainda vigora, pela falta de fiscalização e impunidade, o QI (quem indicou) para a aceitação e aprovação dos mestres e dos alunos. O peso das "algemas da gratidão" se faz logo presente, pois a relação simbiótica entre os envolvidos com o "tráfico de influência" é fortalecida e vicia - é uma das maiores drogas da corrupção sociopática.
Projetos de ensino e programas didáticos de maior eficácia ? Ótimo, precisamos de inovações, "desde que" sigam as normas já estabelecidas. Mudanças no mundo demandando novas estruturas, novas estratégias de ensino, nova didática? Serão consideradas, "desde que" não alterem as regras já solidificadas. Ensino que pense na formação do aluno de uma maneira global, não somente cognitiva, em qualquer nível de aprendizado, que busque despertar sua autocrítica e que leve ao despertar interior de uma ética humana e ao cuidar do bem público? Só no papel, aliás é preciso mesmo ter um registro visível do empenho por transparência, verdade, justiça, humanização... Quer termo mais pomposo que esse? Agora peça para descreverem em que consiste uma ação de humanizar! E não se assuste com a resposta que vai ouvir.
O som das palavras e os afetos, que emolduram seus significados, pairando no ar já está de bom tamanho para os "ilusionistas educacionais". Todo esse aparato já serve de palco para ótimas encenações, peças criadas com conteúdos temáticos, que o povo curte apreciar. As pessoas têm até curtido serem enganadas! A mentira corrupta, que enfraquece o peso dos valores éticos, passou a ter efeito semelhante ao ópio e se tornou um vício. A vontade de lutar por ideais mais humanizados cada vez mais enfraquece e cede lugar para a inércia de quem se aposenta da vida, se permitindo ficar no papel de mero expectador, excluído como "agente responsável atuante" no que vai acontecer.
Ao se abrirem as cortinas, o cenário bem construído, os atores bem posicionados, o texto midiático bem definido, os óculos 3D distribuídos ao público, e o mundo virtual da ilusão contamina toda a realidade das pessoas que estão no local e dependem das circunstâncias para viver. Após seu término, o entorpecimento do pensar, manipulação bem camuflada contaminando a platéia, perdura por bom tempo, mesmo à distância de sua causação imediata. Tudo bem planejado e arquitetado!
Sendo assim, nem é preciso esperar a calada da noite, para se colocar em pauta, novamente, MP antes rejeitadas, ou tomar outras medidas políticas impopulares, mas geradoras de aumento de renda aos cofres públicos e , aos de algumas pessoas físicas, em especial. E isso sem encontrar grandes resistências em serem aprovadas nesse momento de torpor.
Ah. a arte de iludir! E como existem "cientistas na arte de iludir"! O fenômeno fascina, a paralisia deprime, a resiliência constrange. Aumentos de impostos e de salários, inclusive na proporção de 200 a 300% poderão ser confrontados, e defendidos como gastos de primeira necessidade, por aqueles "escolhidos democraticamente" para gerir a "coisa pública". E a defesa dos interesses do povo?
Ora o povo (outro termo abstrato, a que cada um atribui a imagem que lhe aprouver), ora o povo... não há de querer ver seus representantes mal vestidos e andando sem ser em carros de primeira linha. O povo não precisa viver de ostentação. Quer um exemplo? É só observar sua identificação virtual com o mundo glamuroso das celebridades. O povo vive através das vidas delas, basta ver a forma como reage ao que ocorre com elas. É criar ídolos que o povo desvia sua atenção para eles, e sossega!
Ora o povo, até a época de novas eleições já esqueceu tudo! Os experimentos científicos dos cientistas da ilusão podem desativar a memória popular. Qual verdadeira lavagem cerebral, ministrando soníferos através de pequenas dosagens de sonhos imprecisos e incertos, de promessas de prazeres duvidosos ou de ameaças, fomentando o medo de represálias, se utilizam desses métodos ilusionistas, com grande potencial de alterar as percepções, semelhante aos fármacos. Aplicados, nas vésperas das eleições, alteram quaisquer circunstâncias desfavoráveis ao poder vigente.
A cegueira que impede a leitura sobre fatos reais, o pouco interesse com o bem estar do povo, o enfraquecimento intencional do poder da livre-expressão popular, a fragilização maipulada da vontade espontânea, o gerenciamento da raiva - que surge pela impotência ante injustiças - devem ser trabalhados e bem disfarçados por um ensino eficiente.
Uma didática eficaz, nesse sentido, visa reforçar esse foco e centralizar a atenção na iluminação psicodélica ofuscante do "palco das ilusões". Os sonhos têm que parecer que se tornaram reais, função da "teatralização midiática". O poder de identificação com o conteúdo da peça, tal como nas novelas, se incumbe de, virtualmente, ocasionar a vivência das circunstâncias, sentidas na imaginação como prazerosas e felizes, e o suportar as reações metabólicas reais, condizentes com esse estado psíquico. Na realidade, porém, essas vivências não se assentam no chão, pedregoso e esburacado, pelo qual os pés do povo transitam, e são lesionados, no mundo real.
O que mais leva esse aglomerado de pessoas, essa multidão; esse grupo de indivíduos que formam uma nação ou vivem numa mesma região; esse conjunto de pessoas da classe menos favorecida, essa plebe - escolha a definição do dicionário com que mais se identifique - o que leva o "povo" da sociedade contemporânea, a optar por estar assim vivendo o momento atual de sua existência ?
