quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Um ano de existência, Aurora Gite?
Quase não o sentimos quando fazemos algo que nos é agradável, e nos entregamos por completo a cada momento vivido.
Busquei uma autorealização em cada blog. Curti assim, e muito, o nascimento de Aurora Gite, e seu percurso durante esse ano de existência.
A escolha do nome representou a vivência que deu a maior guinada em minha vida. Doída por não estar fortalecida o suficiente para me bancar, não só psíquicamente a nível de uma boa autoestima, mas também com a formação de estrutura independente para me permitir a nível prático, uma boa qualidade de vida. Também tive o empurrão de fatores circunstanciais, imprevisíveis e muito desagradáveis, que, obrigatoriamente, me levaram a refletir sobre o que acontecia comigo e ao meu redor, buscando abarcar e compreender o que a vida estava tentando me mostrar, e eu como cega não conseguia enxergar e assimilar.
Como encadear todos os fatos e associá-los às qualidades das vivências foi meu maior desafio. Como efetuar a leitura adequada do que me acontecia, a fim de apreender o significado de tudo que me ocorria. Como aceitar e chegar a uma resignação mais harmônica dentro de mim ante tantas situações que fugiram a meu controle, foi minha maior conquista, pois demandou muita disciplina interna e constante reforço de méritos e amor próprio. Como alvorecer (aurora) no encontro com o ser só que habita nosso mundo interior, verdadeiro lar (gite) em essência humana, necessitou de muito esforço, dignidade e valorização como pessoa.
O surgimento do blog teve sua representação afetiva. A abertura desse espaço veio mais por um impulso e vontade de continuar me comunicando com algumas pessoas, que sabia estarem sendo muito importantes para mim por me permitirem somar experiências de vida e crescer internamente com esse agregar. As trocas efetuadas me permitiram maior autoconhecimento, além de me confrontar com o prazer genuíno da música e da pintura, aspectos tão distantes de minha vida, mais voltada , há anos, para vorazes e constantes atualizações de pesquisas e estudos dos fenômenos mentais. Sabia que faziam parte dos rápidos encontrões que damos durante nossas vidas, mas que nos deixam marcas profundas, que carregamos por toda nossa existência.
Registros nos blogs foram a forma de perpetuá-los e tornar mais viva essas presenças dentro de mim. Essa foi a maneira que encontrei de concretizar imagens, armanezadas com tanta lucidez através do disco rígido da memória, que contém as idéias abstratas que, se acionadas corretamente, podem ser nossa fonte inspiradora, força encorajadora em momentos de "blecaute".
Senti a perda de contato como colocado no blog "imprevisibilidade blogueira" . Mas essa perda me levou a refletir muito sobre a relação digital, o tipo de envolvimento buscado e o que se pode esperar. Não é uma relação tão fria e distante assim. Não se desliga um computador e a interrompemos, mas a carregamos pelo tipo de vínculo estabelecido. Torna-se assim uma fonte de autoconhecimento, para aqueles, que ousam a aproximação consigo mesmo, é bem verdade.
Coloco minha frustração inicial pela dificuldade de trocas mais consistentes. Até que pude exercitar leituras ante várias perspectivas.
Aprendi a respeitar as diferenças e a me aproximar dos blogs com os quais tivesse maior sintonia, como também aceitar os bloqueios que porventura adviessem ( não sem uma pontada de tristeza, pois, muitas vezes, o pouco contato entre blogueiros não permitiu nenhum "encontrão virtual" ).
O que seria importante para alguns, como usar o blog para discorrer sobre painéis de carros de luxo, sobre "status" em campos de golfe, sobre a solidão e importância de se situar ante tantos controles remotos, ou mesmo para aqueles que o usam mais como albúm de fotos familiares, não o eram para mim no início. Depois aprendi a admirar por si cada colocação, cada criação, cada comentário a respeito das mesmas. Tudo possui sua grandeza específica para cada blogueiro, tornando-se elo para a qualidade dos vínculos a serem estabelecidos.
Aprendi a diminuir minhas expectativas sobre possíveis retornos de pessoas catalogadas por mim com inteligência capaz de entrecruzar informações e me dar oportunidade, por esse contato digital, de crescimento profissional e pessoal. O que fazemos de nossas experiências é de nosso e exclusivo domínio. Minha vida ganha mais sentido com relações que me facultam ir além do que me é conhecido. As próprias relações assim se engrandecem e os elos se fortalecem e se renovam, não ficam patinando no marasmo da mesmice.
Queria rechear meu blog com assuntos que mobilizassem reflexões, que o tornassem um agente de transformação social e pessoal. Mesmo com temáticas cotidianas podemos conseguir tal profundidade de ação em prol de uma melhor qualidade de vida do ser humano, encorajando a um afastamento da sensação de fracasso e solidão, que assola nosso social durante esse momento de crises em várias dimensões. Como coloco em vários blogs, todas crises acabam afunilando para o encontro do ser humano consigo mesmo e com o que ele fez, de sua vida, até o momento presente. Embora sofrido para muitos, pode tornar-se o élan para novas escolhas individuais e busca de um existir mais feliz.
Essa foi e continua sendo a minha maior pretensão ao manter Aurora Gite, forma encontrada de conservar vivo um ideal, dando uma amplitude de sentido a uma meta de vida.
Agora é tocar para frente, com amor e entusiasmo, autovalorizando esse espaço em seu primeiro ano de vida.
Agradeço aos que se lembraram.