Para quem não conhece, indico a leitura do "Mito da Caverna", de Platão. Muitos se enfileiram para adentrar e ocupar seu lugar dentro dela. Deixam-se aprisionar sem resistir... O que os leva a isso?
Aurora Gite
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Uma identidade no meio da atopia e acronia
1- http:// www.tvcultura.cmais.com.br/rodaviva/fernando-henrique-cardoso lançando também seu novo livro "A Soma e o Resto: um olhar sobre a vida aos 80 anos".
2- http:// http://www.cpflcultura.com.br/ "Espaço, Tempo e Mundo Virtual" palestra de Marilena Chauí realizada em Campinas em 02.09.2010 e reprisada em 29.11.2011.
Uma entrevista e uma palestra, mobilizando grandes reflexões sobre o mundo atual e sobre nosso papel nesse social virtual.
Confesso que ainda estou muito apreensiva com as atribuições humanas outorgadas a essa nova categoria de seres, com os quais vamos ter que conviver: os robôs. Dessa vez, não me refiro a massa humana robotizada, não! Eu me refiro a essas máquinas, cuja tecnologia formata, cada vez mais, à imagem humana. Acredito que a gravidade desse confronto ainda não foi abarcada.
É grande o poder que o homem entrega para as novas tecnologias em prol do progresso. Inquieta, me questiono a que se refere tal progresso, já que a humanidade perde cada vez mais sua dignidade e autorrespeito, e ganha em desesperança e violência, facilmente observadas em nosso quadro social globalizado.
Os homens, a cada dia, mais se desvalorizam e se sentem impotentes frente à máquina pensante computadorizada, cujo valor de entrecruzar dados e raciocinar globalmente é inegável. O pior, a meu ver, é que todo esse processo se dá de maneira racional e voluntária. O mais surpreendente é que os homens não são forçados a se colocarem dependentes de máquinas para tudo. O mais espantoso é que desaprendem habilidades tão simples que envolvem um prazer tão corriqueiro. O espaço da imaginação criativa cede para a inércia destrutiva da condição humana saudável - física, psíquica e espiritualmente.
Ah! Gandhi e seu tear, em sua sabedoria e abertura de espaço interno para reflexões e cultivo de valores pacíficos de convivência.
Coador de pano e espremedor manual de laranjas para a refeição da manhã? Que mundo é esse se contrapondo ao mínimo esforço de realizar as mesmas tarefas com cafeteiras e espremedores elétricos cujo "único" problema vai advir com a falta de eletricidade? Aliás, se vier a faltar, a maioria da nova geração (e muitos da velha) fica perdida, e apela para a padaria da esquina.
Pensar na vida, se questionar sobre o futuro, se inquietar com conceitos abstratos como justiça, verdade, transparência, honestidade, dignidade, ética, humildade, gratidão? Que valor tem esse blá-blá-blá no mundo atual sem quadros referenciais que possam servir de apoio, que possam se constituir em pilares para um amadurecimento psíquico necessário para assumir os "nãos" na colocação dos limites pessoais, para um fortalecimento interno contra a raiva das frustrações, para um crescimento e valorização individuais que impulsiona ao "basta", para se afastar e lutar por deixar de ser peça de engrenagem nesse social contemporâneo desumanizante e robotizado.
Homens se desumanizam, embotam seu sentir e desativam seu pensar ... robôs se humanizam, "aprendem a ter emoções", a reagir a elas adequadamente, a sorrir, a falar, a abraçar, a pensar, a articular pensamentos buscando soluções inteligentes, a realizar atividades de forma independente. Uau!
Como o exército de homens, atualmente sem valores humanos referenciais, enfraquecidos em sua auto-estima, inferiorizados em suas competências, incapacitados para viver fazendo parte de equipes, irá, algum dia, enfrentar esses monstros, que se agigantam com feições de anjo e estruturas metálicas recobertas - desenhadas para se aproximar mais e mais da imagem humana com qual finalidade a não ser narcísica? - e aos quais a tecnologia instrumenta, atualmente, até para serem violentos na defesa de suas autonomias e autoprogramações para se tornarem mais humanos?
As análises de Chauí a colocaram numa posição de excluída desse social sem a força referencial das tradições, não encontrando espaço ou tempo para manifestar sua identidade já formada e assumida. Suas considerações sobre a atopia e acronia advindas com o mundo virtual, através do qual se constata a dissolução das distâncias relacionais e do embaralhamento do tempo presente-passado e futuro - tudo se resume na proximidade do outro num "agora" virtual - a levam a assumir sua impotência pessoal para se colocar nesse mundo. Coloca sua curiosidade para acompanhar e ver a maneira através da qual a nova geração vai enfrentar o novo mundo que a espera.
Como o ser humano vai despontar a partir desse "agora - não real" ? A que valores condicionará o seu existir? Essa inquietude também me contamina e angustia.
"Não real", pois não se observa a existência dos limites perceptíveis do humano. Portanto, sem as características dos cinco sentidos e até da capacidade intuitiva, que envolvem a percepção humana, a nova geração vai demandar da criação de novos referenciais e novos paradigmas na invenção de uma identidade humana, que a faculte sobreviver no mundo contemporâneo, e nele construir sua história de vida. Em outras palavras, que a possibilite colocar sua essência na forma de seu existir nesse mundo, obtendo uma qualidade de vida satisfatória e prazerosa.
Vale assistir ao vídeo da palestra de Chauí e estar atento a sua citação inicial e devidas considerações sobre a "fenomenologia da percepção", título também da obra do pensador Merlau-Ponty, que tão bem analisou a fenomelogia existencial que envolve o homem e o social.
Por outro lado, Fernando Henrique Cardoso serve de um excelente contraponto a essa posição de expectadora dentro de uma perspectiva passiva , e se coloca como o pensador atuante que, mesmo com seus 80 anos, não abandona a postura empreendedora e busca continuar a construir a história de sua vida com orgulho e dignidade, inclusive numa participação ativa em prol de um social melhor.
Fica vísivel na entrevista (link acima citado) sua função pública e o peso de seu papel como político. Vale rever e analisar como se faz a própria história de vida, e como essa escrita independe até da idade cronológica com suas limitações naturais.
Da postura de Fernando Henrique Cardoso retiro como mensagem: "Não vai ser fácil a inclusão no social virtual. Cabe a cada um abrir seu espaço: não sem antes encontrar a si mesmo na utopia e acronia virtuais". Nesse sentido, dou ênfase às suas colocações sobre o papel das redes sociais em sua vida, já dimensionada em sua plenitude e dignidade.
Vale assistir ao vídeo dessa entrevista. Depois reflita sobre como ela repercutiu dentro de você.
Ah! Não deixe de comparar os dois conteúdos, que se complementam em muitos aspectos. Estou curiosa para saber sua opção de como pretende colocar seu existir, no mundo virtual atual.
Aponto uma luz no final do túnel com:
- a separação entre espiritualidade e religião, com seu misticismo preconceituoso paralisante e seus dogmas institucionais.
- a aproximação entre espiritualidade e ciência, referendada pelas constantes descobertas científicas, cada vez mais aceleradas.
Aurora Gite
domingo, 6 de novembro de 2011
Muito além do nosso eu
Fascinante o estilo de Nicolelis. De forma simples, sensível, objetiva, detalhista do tipo passo a passo, acompanho esse neurocientista, através da leitura de seu livro, entrelaçando os dados de seus 25 anos de pesquisa com minha experiência pessoal e a eles me prendo, surpresa e assustada. Minha intuição grita dentro do meu peito: "É por aí, é por aí... estamos chegando lá!"
Ávida por saber mais sobre as descobertas de ponta no campo da neurociência, inclusive pelas assertivas sobre nosso psiquismo atrelado ao orgânico, continuo ao lado de Nicolelis fazendo parte do grupo que ele delicia, não só pelo turismo histórico na área da neurociência desde sua origens, passando pela descrição de experimentos e relato de seus resultados, como por entremear seu caminhar pessoal, rumo ao sucesso que alcançou.
Percebo que estou a seu lado subindo as escadas da FMUSP com enorme orgulho, portando meu jaleco branco, ostentando meu nome bordado no bolso. Percebo que estou a seu lado no movimento das 'Diretas já!', coração explodindo de patriotismo, fazendo parte de sua "teoria distribucionista". Até me vejo no Palestra Itália, tal como ele, torcendo pelo Palmeiras e divulgando esse time do coração. Também o acompanho em sua sensibilidade, ante a analogia de sua busca da 'sinfonia neuronal' empregando a mesma escuta apurada utilizada para a apreensão da beleza de uma música orquestrada.
Continuo a ler Nicolelis, que está tão perto de decifrar os mecanismos de fenômenos como memória, consciência humana. nosso senso de eu e percepção de mundo. "Nossa nova visão sobre o cérebro vai muito além da transmissão entre neurônios, vai ao encontro do 'ponto de vista próprio' do cérebro". (p. 51) Podem acreditar? Devem acreditar!
"Como minha pesquisa nos últimos 25 anos tem demonstrado, palavras por si só não fazem justiça à labuta da mente humana, que invariavelmente tende a ser de uma natureza muito mais probabilística do que qualquer uma das linguagens escritas e faladas usadas por neurocientistas para descrever a forma como nossos pensamentos emanam de um emaranhado de fibras nervosas." (p.131)
E eu, extasiada, juntando dados e dentre eles um se sobressaindo e pulsando contínuamente: atividades elétricas geram campo eletromagnético... atividades elétricas geram campo eletromagnético...Sendo assim, tendo nosso cérebro capacidade de autogerar eletricidade, daí advém um campo magnético ao seu redor. Como coloquei meus interesses em blogs anteriores, só destaco que estou chegando perto de minha hipótese, de que daí provém nosso psiquismo, de que o mundo psíquico que Freud observou faz parte do caleidoscópio de energia psíquica produzido pelo eletromagnetismo humano.