Ah, o dia 15 de outubro, comemoração do Dia dos Professores, foi por acaso. Agradeço a cada médico, enfermeira, técnicos em Radiologia Médica, profissionais de saúde que me deram seu retorno sobre como minhas aulas de psicologia prática influenciaram em sua conduta.
Aurora Gite
domingo, 4 de outubro de 2009
Small World
E aqui estou eu a ler: " A vitória do povo brasileiro, como definiu Lula, é a notícia de maior destaque por todo mundo nesta sexta-feira. Os sites do norte-americano "New York Times", do espanhol "El País", do alemão "Der Spiegel", do britânico "The Guardian", do sueco "Svenska Dagbladet" e do francês "Le Monde" elevaram a notícia à manchete. (FolhaOnline, 02/10/2009)
Tenho por hábito consultar o "El País", o "Le Monde", o "New York Times, o argentino "Clarín". Acho fascinante abrir esse leque e observar uma mesma situação sob várias perspectivas.
Em 24/09/09, Andrea Rizzi do "El País" nos confrontava com o artigo intitulado "O Banco do futuro será de urânio", focando a idéia de se criar um armazém da ONU que garanta a todos os países combustível para reatores nucleares.
Já em 03/10/09, William J.Brood e David E. Sanger, do New York Times, publicam seu texto sob o título " Relatório da ONU diz que Irã tem informações para construir bomba nuclear". Colocam como crença emergente, fator preocupante para a humanidade e desafio para Obama, presidente atual dos Estados Unidos, as provas contidas nesse relatório elaborado por especialistas da AIEA ( Agência Internacional de Energia Atômica).
Em 04/10/09, Laura Lucchini, correspondente de El País em Berlim, apresenta "A maioria das crianças nascidas a partir de 2000, chegará aos 100 anos, aponta estudo". Discorre sobre estudos sobre o envelhecimento, expectativas de vida e desenvolvimento de doenças, realizados por pesquisadores dinamarqueses e alemães, publicados pela revista científica "The Lancet", através dos quais, as pessoas desse século, não só viverão mais, mas terão menos limitações e incapacidades decorrentes dos avanços médicos e tecnológicos, dos auto-cuidados (alimentação e esportes). E já previnem: "... com altos custos para o Estado, no futuro."
Ei, esperem, eu ainda estou dentro do "Small World"!
Segundo a Folha Online, de 03/10/09, o suiço Joseph Blatter, presidente da Fifa, elogia o discurso do presidente do Brasil, ao defender a candidatura do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. "Essa candidatura não é nossa, mas é da América do Sul. Um continente que nunca sediou uma Olimpíada, está na hora de corrigir isso. (...) Entre as 10 maiores economias do mundo, somos os únicos que não sediaram a Olimpíada. Para os outros (Chicago-EUA, Tóquio-Japão, Madrí-Espanha), será mais uma Olimpíada, mas para nós será uma oportunidade sem igual. (...) "
Essa vitória, segundo palavras de Lula, representou a concretização da cidadania brasileira. Confesso a vocês que também não contive minha emoção de patriota, meus olhos ficaram marejados de lágrimas, meu peito se encheu de orgulho pela minha nação. E deu Brasil!!!
Uma nova notícia me chama a atenção: " Foi uma vitória da ficção" de Juca Kfouri, jornalista e blogueiro, colunista da Folha.
Já estou saindo do Small World? Todos os indícios me apontam que sim.
Segundo Kfouri: "O anúncio do Rio de Janeiro, como sede dos Jogos de 2016, é um sonho que se tornou realidade, graças ao trabalho da delegação brasileira. Mas foi um verdadeiro show , uma vitória da ficção (... ). Daqui a pouco vai começar a realidade e aí ...
Saindo do Small World, não paro nas notícias de Jean-Pierre Langellier, do Le Monde, datada de 02/10/09: " No Brasil, o presidente Lula é criticado pela forma como administrou a crise hondurenha".
Sigo direto para a publicação de José Andrés Rojo para o jornal "El País". Seu artigo, datado de 04/10/09, tem o título : Intelectuais Domados? . O autor comenta sobre "o compromisso público do escritor (que) mudou numa sociedade fragmentada e globalizada". No entanto, "a reflexão política e moral continua sendo um desafio obrigatório".
Esse texto novamente me encheu de esperança. Reparem as décadas de nascimento dos intelectuais comentados.
Rojo cita idéias de vários intelectuais e escritores sobre o tema e suas dificuldades para abordar a violência de nossa época. " Já não existe mais o intelectual com vocação para se transformar em consciência moral da sociedade" ( Edmundo Paz Soldán, nascido em 1967), mas "O intelectual tem obrigação de intervir no debate cívico"( Mario Vargas Llosa, Arequipa, em 1936) ."Creio que um intelectual tem por obrigação ter um papel social"(Lolita Bosch, nascida em Barcelona em 1970).
"Antes queríamos mudar o mundo, agora nos conformamos que não exploda"( Santiago Roncagliolo, nascido em Lima, em 1975). "Multiplicaram-se a violência, a pobreza, a desigualdade e, cada vez são menores, as possibilidades das novas gerações frente ao futuro"(Sérgio Gonzáles Rodriguez, México, 1950).
"Os grandes meios, portanto, com sua ânsia pelo imediatismo, acabaram com o prestígio da opinião repousada, elaborada, meditada. Acabaram com os registros que, por fim, definem a tarefa de um intelectual. (...) "O intelectual já sai comprometido desde casa. Não há um grau certo, não há um grau neutro onde se possa tomar partido. Cada qual ocupa um lugar dentro de uma hierarquia e isso já significa uma subordinação a uma forma de poder, seja qual for"(Eloy Fernández Porta, Barcelona, 1974).
"O século 20 se encarregou de mostrar como o socialismo cubano não soube conviver com a liberdade, e como as democracias latino-americanas não conseguem acabar com a pobreza. (Paz Soldán). "A questão fundamental, creio, é a do reconhecimento. Um mundo fragmentado, uma sociedade global onde se ignora o que está mais próximo, um sistema de poder silenciando os diferentes países enfiados até o pescoço na violência, populações pobres de solenidade". (Fernández Porta).
Que venham as Olimpíadas em 2016, pois desde já estão nos propiciando o reconhecimento do Brasil!
Que persistam essas solenidades, que mobilizam nosso patriotismo, enchendo o nosso peito de orgulho de sermos brasileiros, e que revigoram o valor de nossa cidadania e de nosso papel social!
Aurora Gite
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Tentando entender, aplaudo de pé.
O primeiro texto realça o papel desempenhado por Adolfo Facussé, Presidente da Associação de Industriais de Honduras, na busca de uma saída doméstica para a crise, apresentando proposta para uma solução hondurenha livre da ingerência externa, ou seja, de intervenções estrangeiras.
Segundo Facussé, respondendo a perguntas do entrevistador: "Que o diálogo seja feito entre hondurenhos, que paremos de esperar que mediadores de fora, a ONU (Organização das Nações Unidas) , a OEA (Organização dos Estados Americanos), resolvam o problema. Dialoguemos e resolvamos a situação por nós mesmos. A proposta pode ser melhorada, mas pelo menos o diálogo já terá começado... A proposta foi preparada por um grupo de membros da Associação de Industriais reunidos em uma comissão especial. Eu a apresentei, mas não é uma questão pessoal. O importante não é a proposta em si, mas que existe um grupo de hondurenhos dizendo: Sentemo-nos e dialoguemos nós mesmos."
Percebem a diferença de um verdadeiro patriota, pensando no bem coletivo nacional?
Do segundo texto realço a postura do Senador Demóstenes Torres (DEM-GO), respondendo à solicitação do Senador Aloízio Mercadante (SP) de voto de censura ao cerco da embaixada do Brasil em Tegucicalpa e repúdio ao governo golpista de Honduras.
" Eu acho que não devia mais ter embaixada lá. Se o Brasil não reconhece o governo, que se ausente de lá. O Brasil precisa compreender que os "paisetes" , que ele quer liderar, não querem a liderança do Brasil... Por que o Senado vai entrar nessa trapalhada? Por que vamos trazer um desgaste para o Senado? Acho que se aprovarmos será uma atitude irresponsável do Senado sem que haja nesse texto qualquer condenação à diplomacia brasileira, que quebrou as regras internacionais", afirmou o Senador.
Sem espetacularização, buscando interromper o acirramento dos ânimos, o senador Demóstenes Torres, nos confronta com a realidade de atitudes inadequadas dos profissionais responsáveis pelas negociações diplomáticas, que envolveram o Brasil em tais conflitos internos de Honduras e com a necessidade do Senado Brasileiro reconhecer os limites e verdadeiras funções de seus senadores . E é somente dentro dessa perspectiva sobre dados circunstanciais, que se pode vislumbrar uma solução para a crise.
Convém reforçar que: "A embaixada deixara de ter esse status desde que o governo brasileiro dali se retirou. O controle interno do antigo recinto da embaixada escapou dos funcionários brasileiros encarregados de zelar pela antiga sede da missão diplomática brasileira e era exercido por Zelaya e seguidores. Pedidos a Zelaya, por parte de Lula e Amorim, não foram atendidos. O local continuou uma central de agitação." Segundo notas da Uol Notícias de 30/09/09 , " Zelaya é o hóspede inconveniente, que se comporta como dono da casa, tamanha é sua liberdade de ação."
"Um país que tem aspirações a ser um líder mundial, não pode aparentar cumplicidade com radicais... A única saída digna para o governo brasileiro da armadilha em que se meteu parece ser a concessão de asilo a Zelaya em território nacional. O problema é convencê-lo a aceitar essa solução." Aqui cito frases de um dos comentários sobre esse texto: "Para Zelaya parece não existir lei. Está acima dela e faz o que quiser. Pouco se importa com os outros." Tentem refletir sobre esse perfil psicológico.
O terceiro texto, referido por mim no primeiro parágrafo, busca estabelecer a diferença entre governo interino e governo golpista e, para isso, seu autor entrou em contato com vários especialistas. A leitura na íntegra vale a pena.
Esses são os fatores que permitem chamar o governo de Honduras de golpista e não de interino:
- A falta de devido processo legal, através do qual é preservado o direito ao contraditório (direito de defesa) ;
- a inexistência de apoio da comunidade internacional, expresso no não reconhecimento do governo de Roberto Micheletti;
- a origem de um levante para remover um chefe de Estado, legitimamente eleito , nada prevendo que deveria ser expulso do país como foi.
Pela 4ª Cláusula da Constituição Hondurenha, "tentativas de mudar a Carta implicam perda imediata do cargo público". Zelaya, enquanto presidente, buscava convocar plebiscito para alterá-la, daí a acusação dos golpistas de abuso do poder e de traição à pátria.
Para Dallari, professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo: " Diante de suposta violação, decidiu-se simplesmente tirar o presidente do país e instituir outro regime. Isso permite dizer que já há lá um governo golpista... e que não foi observado o direito de defesa."