Após nos contemplar com algumas evidências científicas envolvendo a interação entre 'membros fantasmas' e a sensação real de dor, proveniente desses membros inexistentes; e de nos facultar conhecer atuais estudos experimentais, buscando o entendimento dos mecanismos fisiológicos que envolvem as sensações extracorpóreas, Nicolelis assim se posiciona: "A ilusão da mão de borracha e as abordagens laboratoriais capazes de induzir uma experiência extracorpórea indicam que o cérebro esculpe ativamente nosso senso de eu e o embala como um corpo físico." (p.126)
"Em cada um de nós esse órgão está trabalhando continuamente, numa rotina frenética de assimilação de tudo aquilo que nos rodeia, com o intuito de modelar nossa autoimagem corpórea com base num incessante fluxo de informação. Assim, ele não só exibe a capacidade de ser o mais sofisticado construtor de ferramentas parido pelo processo de evolução natural, como também expressa o mais voraz dos apetites por incorporar os objetos que são o fruto de nosso inconfundível e incomparável desejo de criar." (p.127)
Prossegue Nicolelis: "Levando essas idéias ao limite, os achados dão crédito à noção de que, à medida que aprendemos a utilizar uma interface cérebro-máquina - ( membros robóticos movidos com a força do pensamento, inclusive à distâncias inimagináveis até agora; dispositivos intracranianos eliminando os efeitos de doenças como já ocorre com o Mal de Parkinson, vestes especiais tornando possível aos paraplégicos voltar a caminhar...) - na qual o cérebro interage diretamente com ferramentas artificiais localizadas perto ou a distância do corpo biológico, o sistema nervoso central incorpora esses artefatos como parte de nós. Para algumas pessoas, a potencial fusão futura entre cérebros e máquinas pode soar aterrorizante, e mesmo servir como prenúncio do fim da humanidade como a conhecemos. Eu não poderia mais discordar dessa avaliação." (p.128)
Aconselho aqui a levantarem os dados biográficos de Miguel Nicolelis, abarcarem sua honestidade pessoal e credibilidade científica, para o situarem em nossa contemporaneidade. Querem mais? Ele ainda aventa a proximidade de uma nova versão da Internet - a 'brainet' - sem a necessidade de digitar ou pronunciar uma única palavra. Podem imaginar isso tão perto?
As informações chegam como um 'tsunami' em cima dos paradigmas científicos sobre o ser humano. Quanta destruição de idéias hipotéticas, teorias construídas, doutrinas e dogmas científicos enraizados! Quanta inovação arquitetônica para erguer o novo mundo da ciência que vem por aí!
Os conhecimentos atropelam a mente dos pesquisadores e ocasionam estragos em "saberes", como efeitos de um 'tornado' no ambiente físico.
Descobertas da neurociência passam a ter o mesmo efeito de um 'furacão' nas construções teóricas: tudo revirado! É se agarrar às novas evidências científicas e "crer para ver" já vendo.
De minha parte, estou tentando "respirar realidade" para encontrar fôlego, e sobreviver mentalmente, em meio a tudo que vem por aí, até ter maior compreensão sobre a extensão desses avanços tecnológicos e das novas perspectivas, e suas implicações sobre o ser humano e a humanidade contemporânea. Mas que 'tá um sufoco' está!
Valeu muito Nicolelis, que sua fé e coragem sirvam de exemplo, assim como sua humildade, paciência e determinação nesses 25 anos de pesquisa.
Tão perto agora de observar e explicar o intuir do encontro do "além eu" com a "metafísica do ser" (sem misticismos ou ocultismos com caráter de mistérios e manipulações outras) que até assusta, pois nos remete ao desconhecido e a novas apreensões sobre o mundo, esforço para novas transvalorações e abertura para nova perspectiva sobre "quem somos nós".
É a visão de um admirável mundo novo, onde não seremos tão robôs como tudo indicava. Agora é com vocês se interessarem, se mobilizarem a se conhecer e investigar o que falam a seu respeito por aí!
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Cada vez mais...
Ao ser humano cabe um só rumo em seu viver, independente de raça, credo, cultura e por aí vai... Essa lista de categorizações diferenciando os homens em sua existência é longa e bem serve para o lançar no eterno labirinto das explicações por divergências sociais, ou das justificativas por dificuldades na convivência pacífica das interações humanas, até pela falta de agilidade no autocontrole das forças pulsionais e afetivas, que agem na área psíquica e comandam as ações pessoais.
Acho importante esclarecer que aqui me refiro aos impulsos e à administração de como as emoções nos afetam, não usando o termo afeto, como mais popularmente é conhecido, como sinônimo de afeição, carinho. Não vou complicar muito tentando a terminologia de volatilidade de energia psíquica nesse momento, mas é possível se perceber como os ambientes ficam carregados, pesados ante a proximidade de algumas pessoas, e mais leves e rarefeitos ante outras.
Enquanto o homem não buscar sua emancipação pessoal, sua autolegislação, sua transvaloração das forças internas ou de seus valores, e consequente superação da condição humana atual, vai continuar "dando a cara a tapa", inclusive na convivência com os que dele se aproximam, por ignorância, maldade astuciosa ou inocência parasitória.
Não é bem assim? Então reavaliem a vida de quem identificam caber nessa moldura, só espero que não seja você, pois o caminho tendo a angústia como parceira ainda é longo, até ocorrer a percepção de que cada um é responsável pelo que lhe acontece, quer por idealizações excessivas que o fazem alterar dados reais levando ao insucesso das decisões tomadas, quer por não colocarem limites ou administrarem adequadamente a forma como são afetados pelas coisas da vida que o atingem internamente. Ou se está no comando, ou não!
A vida não aceita que se fique em cima do muro, atribuindo culpas ao mundo pelo que lhe acontece. E muito menos está disponível a queixas. Portanto que não venham as lamúrias, atribuindo o que lhe ocorre ao destino, ao acaso, a forças ocultas invejosas, ao mau olhado que lhe direcionam, ao abandono de Deus, ao mau caráter do outro, a sua falta de sorte... Por aí se estendem as queixas longas e longas, que são despejadas no "pinico" do ouvido do próximo, seja ele quem for.
Cobrar da vida é um tiro no pé. Não há volta a um tipo de dependência uterina. Aliás é esse corte que tem que ocorrer para que seu aparelho psíquico passe a funcionar e você comece a pensar por você. Só o uso dessas operações mentais é que vai lhe facultar conquistar o amadurecimento psíquico e se reconhecer único em seu sentir, pensar, intuir..., em se observar livre e responsável por suas ações individuais dentro do mundo coletivo. Sendo assim cobranças e barganhas com a vida, buscar elos passivos de dependência em que não seja preciso o esforço de pensar, equivale a um bebê que se recusa a sugar o seio e morre físicamente por inanição. Psíquicamente é o mesmo processo. É abandonar a bandeira do "Quem dá mais para cuidar de minha vida?"
Não empate seu tempo de vida nessa parada. Só vai perder forças. Um dos segredos é direcionar sua mente para outros planejamentos de vida baseados em seus recursos próprios atuais, ou nos que possa com esforço adquirir. Opa, sem ter como critério a comparação com os outros, como são e você gostaria de ser, ou pelo que têm e você gostaria de ter! Ops, sem usar pessoas como trampolins ou bengalas, na conquista de seu viver, muito menos os envolvendo em comprometimentos afetivos e acordos formais matrimoniais!
Não se escapa não, nem adianta tentar! É, cada vez mais, se disponibilizar ao confronto com a solidão prazerosa do encontro consigo mesmo, com a liberdade de "ser" e buscar "tornar-se" na igualdade das diferenças e "existir", dentro de uma fraternidade com os outros, abrindo espaço através de uma luta diária por convivências pacíficas. É o se olhar no espelho e sentir admiração e orgulho de onde se chegou e se chega após mais um dia vivido.
Não é fácil se permitir observar sua imagem refletida no espelho do olhar do outro a cada instante. Curiosa essa forma da vida nos fazer enxergar que passamos a ser, a existir e tornar-nos "eu" através do contato e da convivência com o outro ou com o mundo que nos cerca. Quer chamá-lo de coletivo, sociedade ou de humanidade? Tudo bem, desde que não se deixe seduzir pela tentação de conceitos dúbios e superficiais.
Aliás esse artifício é cada vez mais usado pela mídia contemporânea para integrar massas com o codinome de social. É fácil abandonar o esforço de pensar por si, da reflexão crítica, em prol do sentimento de pertencer ao grupo. Porém, nem sempre você consegue se preservar como sujeito de sua ação e vontade, nesse tipo de inserção. Essa inclusão não está voltada à vida de seu verdadeiro eu (essência) então a satisfação pessoal é transitória. O arauto interno do tédio e da insatisfação logo vai estar a postos para se fazer ouvir em seu apelo de vida, não simplesmente de sobrevivência em vida.
Sendo assim a partir da próxima parada, é perceber se não é o seu momento de se inserir na vida. Ela oferece as oportunidades para quem pode, quer e se esforça por, ao percebê-las, não as deixar passar, ou o que é pior, não deixar que outros a aproveitem na ilusão dependente de que irão cuidar de você. A vida é sua, foi entregue para você para cuidar dela, e não para que outro cuide por você e a você reste a falta de sentido.
O vazio do não ser, é representado pelo mal estar de ser manipulado como fantoche, ou pelo desconforto ante a apatia, ao deixar de lado sua unicidade, para fazer parte de rebanhos de fiéis escravos robotizados e entorpecidos por lideranças que assumem sua vida e se responsabilizam por seu bem estar.
Vamos tentar mais uma vez bani-los? É puxar, de dentro do peito, um surdo e poderoso grito de xô desânimo, xô depressão, xô pessimismo, xô amargura, xô tédio, insatisfação e irritação generalizadas... A vida não se posiciona contra ninguém. As pessoas é que mal direcionam suas escolhas. Assim não há tomada de decisão, que dê certo mesmo. A curto e médio prazo é cabeçada na certa. E haja angústia, desempenhando seu papel de arauto, de que a vida existe e está sendo abandonada ou negligenciada por você, cada vez mais.
Ah! Santo de casa não faz milagres, nem acender velas, nem buscar ajuda em crenças religiosas. ou algo do gênero. Não é por aí, não! É ir ao encontro da fé, da confiança em si mesma, da crença em sua capacidade e ir testando até acertar no caminho que mais a satisfaça pela proximidade com a autorrealização, que irá lhe trazer mais serenidade. Experimente dar o máximo de si ao que faz por prazer. Sinta a diferença dentro de você. Só você pode sentir esse seu "eu". que merece sua atenção e cuidado, ainda mais no mundo contemporâneo!