Para Rafael Villa, especialista venezuelano em questões latino-americanas, " A linha divisória entre governo de fato e governo golpista não existe. Ambos emergem fora das regras estabelecidas e que dão legitimidade. Ambos supõem governo fora da legalidade e carentes de legitimidade. É esse o caso em Honduras... A ordem institucional foi rompida."
Encerro essa postagem com a frase de Micheletti, registrada no texto da Uol Notícias, segundo o qual ele estaria aberto à nova proposta de Facussé, que prevê sua renúncia da gestão interina e imediata posse da presidência do Congresso: " Isso não é permitido pela lei, mas estou disposto a renunciar e vou para casa".
E eu fico me perguntando, dentro de "golpe militar", de posse do "supremo poder sobre a nação", acusado de totalitário ao adotar medidas emergentes -impeditivas da amplitude do caos social -, quem adotaria essa atitude de renúncia voluntária e passagem de poder, desde que a Pátria Hondurenha e sua Constituição estivesse preservada? Como essa liderança passará para a História do País Honduras?
Aurora Gitequarta-feira, 30 de setembro de 2009
Até que enfim! Excelente análise Nêumanne!
"Banzé brasuca em Tegucigalpa"
Quase ouço sua voz dizendo: "José Nêumanne, para o Estadão.com.br ."
E eis que alguém ousou, se levantou e gritou: "O rei está nu". E quantos reis apareceram e se perceberam desnudados.
Parabéns, Nêumanne! Resgatou o valor da profissão e a dignidade do país para mim. Aliás cita os "coleguinhas jornalistas" no excelente artigo, e aborda como ninguém até agora o que estão fazendo com o Brasil.
Estou revigorada como cidadã! O pouco que posso fazer é divulgar seu artigo, e indicar sua qualidade e necessidade ante o momento político que vivemos.
José Nêumanne é jornalista e escritor. É editorialista do Jornal da Tarde. Procuro sempre ler seus artigos na seção Opinião do Jornal "O Estado de São Paulo". Agora transcrevo algumas partes do artigo citado acima, assumindo o espaçamento para maior realce das idéias:
"Collor nem sonhou tentar o que Zelaya tentou: mudar a Constituição e convocar um plebiscito para permitir sua permanência no cargo, ao arrepio do Congresso e da Justiça.
O ex-presidente hondurenho pediu apoio aos militares e, não o tendo obtido, demitiu o comandante das Forças Armadas. A Justiça mandou depô-lo, empossou o presidente do Congresso e não permitiu que ele se vestisse, embarcando-o de pijama para o exterior.
O mundo inteiro se revoltou com a desfaçatez dos "golpistas" de Honduras por crassa ignorância das regras constitucionais vigentes num país minúsculo e miserável.
Teceu-se, aí, com rapidez, a cortina de fumaça do governo "golpista" e do "martírio" do presidente eleito pelo povo e deposto por militares num novo e típico pronunciamiento latino-americano.
No afã de não repetir Bush, Barack Obama, assessorado por madame Clinton, absolutamente jejuna em quaisquer assuntos ao sul do Rio Grande, condenou a deposição, mas depois foi tratar de problemas mais relevantes. Com o "não temos nada com isso" dos xerifes do mundo, tudo se encaminhava para uma solução simples e cômoda do episódio: as eleições presidenciais poderiam ser realizadas e a paz democrática voltaria a reinar naquele antigo pedaço do império da United Fruit Company.
Aí entrou em ação o coronel golpista Hugo Chávez, que despachou de volta para o centro dos acontecimentos o presidente deposto.
Este cruzou a fronteira, mas voltou por cima dos pés para, em seguida, empreender uma entrada espetacular em Tegucigalpa, mercê do engenho estratégico do amigo venezuelano e do peculiar conceito sobre democracia da companheirada brasileira. Dirigente sindical no fim da ditadura militar, quando o general Geisel cunhou sua "democracia relativa", Lulinha Paz e Amor inventou a "democracia de conveniência", adaptação petista da sentença de Artur Bernardes: "Para os amigos, tudo; para os inimigos, o rigor da lei."
Ahmadinejad roubou a eleição no Irã? Isso não interessa ao Brasil, que não pode intervir na soberania iraniana. Ahmadinejad nega o holocausto? O fato de sermos amigos não nos força a pensarmos da mesma forma.Mas o mesmo não vale para Honduras, que não tem projeto bélico nuclear nem bate boca com o vilão ianque.
E foi assim que, quando o mundo inteiro esperava um banho de votos para lavar a mauvaise conscience pelo completo desconhecimento internacional das regras constitucionais hondurenhas, o governo brasileiro, para apoiar Chávez, foi à caça do apoio de tiranos africanos para repor Mel Zelaya no poder. Para tanto mandou às favas todas as regras do civilizado convívio internacional.
Como nunca antes na história deste planeta, abrigou na "embaixada" brasileira não um fugitivo de um regime ditatorial, mas alguém que decidiu impor a própria vontade de continuar mandando em casa, sem dar bola para as instituições e a opinião pública locais.
Esses episódios sempre terminam com um salvo-conduto ao abrigado na embaixada e seu asilo pelo país que o hospedou. Mas este não pode ser o caso: Zelaya não quer fugir de Honduras, mas ficar lá, sob a proteção de Lula, porque Chávez mandou.
O absurdo não para por aí. Lula tem exigido respeito absoluto ao território brasileiro da "embaixada" depois de ter chamado o embaixador de volta e mantido em Tegucigalpa apenas um encarregado de negócios. O governo de facto ainda não ocupou o prédio só para evitar pretextos intervencionistas, pois, como não reconhece a autoridade "golpista", o Brasil não tem mais embaixada em Tegucigalpa.
O ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda tem razão ao se dizer - em entrevista a Lúcia Guimarães no caderno Aliás deste jornal, no domingo - espantado com a intromissão brasileira em Honduras. Estamos é fazendo um banzé brasuca estúpido em terreiro alheio, que, aliás, não tem interesse nem importância nenhuma para nós.
Ao mundo, que tenta se esconder do vexame de ignorar as regras da democracia de um país pobre, o Brasil parece bater no peito e proclamar com arrogância: "Sou ignorante, sim, mas quem aí não é?"
Vale a pena ler na íntegra no site do Estadão.com.br
Aurora Gite
domingo, 27 de setembro de 2009
No meio de encruzilhadas de totalitarismos
http://www.espacorevistacult.com.br/
Espaço de debates e divulgação do conhecimento, localizado em São Paulo, no bairro do Paraíso, tendo como proposta disseminar a cultura. Essa equipe é responsável pela Revista Cult. Cheguem até lá e vejam a qualidade temática e o referencial dos profissionais que a enriquecem com seus artigos.
http://revistacult.uol.com.br/
A edição 129 da Revista Cult traz um dossiê sobre Hannah Arendt, escrito por Newton Bignotto. Sob o título de "Arendt e o totalitarismo", e o foco nos estudos sobre o totalitarismo que esclarecem a face trágica do século 20, o autor ainda aponta a visão de Arendt sobre os desafios das democracias no século 21. É muito interessante e tão atual, tendo em vista o que ocorre em Honduras, pois amplia nossa visão e perspectiva crítica com base nas evidências e dados de realidade que nos chegam de lá diretamente, e não em opiniões absolutistas e imagens midiáticas com recortes manipulados e direcionados a interesses específicos.
Outra edição que me chamou a atenção, e que associo como complemento dessa leitura, foi a edição 139 e seu "Partilha do Sensível - uma associação entre arte e política, segundo o filósofo francês Jacques Rancière" . Sob esse conceito ele descreve a formação da comunidade política com base no encontro discordante das percepções individuais, pertencentes ao mundo do sensível. Traça um paralelo entre as expressões artísticas e a sensibilidade estética da política. Aborda os discursos organizados pelo poder, e as formas de espetacularização do próprio poder, dificultando um trabalho de "pensar sobre" , que possibilite se chegar a uma síntese sobre os acontecimentos. Critica a manipulação do mero espectador, cidadão não atuante, facilmente direcionado a um envolvimento fanático, pelo recrutamento midiático de grande comprometimento emocional. Não é o que estamos vendo nessa crise de Honduras?
Como o Brasil foi envolto de forma a se situar como parte integrante da mesma? Ingenuidade e falta de comando, ou má fé e falta de transparência na gestão?
Como cidadã, queria um plebiscito aqui no Brasil, queria opinar e expressar livremente minha concordância ou não com essa decisão presidencial de ingerência em "casa alheia", com regulamentos internos diferentes dos nossos e com normas constitucionais que iriam ser vilipendiadas pelo presidente deposto, caso não tivesse sido destituído.
É importante, respeitando as devidas proporções, fazer uma comparação com nosso cotidiano. Imaginem numa rua, um bloco com diversos prédios, com seus respectivos condomínios e regulamentos internos. Um síndico é deposto da função por descumprir ítens desse regulamento, tentando alterar o estatuto, conforme sua conveniência pessoal. Descontente sendo excluído das assembléias à força, se põe a reclamar, a desqualificar seus opositores, e a buscar alianças nos prédios vizinhos, para conseguir nova entrada. Um condômino cede seu espaço, desde que fossem respeitadas as leis de uma convivência pacífica e respeitosa. Nova eleição já estava prevista e para uma data bem próxima. O síndico interino as manteve, como a observância das normas estatutárias anteriores. Não usou de nenhuma forma de agressão física, buscando manter um clima pacífico durante o período até a entrega do cargo ao eleito por maioria para exercer a função.
De repente, o síndico deposto se faz cercar por vários partidários, que invadem o pequeno espaço na assembléia e se fazem usufruir dos benefícios dos demais, chegando a acuar os que por direito ocupavam o espaço. É notório que esse síndico faz mau uso do poder e busca o incitamento de uma resistência com meios até violentos. Nós, participantes dessa assembléia, que nada temos com o conflito caseiro da deposição do síndico, como reagiríamos a tudo isso? Poderiamos ser envolvidos sem uma votação democrática sobre nossa aceitação em tomar partido? E a soberania do regimento de meu prédio como fica, já que o mesmo estava sendo desconsiderado e invalidado legalmente? E a minha soberania individual, minha liberdade de decidir - aspectos centrais de uma democracia - como seriam respeitadas?
Quem é quem no meio de tudo isso?
A quem me dirijo? Onde está o síndico de meu prédio? Onde está o representante da imobiliária, o responsável legal pela assembléia? Onde está o embaixador brasileiro de Honduras, que delegou a outrem a autoridade ante decisões tão importantes ?
" O único diplomata brasileiro presente em Honduras, o ministro-conselheiro Francisco Catunda Resende, disse à Folha, que foi surpreendido. Concordou em receber na embaixada brasileira a mulher de Zelaya. Logo atrás dela, entrou ele, com mala e tudo, disse o diplomata. Após conversas, veio de Amorim a autorização para acolher o casal." E os demais? Quem autorizou?
Quem invadiu a embaixada, além de Zelaya e de sua mulher?