Esse mundo novo nos trouxe muita instrumentação pela mudança até na forma de raciocinar, cruzando dados comuns a todos, na velocidade da rede da internet. E quantas dicas e formas alternativas de produção apareceram desde então. Mas falta o principal, esse é individual e intransferível, o "querer", a vontade de viver, ocupar seu lugar na vida e conquistar a alegria do prazer em viver.
Aproveitando a "tecnologia touch" globalizada, onde por um leve toque destaco do real, e trago a uma realidade virtual, um exemplo, que cabe a muitos, com facilidade tal que, se não for checado, o que é real e o que é ficção se mesclam, e as reações, que daí resultam, tendem a ser, cada vez mais, deproporcionais. Como se isso não bastasse, recentes elos de comunicação , passam assim a, cada vez mais, fazer parte do caos da Torre de Babel já existente, agora agravado pela ausência de conceitos para definir novos fenômenos emergentes, que se atropelam pela forte significação vivencial e pela falta de nomeação, que comprometem sua expressão.
No centro de minhas divagações surgem outras imagens, que se sobrepõem a minhas idéias, sinal de que se associaram por um elo comum. Agora é buscar este ponto de ligação. Esse exercício mental me é familiar. Então vamos lá!
Por volta de 50 anos cada um, dois profissionais com dificuldade para inserção no mercado, com a mesma linha de atuação e marcação de espaço na vida, se encontram. Planos lindos de parcerias, sonhos com cenários prontos e atuações lucrativas, ilusões que encobrem a realidade e afastam fatos e evidências, únicos dados que possibilitam à razão humana, escolhas e tomada de decisões mais acertadas. Depois de efetivarem alguns passos referentes a locais de trabalho pelo lado de um, deslocamentos de equipamentos cirúrgicos por parte de outros se dão conta das dificuldades financeiras. Seus planos estavam embasados no dinheiro de terceiros, desconsiderando possíveis desinteresses dos mesmos ou não disponibilidades até de familiares.
Embora me remeta ao objetivo inicial, o que vem agora passou a fazer parte de outro contexto. Então é usar a famosa frase: "Mas essa já é uma outra história..." a fazer parte de um outro blog a caminho... esse é o movimento da vida atual. Nada de estagnação, fazer sempre a fila andar...
Tudo é dinâmico nesse processo de se autoconhecer, contínuo e rápido, parte de viver o momento atual com sua multiplicidade de informações, que buscam seu poder ao galgarem o posto de novos conhecimentos. As idéias, afetos e relações, como num tsunami, se atropelam e são engalfinhados por ondas enormes. Cenários se misturam demandando esforço para sua recomposição e readaptações às novas sequências de desenhos circunstanciais.
Uau! O perigo é se deixar envolver na velocidade do "tornado", cuja força e intempestividade arrasta todo conhecimento a que se chega. O antídoto é estar atento para não se permitir cair na cegueira do centro do furacão, que se tornou o "mundo do saber" atual. É aqui que a vida e o sujeito podem ser separados e lançados num abismo a se perder de vista.
A convivência com perdas e com a imprevisibilidade se torna um aprendizado constante. Para que tal não ocorra, é preciso muita firmeza, coragem, honestidade consigo mesmo e, cada vez mais, muita... muita... muita esperança de que advenham momentos mais confortantes após esse vendaval. Ufa, que sufoco!
domingo, 25 de setembro de 2011
Uma paciente especial
Sua primeira frase: "Nossa, quanto tempo! Mas parece que foi ontem que me aproximei procurando ajuda." Também assim me sentia. Ante algumas pessoas, não necessariamente pacientes significativas, não é o tempo cronológico que impera. Talvez algum dia ainda possamos compreender melhor esse fenômeno, e descobrir a força que une algumas pessoas por empatia, por sintonia, por sincronia, por sinergia ou outros "sin", que envolvem a sinceridade de uma entrega verdadeira e o singelo afeto, que brota de dentro do peito e não de nosso racional. A percepção da dignidade do caráter do outro emana de outro nível de aproximação interpessoal, de um elo intuitivo que reforça a singularidade do vínculo e nos espanta a ponto de questionarmos: "Será que ela existe assim como estou intuindo? É melhor considerar e estar atenta: ou é muito boa, ou é muito ruim!"
Lembrava, com clareza que me assustava, detalhes que contara sobre sua história de vida, e de sua fragilidade contrastando com uma força interna, fato que me causava enorme admiração e espanto por ainda conservar sua integridade psíquica. A vida lhe confrontara com tantas rejeições; hoje me parece que para fazê-la enfrentar sua vulnerabilidade e insegurança rumo ao, que mais prezava, ser livre e feliz. Brincava sobre a forma que gostaria de ser lembrada: "Aquela que conseguiu que seu "ser livre e feliz" emergisse de dentro de si, e lutasse em prol de uma sociedade com mais "justiça e dignidade", com uma Justiça que pudesse ostentar a Verdade ao espelhar sua transparência legal e humana".