Quem assumiu o poder lá dentro, estabelecendo limites de atuação funcional?
Quem verdadeiramente exerce a autoridade dentro da embaixada, território brasileiro?
A quem cabe administrar e disciplinar operacionalmente todas essas pessoas dentro de nosso território em Honduras?
Como podemos nos permitir não perceber a inversão de papéis e valores legais, se os poderes da nação hondurenha -Executivo, Legislativo, Judiciário e sua Suprema Corte - foram os mobilizadores das Forças Armadas e estavam unidos na deposição do presidente, por este não haver cumprido seus deveres constitucionais? Por que os defensores da Constituição Hondurenha querem ser ouvidos e não são escutados?
Como as outras nações se permitiram envolver dessa maneira deixando até em aberto questões diplomáticas pela intromissão na soberania de outro país?
E aí estamos nós, no meio de encruzilhadas de totalitarismos, posições centralizadoras e autoritárias, que buscam mobilizar massas para apoiar suas opiniões, distorcendo e camuflando informações. Mas eu quero ser escutada!
Sabem ao que nos reduzem? Estão conscientes do perigo de permanecerem nesse silêncio complacente, nessa co-participação passiva com estranhas ingerências ideológicas em um governo que se diz democrático, por ter sido escolhido por votação popular, mas que adota medidas tão absolutistas? Aumentos seletistas de salário, indicações impositivas para a vitória de um sucessor , aliás agora Chávez, presidente da Venezuela, segundo a imprensa noticia, se tornou abertamente um dos defensores de Dilma Roussef à Presidência do Brasil, sabiam dessa? Já imaginaram o precedente aberto, conforme o desfecho da crise hondurenha?
E lá vamos nós, reaprendendo a pensar e reativar o nosso senso crítico:
Crise política acarretando crise econômica? E...?
Crise diplomática envolvendo crises de capacidade de persuasão e negociação? E...?
Crise de paciência ante lentos acordos e de falta de tolerância a frustrações e adversidades angustiantes? E...?
Crise de identidades que trazem consigo a falta de capacidade de discriminação de limites?
Crise de convivências respeitosas que implicam na capacidade de administrar as diferenças?
É por aí mesmo... Continue!
E para respeitar as diferenças tem que haver humildade suficiente para perceber as limitações ou ... arrogância em excesso e falta de amor-próprio, para conviver com imposições e submissões totalitárias.
E então?
Então, agora vocês têm novos instrumentos internos para escolherem qual postura adotar: mero observador da espetacularização midiática e polítiva, ou cidadão democrático, nada ingênuo nem robotizado, que amplia seus pontos de vista além da aparência desfocada pela falta de transparência dos discursos políticos atuais, em sua maioria ... Acho importante essa ressalva, pois vivo e gritante ainda se encontra um grupo minoritário atualmente, se bancando em sua esperança de mudanças.
Como Rancière nos confronta com "um presente que não é alegre, porque não há esperanças fortes... que sustentem os movimentos existentes, eis o comentário que encaminhei sobre a matéria, em 15 de setembro passado:
"Excelente oportunidade de entrar em contato com as idéias desse filósofo...Gostaria aqui de pontuar outra perspectiva. O fato de não ser mobilizada uma luta social contra o sistema capitalista, não impediu que a crise financeira confrontasse o ser humano consigo mesmo e com a forma antiética de dominação e exploração nas interações pessoais. Pegou mais fundo. Há muita esperança!"
A cada encruzilhada de totalitarismos, o ser humano mais se sensibiliza e humaniza, e encontra mais força para partilhar o que tem de melhor em si. E até se permite questionar, nesse momento de crise: O que tenho de melhor?
E esse é o primeiro passo para estabelecer seus limites pessoais novamente, rumo ao resgate de sua identidade. Aqui reside a minha esperança para esse milênio.
Aurora Gite
domingo, 13 de setembro de 2009
Chegou 13 de setembro, com direito a parabéns!
Data que não dá para esquecer.
Minha mãe foi do dia 12. Uma de minhas filhas é do dia 14.
E ainda tem o dia 10 de setembro!
Fizemos parte da torcida pelo saudável nascimento de um neto.
Aproveito para felicitar um avô por seu primeiro ano nessa função.
Agora, pense no som vibrante e envolvente de Mozart.
Serenade nº 13 in G Major, K.525; 1st mvt: Allegro
(Slovak Philharmonic Orchestral/Libor Pesek, Conductor)
E receba, sob essa vibração, meu abraço afetuoso
Nesse "seu" dia no ano de 2009.
Aurora Gite
sábado, 12 de setembro de 2009
Solidão, vontade e liberdade
No entanto, esse é o destino psíquico de todos nós, para iniciarmos a escalada de subida visando o fortalecimento de nosso mundo interior. A vivência com essa fragilidade e mesmo vulnerabilidade é que nos mobiliza para o resgate de nossa potência como ser humano.
A percepção que não somos tão limitados e impotentes, por si só, já nos revigora e transmite sensação impactante de alegria e regozijo indescritível, antes não sentidos. Representa a passagem, já abordada por mim, do "eu existo" para o "eu sou", que tende a alcançar o "quero ser e tornar-me eu". É o movimento que Platão bem representou em seu "Mito da Caverna", sendo esta o símbolo de nossa própria existência em nosso mundo interior, como coloca Hannah Arendt (Entre o Passado e o Futuro, 2007).