E lá vinha ela a me provocar... "E aí, minha permissão já teve, ainda não colocou no papel minha história e como o fenômeno transferencial contaminou nossa relação paciente/terapeuta?" Parece que nossas histórias de vida não foram tão diferentes no que nos trouxeram de sofrimento pela solidão e isolamento afetivo a que nos remeteram, e pelas ambivalências afetivas, pois embora muitas relações superprotetoras, as mesmas mais nos afogaram com seu amor que nos remeteram a uma liberdade de "ser", nos jogando na masmorra camuflada de atenções e cuidados, que reforçavam nossa dependência, nossa insegurança e nossa inferioridade. Como crescer sem cortar esses vínculos dentro de nós e nos tornarmos independentes?"
Nessa altura já desconfortável, mudava minha posição em minha cadeira de terapeuta. "Quem ela pensa que é?" Vi que meu emocional respondia direto às suas colocações e que aspectos contratransferenciais se faziam presentes. Acionando meu racional, podia constatar o quanto de veracidade existia em suas palavras. De repente, lembrei de um sonho que ela me colocara várias vezes quando em terapia onde se via atravessando uma ponte, sentia minha presença a seu lado, mas podia me observar físicamente lá na frente, no término da travessia. Talvez devesse ter trabalhado mais essas representações, conforme elas foram se apresentando, talvez...
Fato concreto: como terapeutas, nem sempre temos condições de abarcar o todo contextual ao redor dos pacientes e de prever suas reações frente a suas vidas cotidianas; muito menos ações de familiares, que modificam totalmente o rumo de vida dos pacientes, e lhes imputam derivar as mesmas de conselhos do próprio terapeuta... nova carga pesada, muito pesada, segundo a paciente já havia me colocado há alguns anos atrás. Na prática, foi obrigada a carregá-la perante filhos, familiares e amigos. Mas conviver com injustiça e rejeição se constituía para ela em lugar comum. Sobreviveu! Como colocava: "Vou desabar quando tiver que conviver com um amor sincero em suas afinidades, lealdades e cumplicidades."
E aqui me via, buscando me proteger internamente de mim mesma, pois sua aproximação me remetia a vários questionamentos sobre minha própria vida, opções ante várias alternativas e o convívio com decisões tomadas pela insegurança e medo... Não posso escapar do confronto com o "talvez obsessivo" , que me acompanhou a vida toda e me impediu de correr riscos e me impeliu a buscar controles racionais, jaulas protetoras imaginárias.
Hoje tenho plena consciência que não podemos tornar o desconhecido controlável, não podemos amordaçar e vendar o destino colocando nossa segurança a toda prova, aliás... o maior risco está em não aprendermos a conviver conosco mesmo, a respeitar e admirar quem realmente somos, sabendo que podemos alterar ou controlar nossos aspectos internos que desgostamos; em desistirmos de ser "heróis" perante nós mesmos, pois a tarefa acima envolve honestidade, coragem e humanidade direcionadas a nós mesmos.
Gosto de contemplar meu ser livre e feliz, digno moralmente, sabendo que a cada minuto tenho que enfrentar vários dragões sociais e de meu mundo interno, para preservá-lo. Tenho também como certo, aliás minha única certeza, minha intenção de soltá-lo, reconhecendo que é capaz de enfrentar essas feras, às quais nossa imaginação atribui dimensões gigantescas. Não mais preciso mantê-lo na masmorra interna onde o enclausurava, nem isolá-lo em seu "existir no mundo" e em seu "ser do mundo".
Agora, lá vou eu, desarmada, receptiva e confiante, buscar o significado desse novo contato para nós duas, pessoas humanas, não mais paciente e terapeuta.
Aurora Gite
25/09/201 postado às 14:20h
domingo, 14 de agosto de 2011
Resgate do "espaço do sujeito" na organização
As gestões participativas, com seu discurso de transparência, organograma hierárquico horizontal e programas de formação de lideranças, mudou a forma de interações na empresa. A demanda atual clama por novas leituras e interpretações do capital humano.
Projetos programáticos, planejamentos estratégicos e logísticas operacionais passam a ter por meta : impedir a queda das produções interativas, o despencar das ações humanas no bloco das bolsas das equipes, e o enfraquecimento de seus pesos atitudinais e valores morais.
Crises de estabilidade advém das mudanças estruturais ocasionadas pela alteração do tradicional eixo de hierarquia vertical (chefias/subordinados) para o eixo horizontal das gestões participativas (lideranças/colaboradores) e das equipes formando times. Convém ter sempre presente que qualquer mudança estrutural no trabalho representa uma ameaça real, risco de demissão ou remanejamento de funções e locais; e, também, perigos fantasiosos, ampliados por desvalias e inseguranças pessoais, gerando muitas fofocas e uma rede de intrigas. Essas futricas danosas, que a má fé e o mau caráter se incumbem de espalhar, em mãos de "perversos, narcisístas e maquiavélicos", travam o fluxo de informação e ocasionam a distorção na comunicação e na percepção da realidade.
Comunicação truncada, falta de coerência intencional nas mensagens, embotamento afetivo, ansiedades persecutórias, sensação constante de ameaça à integridade do prestígio funcional, posturas vingativas e "puxadas de tapete" baseadas em fantasias subjetivas, reações agressivas e impulsivas sem medir consequências morais: eis o início da descapitalização do patrimônio humano na empresa, e da maquiavélica manipulação "psicotizante" . Distanciado dos princípios racionais da realidade e próximo dos delírios (alterações nos juízos) e das alucinações (alterações nas percepções), o "sujeito" dentro de cada pessoa, independente de seu lugar no organograma institucional, perde seu espaço.