Gosto de, saindo dos lugares teóricos comuns de muitos psicoterapeutas, analisar meus pacientes sob o prisma do tipo de governo interno que adotam na interação entre os dois mundos (subjetivo e objetivo) , da qualidade de regência de seus recursos psíquicos e do controle sobre a administração das estratégias que utilizam. Quantos não ficariam surpresos ao perceberem a forma tirana e o governo totalitário que adotam no domínio e fiscalização das próprias forças psíquicas. Muitos se revelam verdadeiros déspotas ante o rigor das exigências e autocobranças.
Já localizei em posts anteriores o papel que desempenha Hannah Arendt e minha admiração por suas articulações. É uma pena que não tenha fugido de, como bem provam os dados históricos referentes a muitos pensadores, ter um maior reconhecimento de sua obra e melhor compreensão de suas idéias, após sua morte. Comprovo muitas de suas hipóteses sobre o ser humano por meio dos dados através de observações advindas da área clínica. Expresso um pouco isso no texto abaixo.
Vou focar nesse post três fenômenos humanos constantes e universais, nomeados como: solidão, vontade e liberdade. Três conceitos difíceis de serem analisados racionalmente, pois englobam outras dimensões do ser humano. E, se concebermos o mundo psíquico dentro de uma totalidade sistêmica semelhante ao corpo humano, inclusive com duas vias circulatórias de energia psíquica, podemos observar suas atuações em ambas. Vamos encontrá-las no mundo dos valores (forças) morais, e no mundo das virtudes (princípios inspiradores voltados ao Bem), expressos pelas ações deles decorrentes.
Acredito ser importante pontuar que a virtude não é racionalizada, não pode ser ensinada ou aprendida, seu entendimento decorre de uma compreensão superior, mas tão vital ao organismo psíquico no que diz respeito à integração das dimensões humanas psíquicas mentais com as espirituais. Sob esse termo, me refiro a dimensões mais elevadas, características do ser humano mais amadurecido psíquicamente, mais sereno e livre em suas ações voltadas a momentos de autoaconchego e plenitude interior.
Ao se reportar ao fenômeno da solidão, Arendt considera o "homem solitário não mais um, e sim dois em um", pois, no momento em ocorre a "interrupção entre mim e meu próximo, tem início o relacionamento entre mim e mim mesmo".
Complicado?
Vamos verificar o que torna essa assertiva mais difícil de ser entendida?
Eis alguns obstáculos:
-A maioria das pessoas não aprendeu a pensar, refletir e analisar a aplicabilidade prática do que lê. Buscam enquadrar o outro para validar teorias, lidas superficialmente sem grandes introspecções, sobre seus significados.
-Para muitos, é mais comodo não se individualizar. O se tornar indivíduo demanda empenho, esforço e responsabilidade pelo bem-estar do ser único que se tornou.
-Para alguns, ainda, falta o hábito de entrar em contato com esse lado psíquico, se permitindo acompanhar a dinâmica de forças atuantes, ou o movimento das idéias que se entrelaçam nesse diálogo interno. Para isto é preciso coragem, determinação e perseverança. São viagens em mundos desconhecidos dentro de nós, a meu ver, de grande fascínio, mesmo as sofridas que nos espelham o que não gostaríamos de ter, mas que podemos, a partir daí, optar por não mais ter.
-Não é fácil o confronto com um "quero e não-quero", "quero e não-posso", "sei-mas-não-quero", como bem coloca Arendt. Existe sempre o subterfúgio do "não sei", "acho que", "tento e não consigo", que a tudo mascara, com as pessoas esquecendo que o "autocontrole corresponde à virtude política onde "quero" e "posso" se afinam", e a "coragem é uma das virtudes políticas cardeais, representando o bem supremo para se tornar um indivíduo".
Sempre me questionei muito sobre essa energia psíquica e sua forma de distribuição dentro do ser humano, que, como ocorre dentro de um caleidoscópio, basta ligeira movimentação para que séries de desenhos de funcionamentos psíquicos se delineassem, demandando leituras específicas para seu entendimento.
Para uma melhor compreensão desses fenômenos muito contribuíram tanto a Física Quântica, quanto as propostas de Arendt, sobre a "pluralidade de perspectivas inerentes ao ser humano em sua unicidade" e "articulações que levam as experiências a uma esfera do esplendor que não é a do pensamento conceitual", a observação da imprevisibilidade do efeito da ação humana independente da motivação interna e do princípio causal que rege o mundo exterior.
Parte de um quebra-cabeça era montado dentro de mim, e novas inquietudes surgiam, impulsionando novas indagações e novas buscas investigativas. Sendo o homem soberano para atuar em seu mundo interno, até onde iria essa liberdade? Como atuaria o fenômeno da liberdade tão sonhada e almejada? Vontades genuínas e vontades criadas, como discriminá-las mais prontamente? Como unir, com mais exatidão, a faculdade intuitiva com as capacidades de sentir e pensar, obtendo ações mais coerentes e consistentes, visando melhor qualidade de vida para o ser humano, assim mais autorealizado e autovalorizado? Como possibilitar sua maior integração ao social, ou ao público, preservando sua individualidade?
Hannah Arendt, no livro citado acima, lança a hipótese sobre a possibilidade da liberdade começar onde a política (coisa pública ) termina". Para ela a liberdade, na área da política, é oposta à liberdade no espaço íntimo do sentir-se livre, pois esse espaço pertence ao ser apolítico.. "O homem é livre e aplica a ciência do viver, desde que saiba distinguir entre o mundo estranho, sobre o qual não possui poder, e o eu, do qual ele pode dispor como achar melhor... ser escravo no mundo e ainda assim ser livre."
O fenômeno da liberdade não surge na esfera do pensamento ( das idéias) nem é vivenciado no diálogo consigo mesmo. Resgata as citações de Epicteto: " É na morada interior que o conflito consigo mesmo irrompe e a vontade é vencida, que o homem é senhor absoluto... Livre é aquele que vive (em seu mundo psíquico) como quer... livre dos próprios desejos."
Paradoxal? Nem tanto.
Complexo para se entender? Muito.
Vamos , então, tentar compreender seguindo as associações estabelecidas por ela, e buscando confirmação, observando os movimentos psíquicos que ocorrem dentro de cada um de nós?
Não é fácil para a maioria das pessoas, perceber essa dinâmica interna.
Prefere substituir por movimento, energia, atividade ? Tudo bem.
Lembra do caleidoscópio? Então tente verificar os desenhos, ou imagens mentais, que suas idéias formam ao se associarem.
Muitos, inclusive, não estão nem afim de se aproximar de conceitos abstratos, se prendendo a uma realidade concreta com sua utilidade prática imediata e visível. É tudo questão de perspectiva, de tempo e de escolha.
O encontro com nossa interioridade está marcado, bem como o confronto com o sentido da vida. Em algum momento de sua existência, as pessoas não vão só se questionar sobre os "porquês", mas buscar responder à pergunta: "Para que tudo isso?"
Como essa ação depende de forte vontade interna, eis o fenômeno introduzido neste texto.
Volto a Arendt: "A ação sendo livre, não se encontra nem sob a direção do intelecto, nem debaixo dos ditames da vontade ... Existem motivos e objetivos, mas a ação é livre ao ser capaz de transcendê-los."
E aí, o que é o fenômeno da vontade? O que é a vontade para você?
É uma faculdade humana, onde existe o livre arbítrio, "existe uma liberdade de escolha que arbitra e decide"? É um sentimento que incita alguém a atingir o fim proposto por esta faculdade?
"Para Nietzsche era o impulso fundamental inerente a todos os seres vivos, que se manifesta na aspiração sempre crescente de maior poder de dominação." Para Schopenhauer é o princípio norteador da vida humana. Para ele, "a vontade corresponde à Coisa-em si, ela é o substrato último de toda realidade."
Arendt chama a atenção para outra perspectiva de escolha voluntária, quando impera uma necessidade, estando em jogo a própria vida. Toda vontade, segundo ela, implica em uma vontade de poder que, como nesse caso, se transforma em vontade de opressão, que nos coloca sob o jugo de outrem, de um governo maior que somos obrigados a acatar e nos adequar para sobreviver.
Nosso foco não recai sobre a vontade direcionada por essa exigência, mas sobre a liberdade da vontade, e nesse momento nosso objetivo é uni-la a uma Ética Superior, mais além do bem e do mal, e bem mais além da moral , com seus costumes temporários e suas regras para uma boa convivência. Citando Schopenhauer, a compreensão da Vontade faz aparecer todos os entes desde seu caráter único, o que leva, necessariamente a um sentimento de fraternidade e a uma prática de caridade e compaixão. E assim se expressa ainda: " A máscara do pensamento dissimula a vontade... A suprema felicidade somente pode ser conseguida pela anulação da vontade (querer mundano)". Como diferenciar o que é criado por nosso pensamento do que é a expressão de nossa alma, de nosso ser autêntico e verdadeiro, que habita bem lá dentro de nós?
Refletindo sobre nossas vivências, podemos verificar que "A ação da vontade, sobre nós, tem um prazo de validade, e seu vigor se exaure". No entanto, existe uma área em nosso mundo interno, onde a ação brota de um "princípio inspirador", expresso no ato realizador, que não perde seu vigor nem sua validade, que não se prende a nenhuma pessoa ou grupo em especial. Onde "ser livre" e "agir" são uma mesma coisa. O querer, o tesão sentido, o grau de satisfação alcançado, pertencem a outra dimensão humana. A sensação de leveza e de alegria são de outras grandezas, não nomeadas, e indescritíveis.
Que espaço é esse?
Esse é o nosso espaço interior destinado às virtudes. Você pode ler a palavra e analisar sob o aspecto formal ( letras, sílabas, sons, etc), com também pode verificar seu significado em um dicionário (força moral, valor; disposição firme e constante voltada para o bem), mas pode ir pelo caminho da obtenção de conhecimento por uma autoinvestigação. É estar aberto ao novo. É estar flexível a prováveis mudanças de convicções. É soltar o peso dos preconceitos acumulados, das crenças e conceitos disfuncionais ao seu bem-estar. É se libertar. É sentir-se livre. Como?
Eis uma dica: Já percebeu a leveza que vem ao pensar na frase sem julgamentos prévios: "Fazer o melhor que puder e ser o melhor"? Sinta o conteúdo da mensagem! Verifique se não percebe que "a perfeição está no próprio desempenho e se torna independente da ação", e que "a presença da liberdade é vivenciada em completa solidão". Reconheça dentro de você o espaço onde o homem aproxima sua vontade do conhecimento ético intuitivo , onde ele "sabe" o que é certo e se impede com prazer de fazer o contrário, onde ocorre uma alegre e serena renúncia interna por amor... por amor a si mesmo, como ser humano valorizado e vitorioso na conquista de sua dignidade pessoal.
Lembra de dois posts : "Otimizando recursos em tempo de crises" (outubro/2008) e "Você quer receber um presente meu?" (novembro/2008) ? Fica meu convite para revisitá-los.
Aurora Gite