Ante a realidade, cindida e embaralhada, muitos para a própria sobrevivência psíquica e preservação no quadro organizacional, passam a desconsiderar dados racionais e sequências de fatos reais. É o apego a sua razão e valorização pessoal interna, que podem mantê-los com o pé na realidade da situação vivida. É alto o custo para se preservar íntegro, conviver pacíficamente e sobreviver psíquicamente num ambiente onde predominam mensagens ambivalentes do tipo "Faça o que eu mando, mas não o que faço"; "Estou indo, já passei meu cartão (na entrada ou na saída, ou em ambas), mas você não me viu!"; "Não alterei o horário de 9:00h, mas mande a mensagem que a reunião de diretoria passou para o período da tarde, pois, como assessora, não quero a presença dele".
Não se pode ocultar que grande dificuldade, quanto a limites na empresa, reside na ignorância sobre a competências de ações do próprio cargo, falta de conhecimento que interfere na seleção de profissionais. Engenheiros montam "desenhos operacionais" voltados a padronizações e robotizações, priorizando a validação produtiva para a empresa (seu patrão) e obedecendo suas diretrizes. Considerar o espaço de sujeitos é com recursos humanos? Esquecem que organizações dependem dos fenômenos sistêmicos e demandam uma visão holística para sua compreensão como um todo de partes interdependentes em constante dialéticas, trocas que podem alterar substancialmente a produtividade da empresa e a fidelidade da clientela, se suas influências negativas não forem detectadas precocemente. Por exemplo, um mau atendimento de um porteiro pode afetar emocionalmente um cliente, influenciando seu modo de interagir com o ascensorista, se estendendo a recepcionista... e nessa sequência interferindo até na escuta aberta em reuniões e importantes tomadas de decisões.
No esquema de autoridade vertical, a meritocracia é de quem impõe suas ordens e obriga seguidores a obedecer. Quer maior fator desmotivador para uma colaboração voluntária ? Na transparência da gestão participativa, o mérito recai sobre a competência do colaborador em determinada função e para isso tem que haver a preservação de seu espaço como "sujeito", abertura para sua individualidade criativa e inovadora, reconhecimento real e gratificante do seu desempenho na solução do problema empresarial.
Como atuar então?
Investir diretamente contra chefia, ou por meio de queixas formais?
Vai cair na avaliação de inadequação e rebeldia a figuras que representem autoridade; sem programas de treinamento poderá passar a remanejamento ou afastamento direto da empresa.
Como fazer para resgatar éticamente o "espaço do sujeito" na organização?
Ante esse quadro situacional e motivacional eis dois mapeamentos que podem servir se procura também esse resgate. Em ambos pode-se observar a coleta de sugestões e a implicação do sujeito resgatando sua história dentro da empresa e seu cuidar da empresa que o acolhe.
Vou transcrever sem a formatação estética e espaços que tal mapeamento demandaria. Em ambos espaços, na parte superior da folha, para os dados referentes a: data, serviço, setor, cargo, tempo de serviço, sexo, idade, estado civil, escolaridade, religião.
* Questões para um MAPEAMENTO SITUACIONAL
1- Cite 3 (três) características pessoais importantes para o funcionário que ocupa este cargo e 3 (três) que atrapalhariam seu bom desempenho.
2- Apresente 2 (duas) sugestões, ou mais, possíveis de serem implantadas nesse momento, que poderiam facilitar o serviço de quem exerce esse cargo. Justifique.
3- Segundo você, o que poderia dificultar sua implantação, no momento atual?
4- Defina com uma palavra o que "um trabalho" representa para você.
5- Cite uma imagem que represente o "seu trabalho atual" e justifique a escolha.
**Questões para um MAPEAMENTO MOTIVACIONAL
I -"Eu trabalho nesta empresa porque..."
( Marque os pontos mais importantes do motivo de trabalhar nesta empresa. Escolha até no máximo 5 (cinco) alternativas, numerando por ordem de importância.)
( ) 1- Tenho chancer de crescer na empresa.
( ) 2- Tenho estabilidade no emprego.
( ) 3- Por falta de opções.
( ) 4- Tenho muitos amigos aqui.
( ) 5- O ambiente físico do trabalho é bom.
( ) 6- O ambiente humano do trabalho é bom.
( ) 7- O trabalho que faço é interessante.
( ) 8- O salário é bom.
( ) 9- Os benefícios são bons.
( )10-Tenho liberdade para apresentar sugestões.
( )11-Gosto do que faço.
( )12-Porque me dá prestígio.
( )13-Porque seria difícil conseguir um emprego melhor.
( )14-Porque o mercado não está favorável a mudanças.
( )15-Por outro motivo. Qual?
II- Sem ser aumento de salário, cite 3 benefícios importantes para você.
Vai se surpreender com os dados que vai obter!
Sobre essa base poderão ser construídos programas mais eficazes e mobilizadores da motivação dos colaboradores dentro de uma gestão participativa. Agora é mãos a obra e enquadrar a investigação do capital humano de sua empresa nesse esquema, priorizando os aspectos específicos, que caracterizam sua organização: perfil, valores e missão, política interna e externa.
Boa sorte em seu empenho por essa conquista em prol de um social mais humano! Aurora Gite